domingo, 3 de dezembro de 2017

Despedida final

  "Essa é a minha carta final. Sinceramente, não sei qual o motivo da escrita disso. Esse texto apenas me traz mais sofrimento, me faz lembrar o quão incrivelmente malditos foram os últimos anos. Acho que me tornei o filho de uma causa perdida. Não vou mentir para mim mesmo, eu nunca fui uma boa pessoa. Nunca fui um exemplo de vida, alguém que servisse de modelo. Tratei a maioria das pessoas de maneira medíocre. Vivi mais para mim do que vivi para qualquer pessoa. Claro, se eu quisesse justificar esse caminho, eu o faria. Tenho a capacidade de justificá-lo de acordo com o que eu acredito. Afinal, se não tivesse uma justificativa eu não o teria seguido. Mas não é minha vontade que outros entendam o que eu fiz. O que seria do mundo se resolvessem viver da mesma maneira?
 Eu poderia ter vivido melhor, agradado a mais pessoas. Mas agora que tomei a decisão me pergunto que diferença faria. Não me sinto mal com minha vida e nem me sinto mal pelas pessoas que decepcionei. Eu me sinto mal com o que será de vocês daqui pra frente. Racionalmente, não faz muito sentido. Não vou ver nenhuma mudança no mundo, não verei nenhuma piora, nenhuma melhoria, nada de diferente. A verdade, imagino, é que eu parto cedo demais, e para mim não mais existe um propósito. Mas para vocês... existe. Claro que, socialmente, eu deveria me sentir mal por isso. Mas, novamente, que diferença faria? Não haverá remorso, essa é a mais pura verdade que vejo. Há algum tempo vocês deixaram de ter qualquer importância. E não desejo que morram, não. Desejo que vivam o suficiente para que possam continuar esse asqueroso processo de julgar uns aos outros. Seus pecados não mudarão o mundo, é verdade, mas farão com que as outras pessoas, secretamente, cultivem algo de ruim por vocês. Até que não mais seja secreto... aí é quando começa a verdadeira noite do julgamento. Uma angústia muito pior do que qualquer coisa que possam imaginar. Ou, ao menos, é assim que eu espero que seja.
 Imagino que eu possa parecer uma pessoa terrível ao falar tudo isso, principalmente numa ocasião como a atual. Mas a verdade é que não me importo mais. Trair a confiança daqueles que muito se importam contigo, abdicar de valores próprios para satisfazer uma multidão de ignorantes, jogar a si mesmo num penhasco de infelicidade em busca de algo menos assustador que a vida. Vocês pecam a todo momento. Que direito têm de me julgar? Tenho certeza que pareço um fraco agora. Sim, eu sou. É claro que sou. Por qual outro motivo eu estaria nessa situação se não fosse? Mas eu cansei. Tentei, por vezes, ser bom. Não que eu realmente soubesse o significado disso, mas tentei. Começou como algo incrível. Um sorriso à meia luz, um agrado aqui e ali, um raio de esperança. Que sensação boa! Quase que inumana. Mas, na verdade, era completamente inumana. Deixar os outros felizes –honestamente felizes– há muito deixou de ser uma prática humana. Vocês... não, não vocês. Nós não conseguimos mais criar o bem. Existimos para destruir o que quer que nasça de bom. E sua falsa preocupação com isso me enoja. Sinto empatia pelas pessoas que realmente entendem isso. Mas não teria uma diferença, já que minha carta não vai alcançá-las. Não poderia alcançá-las. Peço perdão a quem ofendi sem necessidade (apesar de duvidar que alguém não mereça isso) e espero que vocês aproveitem bem. A minha desgraça se esvai para alimentar, fatalmente, o ego podre daqueles que dela sempre quiseram se apossar. Me despeço de consciência limpa, coração vazio e uma dúvida no peito: quando foi que vocês se abandonaram?"

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Elegia em preto e branco

Além da flâmula vibrante
Que me revela, exuberante,
O pandêmico devaneio
Fruto do mais louco desejo
Jaz a imensa insensatez
E sua gêmea, estupidez

Por entre tiros e derrotas
Por entre quedas e vitórias
Sob o mais valioso mármore
No mais extravagante cálice
Jaz a imensa insensatez
E sua gêmea, estupidez

E os emissores dessa dor,
Um veneno a qualquer amor,
Qualquer amor são que se veja,
Em mansões ou mesmo em igrejas,
Corrompem tudo em que tocam
Com vidas, pouco se importam

Pois muito se ocupam e se consomem
Com a fraqueza do que fizeram ontem
E não veem, cegados por um falso brilho,
A aquarela escarlate ao tique do gatilho.

                   Felipe Valverde

domingo, 27 de agosto de 2017

Vozes

  É um pouco engraçado. Quando somos pequenos, costumamos imaginar que o mundo é todo o lugar até onde nossas vozes viajam e são ouvidas por outro alguém. As outras pessoas sempre nos escutam, e nós as admiramos. Por que, então, quando olho para mim mesmo hoje, nada disso se faz presente? Eu falo. Eu falo, grito, choro. E ainda assim, minha voz não chega a lugar nenhum. Para falar a verdade, eu não tenho certeza se alguma vez ela saiu de mim. Me sinto... sozinho. Mas é normal, eu acredito. Todas as pessoas passam por isso. De repente, lembro-me: não estou mais naquele mundo. Não, o mundo é outro. Agora, eu vivo no mundo adulto. O mundo real. Os minutos se passam e todas as pessoas caminham por você, te atravessam. Eu não admiro mais as pessoas. Pra falar a verdade, faz um tempo que eu não admiro nada. De vez em quando uma paisagem ou outra...
  Agora, a relação que eu tenho com as outras pessoas é dolorosa. Mas não tenho tempo para me doer. As pessoas esperam muito de mim. Elas cobram, estão aguardando minha resposta. Num mundo onde as vozes não chegam a lugar algum, todos querem ouvir uma resposta. Carregamos o peso do nosso dever moral, como seres conscientes, no eterno silêncio violento que musicaliza um filme apavorante: a realidade. Eu vivo a vida dentro de mim. O mundo me mostra seu terror pelo olho mágico da porta da frente. A maçaneta gira, as sombras que permeiam por debaixo da fresta da porta se agitam, de um lado para o outro. "Oi?". O que quer que esteja lá fora, no mundo, permanece mudo. "Quem é você? O que você procura?". Não ouço um só barulho. O mundo real nunca me respondeu. Talvez ele queira, talvez ele tenha respondido. Mas talvez sua voz não tenha me alcançado. Toda a vida, porém, me ensinaram a não abrir a porta para estranhos. E o mundo, acima de tudo, me é estranho. Estranho demais, irreconhecível. E a visão do olho mágico não é nada agradável. Quando olho, vejo apenas solidão. O mundo não é um lugar bonito. Não mesmo. Ao menos não daqui de dentro. Às vezes eu penso que esse é o motivo para eu me decepcionar tanto com as pessoas. Nunca, na minha vida no mundo adulto, eu ouvi a verdadeira voz de uma pessoa. De um ser humano. Sinto que sempre me comuniquei por... qualquer coisa. Qualquer coisa que não a voz. Recados, telefonemas, bilhetes. Isso é carinhoso e tudo... mas não é completo, sabe? Depois de uma vida inteira ouvindo vozes e mensagens distorcidas, tudo que eu mais poderia desejar, na insanidade desesperada do meu próprio espírito, é uma voz. Aqui, do meu lado. Mas ela nunca está. É sempre uma versão mais fraca. Apagada. Uma cópia de uma voz. E quando conhecemos uma pessoa, cada vez mais vendo seus bilhetes, percebemos que ela na verdade não é a pessoa que parecia ser. Por vezes eu penso que nem mesmo pessoas são. Talvez, depois de tudo, eu realmente esteja sozinho no mundo. Uma consciência errante no universo, procurando apenas uma companhia. E talvez sejamos todos assim. Talvez tudo que procuremos seja outra alma. Não buscamos arte. Buscamos alguém. Não buscamos riqueza. Buscamos alguém. Não buscamos ninguém. Buscamos nós mesmos nos outros. É... talvez a humanidade seja só mais uma mentirinha. Humanidade... talvez sejamos só criaturas brincando de ser gente.

                                   Felipe Valverde

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Onde Você Se Encontrou Da Ultima Vez Que Se Perdeu?


   "Eu mudo ao longo do dia. Eu acordo e sou alguém, e quando vou me deitar tenho certeza que já sou outra pessoa. Eu não sei nem quem eu sou na maior parte do tempo. E eu não me importo muito com isso." - Bob Dylan

   Acordei com uma sensação estranha. Um tipo de incômodo, mas nada grave a ponto de me impedir de levantar e sair de casa para a rotina diária, seguindo os passos do eu de ontem. Era uma sensação constante de algo fora do lugar, mas que eu não sabia com exatidão de onde vinha. Tão perceptível como uma dor física, e desconfortável como um osso deslocado. Mas não sabia exatamente o que faltava, e pensei estar ficando louco. Afinal, nunca vi ninguém se queixando de uma dor que não consegue localizar. Alguém reclamar de uma dor e não conseguir explicar de onde ela vem? Maluquice. Tentei então descrevê-la para o primeiro que dou bom dia quando acordo: O outro eu, aquele que encontro todas as manhãs logo ali do outro lado do espelho do banheiro, enquanto escovo os dentes. Boa companhia, esse outro eu. Normalmente ele não precisa nem abrir a boca para que eu entenda o que ele sente. As vezes, ele sabe até o que está passando pela minha cabeça antes mesmo que eu perceba, e consegue me dizer isso apenas com o olhar. Inclusive, acho até que nunca nem precisei dirigir uma única palavra a ele. Conseguimos nos comunicar apenas com olhares, então nos analisamos, e damos nossas conclusões​ um ao outro mentalmente. Acho que ele sabe ler mentes. Contei para meu amigo o que havia de errado, da forma mais descritiva que consegui montar: "É como se eu tivesse saído de casa sem a carteira ou algum outro objeto importante. Como quando você chega em casa, e ao botar as mãos no bolso percebe que perdeu as chaves", eu disse para meu amigo, mentalmente. Ele não respondeu. Nem sequer estava lá, para falar a verdade. Aquilo me deixou extremamente frustrado. Desde que nasci, em todos os dias da minha vida, até mesmo nos dias mais solitários, eu podia contar com ele no espelho do banheiro. Mas dessa vez tinha deixado apenas sua casca sonolenta, me fitando com um olhar morto, totalmente imparcial. Apenas uma cadáver cansado e triste.
   Talvez eu tivesse perdido minha casca, eu conclui. Pode ser que minha máscara tenha caído, e pela primeira  vez eu esteja encarando o verdadeiro eu. Ou na pior das hipóteses, perdi o que tinha atrás dela. Preferi me ater à primeira opção, afinal, como eu posso perder o conteúdo da minha casca, se quando eu a retiro, tudo o que sobra sou eu? Teria eu me perdido? Que besteira. Nem mesmo os náufragos mais distantes da civilização estão totalmente perdidos. Quer dizer, quando se é um náufrago, foram as pessoas que te perderam, e em parte dos casos você talvez também tenha perdido as pessoas. Mas você não pode se perder por completo, já que se você encontra um pedaço de espelho velho enterrado em uma ilha, ou no meio dos destroços de antigas embarcações, ainda encontrará seu eu do espelho ali do outro lado do vidro, lendo sua mente. Mas meu eu do espelho não estava lá. Eu era realmente uma casca vazia, sem uma alma pilotando meu corpo, totalmente perdido e entregue ao mundo físico. Um náufrago indo à loucura. Ao me dar por conta disso, o desespero começou a tomar conta de mim, como óleo quente, preenchendo cada milímetro do meu corpo vazio. Depois se esfriou, e veio o medo como água gelada, paralisando a imagem do espelho com uma expressão de terror absoluto. Mas depois meu cérebro mecânico veio à tona, funcionando como uma máquina à vapor, estalando e soltando a água em forma de fumaça. "Procure-se!", disse ele como um robô.
   Em poucos minutos eu já estava seguindo o protocolo, me procurando. Eficiente. Primeiro fui à igreja. Talvez minha alma estivesse lá, buscando a salvação sem ter me contado, antes que fosse tarde demais. Mas eu estava enganado, não cheguei nem perto, e não encontrei absolutamente nada. Tentei o caminho contrário, recorri ao meu diabo de estimação. Aquele pequeno mal necessário que nos persegue inevitavelmente, que vive dentro do bolso do casaco favorito de todos nós. Aquela criatura que leva os homens mais corajosos à igreja, correndo apavorados de seus problemas, em direção ao nada, e que leva os mais covardes ao encontro com seus pesadelos. Mas eu não o encontrava, nem em caixas vazias de remédio, nem no fundo de garrafas de vidro. E cada vez que checava o espelho, via alguém mais distante. E digo "alguém" pois era sempre alguém novo, cada vez mais estranho e diferente do meu antigo amigo no espelho do banheiro. Vi um fazendeiro com medo do oceano, uma peculiar senhora asiática que colecionava tintas, e um flautista obcecado por filmes de velho-oeste. Vi um domador de leões e um artista deprimido. Vi o grupo de pessoas mais estranho do universo, todos eles olhando pra mim, com certa familiaridade. Alguns gostavam de conversar, outros preferiam tentar ler minha mente, como meu antigo companheiro fazia. Alguns obtinham sucesso, outros nem tanto. Alguns ficavam por dias, outros se decepcionavam comigo e sumiam em poucas horas, sem nem dizer adeus ou contar para onde iam. Eles nunca diziam adeus.
   Eu estava a ponto de me acostumar com essa variedade de pessoas que me visitava todos os dias. Confesso que em certo ponto se tornou uma bagunça: Duas, três, até cinco pessoas em certa ocasião, apareciam ao mesmo tempo. Discutiam, em um tipo de jogo sem vencedores, qual personalidade era mais interessante, como se quisessem chamar minha atenção. "Eu sei pelo menos dez casas decimais do pi, de cor!" dizia um. "E eu consigo identificar todas as constelações do hemisfério norte!", outro respondia, mais alto. Acho que no fim, o que os fazia ir embora sem se despedir era o fato de que eu nunca dava meu veredito. Nunca conseguia decidir qual amigo de espelho era mais interessante, talvez por um medo de ter que definir um deles para me fazer companhia para sempre. Essa escolha é assustadora, não? Ter que definir alguém que vai passar o resto da sua vida como seu reflexo, é uma decisão que merece meses de estudo. Mas talvez eu tenha demorado demais. Estava começando a fazer amizade com um homem um pouco incomum, que gostava de decorar palavras grandes com significados engraçados do dicionário, quando de repente, sumiu. Não que isso fosse fora do padrão, na verdade já tinha me acostumado. O problema foi o próximo personagem que apareceu no espelho, e nunca mais saiu de lá. Esse novo indivíduo, ao mesmo tempo que tinha todas as manias e esquisitices de todos os outros, sabia tanto, que falava tudo de forma extremamente ansiosa, como se quisesse falar todas as palavras ao mesmo tempo. Não tinha nenhuma ambição, e menos ainda um foco. Quando decidia falar algo, falava por horas, e era impossível de se acompanhar. O mais impressionante era sua semelhança física comigo. Quanto mais eu olhava para ele no espelho, mais parecia que, pela primeira vez na vida, eu estava olhando para meu próprio reflexo. La estava eu, olhando para mim mesmo no espelho.

                                                                                                                            Theo Vargas

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Decência

  Não sei ao certo, mas era próximo do meio-dia. Dentro da minha casa, um movimento incomum tomava lugar, enquanto parentes, amigos e conhecidos da família caminhavam de lá pra cá, estressados e frenéticos. Eu, às vezes, sonho com uma família feliz. Algo sem complicações, sem dramas e sem falhas. Devaneios utópicos de uma cabeça desocupada, que de mim tomam conta e se escondem nos sombrios e iluminados cantos do universo que se desenrola, liberto, em minha mente. Mas, em momentos como o descrito, tenho completa ciência das desvantagens da perfeição. É doloroso, quase que fisicamente doloroso: todo um dia de reações e emoções de plástico. O ápice da decadência social humana. Uma indústria de corações partidos com outdoors de felicidade.
  Enfim, todo esse alvoroço se dava pela ocasião inusitada que era iminente: um casamento na família. Algum primo, há muito distante, encontrara o par perfeito, e convidara toda a família que ele mesmo havia abandonado. Par perfeito. Como se fosse assim que funcionasse. As pessoas tendem a pensar que é desse jeito que a banda toca. Que existe uma combinação única e especial, aguardando-as. O erro está em dois lugares. Primeiro, está em pensar que existe a outra metade da laranja. Conversa fiada! Somos todos frutas diferentes. A mesma matéria orgânica, decerto, mas frutas diferentes. O outro erro, significativamente mais grave, está em pensar que temos que procurar nosso igual. Eu teria ânsia de vômito se tivesse que conviver com um clone meu pelo resto da vida. O mais encantador nesse mundo é aquilo que não conhecemos. O surpreendente, não o rotineiro. Bom, a família feliz estava terminando de se organizar para o tal casamento, perto das duas da tarde. O casamento era às cinco, mas o noivo tinha escolhido, para a cerimônia, uma chácara afastada da cidade. Decisão que eu não só respeito, como admiro. A festa acabaria de noite, e o céu do campo à noite é encantador. Eu vestia meu terno e nos preparávamos para sair. Roupas sociais são uma besteira, mas isso, por si só, não era muito incômodo.
  Começamos a nos organizar nos carros, e saímos em tempos diferentes. Não era possível ver os outros carros de onde eu estava. A viagem durou algum tempo. Eu não gosto muito de entrar no carro para viajar, mas depois que a viagem começou, até que eu gosto. Me acalma, me distrai. The Growlers fez a trilha sonora do caminho. Alguns vários minutos depois, chegamos à cerimônia. Descemos do carro, e começou uma tediosa sessão de cumprimentos a pessoas que nunca me fizeram falta na vida. Um nojo profundo tomou conta de mim. Náusea. Essa mania do ser humano de tentar parecer agradável para pessoas que não se importam com ele me deixa nervoso. Leis artificiais de um suspeito convívio social corrompido. Um manual ilegítimo de etiqueta, regendo vidas, oprimindo emoções. Leis não escritas para engrenagens iletradas. No fim, é isso que somos: um bando de ovelhas seguindo pastores de mentira, espantalhos. E aqueles que ousam sair da condição de ovelha, continuam presos em amarras doentes. O sistema é implacável, afinal. Quem não é ovelha, se perde em sua própria loucura. Capitães sem navios e chefes sem tribos.
  De tempos em tempos me pergunto que bem me faz pensar tanto, criticar tanto, questionar tanto, me importar tanto. Me pergunto se uma alegria ignorante seria melhor, mais simples e mais recompensadora do que uma liberdade plena. De que adianta eu me enfesar tanto com tudo, se nada mudo? Por certo tais insatisfações com o mundo só não me tomam por inteiro pois uma indignação ainda maior pisoteia pensamentos prévios a ela. Em grandes ou pequenas escalas, felicidade artificial é a perdição da humanidade. Nunca seremos o que almejamos ser, o que pensamos ser, se nos contentarmos com tamanha mediocridade. Não chegaremos a lugar nenhum obedecendo ordens. Avanço, engrandecimento, expansão da mente: sinônimos de rebeldia. De liberdade, pura e simples, potente e fatal. No final de tudo, não existe contentamento verdadeiro em ser mais uma peça no organismo poluidor da humanidade. E poluidor, eu digo, em mais de um sentido. Na verdade, em todos os sentidos que sou capaz de imaginar. Evoluímos e evoluímos até chegarmos em nossa mais imperfeita forma. Comandantes que pensam ter poder e comandados que pensam não o ter. A cerimônia durou tediosas horas. Mas, no final, não me senti indignado com aquelas pessoas. Que culpa têm? Apenas tentam ser felizes. Desesperadamente, buscam conforto umas nas outras, apoio para que possam continuar sobrevivendo, mesmo na anestesia do sistema. Ou melhor, buscamos. Não me excluo desse grupo. Por mais que eu busque me libertar, o sistema é, de fato, implacável. Não se abandona o sistema, simplesmente. Primeiro, é necessário tirá-lo da nossa mente, para depois pensar no próximo passo. Mais horas de viagem, e agora estou no quarto. Novamente decadente, sem a adorável família para fazer companhia. Algumas horas, apenas, usando as fantasias de "gente comum". Gente que gosta de gente, de toda a gente. Mas no final, nenhum de nós é comum. Não, uma alegria ignorante não é nada boa. E por isso busco sempre me expandir. Mente aberta para tudo que vier. Aprender, aprender. Não somente na escola. Em todo lugar, observando-se da forma correta, aprendemos. E o conhecimento do mundo é essencial, de fato. Não queremos ser mais uma Laranja Mecânica. Afinal, é quase como se dizia:
  Mente vazia, oficina do Estado...

                              Felipe Valverde

domingo, 18 de junho de 2017

O Animal Antissocial

  Filósofos e cientistas de todos os cantos do globo, desde o surgimento da civilização, se questionam sobre o diferencial que o evoluído homo sapiens apresenta em relação aos outros seres vivos. Por que apenas nós temos uma comunicação tão complexa? Por que apenas nós dominamos ferramentas da forma que dominamos? Em que ponto a seleção natural agiu de forma tão especial para nós, a ponto de deixar nosso intelecto tão aperfeiçoado, muito maior do que dos outros seres vivos?
  Por muito tempo, pensou-se que Deus teria nos feito semelhante à sua imagem, diferente dos outros seres vivos, com almas, dons de livre arbítrio e sentimentos. E por isso seríamos a espécie arquitetada de forma perfeita, e nossas imperfeições seriam todas causadas pelo nosso próprio pecado inicial. Algum tempo depois, com ideias mais esclarecidas sobre evolução das espécies, chegamos à conclusão que somos melhores porque somos um animal social. Nos organizamos em tribos porque somos sociais. Pensamos em nosso futuro porque somos sociais. Descobrimos o fogo, criamos leis, construímos ferramentas e matamos nossos semelhantes porque somos sociais.
  Junto com essas perguntas sobre nossas origens, logo pensamos em nossos fins. Afinal, nossas únicas certezas são nossa existência, e que essa existência algum dia acabará. E seria um grande problema para o tão inteligente animal social, que ao mesmo tempo que cria e desenvolve pelo bem do grupo, depende de forma vital de seus semelhantes, se junto com essa certeza viesse a verdade de que todos morreremos sozinhos. Uma ideia certamente assustadora para um ser que depende tanto do próximo: O fato de que tudo formado por aqueles a sua volta, tudo que foi criado e nunca compartilhado, todas as palavras reprimidas ou escondidas no solitário porão do pensamento, tudo desaparecerá caso não seja jogado em um diálogo. Toda uma enciclopédia, dicionário ou livro de história escrito mentalmente ao longo de uma vida, queimados pela força devastadora da morte.
  E mesmo que compartilhemos tudo, haverá sempre uma mudança na informação durante o processo de comunicação. Uma interpretação errada do leitor. Afinal, estamos cada um dentro de nossas próprias bolhas de pensamento, impenetráveis, e por mais perto que nossas bolhas estejam, nunca estaremos juntos em um mesmo lugar. Cada evento presenciado por milhões de espectadores, cria milhões de livros narrados de formas diferentes, com palavras diferentes e interpretações diferentes, que por mais que seja apresentado a um leitor, nunca mostrará cem por cento do que realmente aconteceu. A pergunta fundamental então aparece: O que realmente aconteceu? Se cada acontecimento é diferente dentro de cada um, são todos falsos? São todos reais? Existe alguém que sabe a verdade?
  Palavras como amor, tristeza, felicidade e medo são apenas palavras. Por mais que aprendemos a qual sentimento pessoal cada uma dessas palavras se encaixa, os sentimentos ainda são fundamentalmente pessoais, e nunca serão o mesmo de outra pessoa. Sua dor pode ser o êxtase do seu próximo, e vice-versa. Muitas vezes, apenas a comunicação não é necessária, e para conseguir estabelecer um laço com alguém, é preciso uma conexão, empatia, que não depende apenas de nossa vontade, e sim de uma sincronia entre os furacões dentro da cabeça de cada um. E como apenas nossas pobres ferramentas de fala conseguiriam criar laços sociais entre nós, ferramentas de fala essas que não são suficientes nem para descrever o que sentimos com perfeição?
  Percebe-se então um defeito na organização social humana, já que nossa busca incessante pelo baú do tesouro na cabeça de nossos próximos nunca nos levará à lugar nenhum.
  Talvez devêssemos simplesmente mergulhar em nossos próprios oceanos antes de tentarmos nos afogar no próximo, e assumirmos que somos como cães, pássaros, árvores ou fitoplânctons. Apenas indivíduos. Sem nenhuma necessidade além da nossa.
                                             Theo Vargas

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Minutos

  Os dias já não pareciam os mesmos. Cada momento, cada segundo, tudo demorava. O tempo se arrastava, os minutos ecoavam como dias, os dias ecoavam como séculos. Ela se levantou da cama, e o sentiu. Naquele momento, como em todas as manhãs, tardes e noites nos últimos penosos anos, as horas que ela vivera cobravam seu preço. Seus ossos doíam, sua cabeça estava pesada. Arrastou-se até a cozinha. Curtos e lerdos passos faziam a travessia no interminável caminho, o corredor parecia alongar-se a cada pequeno progresso. Sairia de casa hoje, pensava ela, para uma caminhada. Talvez ligaria para um amigo de infância, voltaria a viver. A água fervera, e ela terminou seu café. Bebeu-o quente. A dor do líquido queimando seus lábios já não a incomodava. Tudo parecia pequeno diante do flagelo do tempo. Todas as sensações eram perdidas, cópias de cópias de cópias... Suas emoções se misturavam, confusas, numa decadente melancolia. Seus olhos estavam constantemente ressecados, sua visão resumia-se em borrões desfigurados, lhe restavam apenas memórias de dias mortos. Memórias defeituosas, memórias corrompidas. Não havia muito para se lembrar, não haviam muitos momentos recordáveis.
  Ela se levantou, e andava agora em passos tremidos, sem rumo pela casa, outrora grandiosa, mas que agora parecia mais uma ruína, uma construção arcaica e abandonada. Metros e metros quadrados que serviam a propósito nenhum se não o de diminuí-la, assustando-a e oprimindo-a. Ela sentia-se menor a cada dia, enterrada pela casa. Pegou o telefone, desses pequenos e sem fio. Caminhou seus passos lentos, encontrando lugar num sofá que já fora luxuoso, mas que agora parecia apenas um sofá acabado, desses que se encontra no lixão. Pedaços rasgados revelavam uma espuma amarela, o estofamento. Ela pegou seu caderno de telefones, nostálgica, e abriu-o. Alguns minutos se passaram numa pausa dolorosa. Quanto mais o tempo passa para alguém, mais tempo essa pessoa demora para entender algumas coisas. Nunca antes tinha reparado, naquele caderno não havia pessoas. Não mais. Havia nomes, apenas nomes e números. Números que não levavam a lugar algum, que não ligavam para lugar algum. Nomes que remetiam a pessoas há muito esquecidas. Esse é o problema. Não importa o quão grandioso se é, uma vez que você sai da vida de alguém pra sempre, não demora muito até que todos se esqueçam de você. É natural. Ela lia nomes, e quanto mais lia, mais difícil era ler o próximo. Sua visão se embaçava com as lágrimas secas que brotavam em seus olhos. Ela vivera tanto, tinha tanto para contar, para discutir, mas nenhum ouvinte. Parou um pouco, o olhar vazio fitando ponto nenhum. Há muito não saía de casa, reparou. Foi ao banheiro, limpou o rosto. O espelho mostrava uma pessoa que ela mesma não reconhecia. Tinha sido tomada de refém pela idade. Sua pele não era mais sua pele. Seus dentes não eram mais seus dentes. Tudo mudara. Balançou a cabeça, afastando aqueles pensamentos que poluíam sua mente, e caminhou, lentamente, até a porta da frente. Olhou pela janela, e não viu ninguém na rua. Morava num bairro afastado, então não era muita surpresa. A luz entrara pela casa, agressiva, invasiva, tomando seu espaço à força. Melancólica, certamente, mas tentando afastar tais sentimentos, abriu a porta. Uma brisa entrou, numa calmaria violenta, arrepiando-a. Não era fria. Pelo contrário, era um dia quente, mas seu corpo sentia o contrário. Quando se é consumido pela idade, tudo parece diferente. Fechou a porta atrás de si, os pés do lado de fora da casa, e andou e andou. De vez em quando, via uma pessoa ou uma família passando na rua, mas nada que fosse merecedor de atenção. Sua vida, de fato, não parecia ter muito mais a oferecer. Cada passo doía, como sempre doeu. Ela não queria ter um destino, mas seus pensamentos há muito já haviam sido corrompidos. Não viu nenhum conhecido na rua. Também nisso não havia muita surpresa. Quando a festa morre, é de se esperar que as pessoas já tenham ido embora. O Sol queimava sua pele, que também já não apresentava tanta resistência assim. Ela se sentiu indignada. Esse é o problema do tempo. Ele não é justo, não é. Ele não afeta a todos do mesmo jeito, não é mesmo? O Sol era o mesmo sempre, afinal. Mas ela, não. Ela estava mais velha. Com menos fôlego, mais perto do fim. Talvez ela esteja mais feliz do que o Sol, entretanto. Ela deu a volta para retornar à sua casa. O Sol não morreria tão cedo, e talvez isso o deixasse mal. Poucas são as vezes que pensamos como o Sol se sente. Talvez ele não seja nem um pouco feliz, mas isso não importa. Nunca importa. Ela andava, sem pensar, para casa, no piloto automático. O problema, pensou ela, é que ela nunca viveu do jeito certo. Aos caminhos sinuosos da vida ela nunca deu muito atenção. Criou seu próprio caminho, reto e monótono. O problema de escolher o caminho reto é que você perde muito do trajeto e, no final, acaba chegando mais cedo. Chegar mais cedo não é uma vitória...
  Ela chegou em casa e abriu a porta. Olhou para o relógio e viu que era hora dos seus remédios. Sua melancolia se transformara numa determinação estranha e numa alegria sem sentido. Ela se sentia liberta. Às vezes é melhor não pensar muito nas coisas. Ela abriu o armário e pegou comprimidos e comprimidos. Mais do que ela conseguia carregar. Pegou um copo e encheu-o. Passou pela porta do quarto e pelo interruptor da luz, que estava ainda acesa. Sentou-se na cama, tomou comprimido após comprimido. Compilados de coisas, como são estranhos os comprimidos! Deitou-se e esperou. Minutos se passaram, e uma breve sensação de enjoo deu lugar à uma paz interminável. Programada, automática e inevitável, a luz se apagou. O próximo dia amanheceu como todos os dias sempre amanhecem: iguais.
                       Felipe Valverde

quinta-feira, 8 de junho de 2017

O Próximo Século

  O vento calmo provocado pelo movimento dos carros vibra em meu rosto, enquanto espero pela minha carona. Alguns minutos se passam e eu consigo já ver o motorista no início da avenida. Ele se aproxima e pergunta meu nome. Confirmo, e entro no carro enquanto preparo meu rosto amistoso, pronto para 15 minutos de uma entediante conversa de mentirinha. Guio-o por entre as decadentes ruas que se escondem nos confins do bairro. Esse tipo de lugar me conforta um pouco. Não consigo explicar bem o porquê, mas sinto que as essas ruas se escondem das pessoas, também, e vivem consigo mesmas até, inevitavelmente, terem que aturar um ou outro hostil viajante passando para lá, para cá, buscando seus sonhos. Aquele motorista não era exatamente simpático, e me assustava um pouco. Não que fosse ranzinza ou algo do tipo. Ele conversava, fazia comentários genéricos e eu conseguia ouvir o som de sua risada, mas em todas as vezes que olhei para seu rosto, vi apenas a mesma expressão. Neutra, calma. Novamente, não consigo defini-la como morta. Apenas não era triste, não era feliz, não mudava. Eu sentia como se estivesse falando com uma cápsula. Alguém lá dentro conversava comigo, dava os comandos, enquanto um corpo inerte o comportava, coluna curvada para aproximar o rosto do para-brisa, as duas mãos na parte superior do volante, e um rosto tão neutro que chegava a arrepiar. Enfim, depois de alguns minutos, cheguei em casa. Passei pela portaria e chamei o elevador. Vi-o subir, descer, fazendo paradas, e escutei vozes vindas dele. Eu realmente não estava com vontade de ver qualquer vizinho. Não é como se eu não gostasse deles. É que... não. É isso mesmo. Eu não gostava deles, não tinha prazer nenhum em falar com qualquer um deles e alguns me enjoavam um pouco. Abri as portas corta-fogo das escadas e vi, lá dentro, um escuro profundo. Subi-as. O costume de evitar vizinhos era tão intenso que a falta de luzes inicial daquele ambiente não fez a menor diferença. Passo após passo, em alguns momentos eu me encontrava parado, de frente para a porta de casa. Entrei, tranquei a porta com 2 giros na chave. Não que fizesse diferença. Estava em casa.
  Ao chegar na sala, desabei. Meu cansaço psicológico finalmente atingiu meu corpo. Essas duas coisas estão sempre muito conectadas, mas nem sempre se comunicam tão eficientemente quanto se esperaria. De repente, dei-me conta. Todos os meus pensamentos tornaram-se tão fluídos. Um estranho conforto me abraçou, um conforto que não era familiar em casa. Por algum tempo, eu vinha me sentindo vazio. Sem espaço no mundo. Na verdade, não é como se não tivesse espaço para mim no mundo. É como se tivesse, sim, na minha frente. Mas eu simplesmente não me levantava para ocupar aquele lugar. Me sentia impotente, pequeno. Sentia que o mundo não queria se abrir comigo. Sentia, cada vez mais, a esperança se esvair. Mas devido a alguma ironia do destino ou favor divino, desabei no mais perfeito dos lugares. Os discos de vinil ao meu redor pareciam uma cama, e era a cama mais confortável da minha vida. A arte sempre foi um refúgio incrível. Toda a felicidade que eu não encontrava nas mazelas da vida, a arte me concedia. Os abraços que eu não recebia, o Momentary Lapse of Reason me entregava. Os elogios que eu não ouvia, o Medazzaland me concedia. Mesmo as lágrimas que eu não chorava, o Kid A libertava. E em meio ao amor que emanava daquele ambiente, eu tinha a liberdade, ou melhor, o ímpeto de pensar sobre a minha vida. Todas as fases distópicas que surgiram nos últimos tempos? Toda a angústia qur eu vivi e que vivo diariamente? É óbvio, depois que se pensa um pouco: essas coisas não são evitáveis. Uma hora ou outra, todos enfrentarão um mar de desastres. E talvez nem sempre haverá um porto seguro, alguém ou algo com o poder de te desconectar do caos. Então, aprendi a aceitá-lo. Uma visão de mundo é só uma visão de mundo até o momento em que pode te salvar ou te destruir. É desejável que salve, eu imagino. Se os dias parecerem cair através de você... bom, deixe-os ir. Dance, se quiser dançar. Cante, se quiser cantar. Afinal, somos todos apenas partes do plano mestre...
                                    Felipe Valverde

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Câmera

  O contínuo e irritante barulho do alarme, como um bate-estacas, desestabilizava o ambiente e ecoava profundo em meus ouvidos. Eu não estava dormindo, mas ele me despertara, me instigara a fazer algo. Estou de pé, olhando para aquele barulhento aparelho apitando num insano ritmo. Demorei um ou dois — talvez três — minutos para mergulhar na realidade e levantei-me para desligar o alarme. Normalmente a casa está vazia. Mas nesse dia... andei pelos corredores em passos assimétricos. Nesse dia ela também estava vazia. O exatismo das horas me trazem desconforto, não me atrevi a olhar o relógio que estava pendurado, alto e imponente, na parede da cozinha. Olhei pela janela, e a janela me dizia que era final da tarde. O céu, nublado, tomava por trás das nuvens uma tímida cor de sangue. Tentei comer, e a comida se negava. Frutas e pães me encaravam com expressões agressivas. Saí dali, juntei algumas coisas, uma velha câmera, e fui para fora de casa. Não estava realmente frio, mas uma afiada brisa gelada balançava as folhas das árvores e levemente cortava meu rosto. Alguns gatos que moravam na minha rua passavam de lá pra ca, carregando coisas e coisas, objetos que não reconheci. Seus olhos cansados me encontravam com desconfiança, e seus planos eu não pude saber.
  Continuei como sempre continuo. Passos e passos num ansioso descompasso. Não muito tempo depois, cheguei a uma avenida movimentada. Mesmo durante a noite havia um frenesi de luzes fluindo de cá pra lá e de lá pra cá, hipnotizantes. Não sei bem ao certo o porquê, mas aquela visão me enjoou. Movimento demais, ordem demais. Complacência demais. Talvez o problema seja o excesso de tudo. Talvez seja a falta de excessos. Não obstante, resolvi que era hora de pegar minha câmera. Em nenhum momento parei de andar para qualquer coisa. Não sentia cansaço nas pernas e não sentia vontade de parar. Andando, revirei minha mochila e me armei com a câmera. Tirei fotos e fotos, pessoas, lugares, objetos. Não tive certeza de qual era qual na hora, não estava tão fácil identificar. Mesmo sem a câmera. Andei mais, parei. Sentei-me debaixo de uma árvore, num parque. Não estava tão tarde, afinal. Algumas famílias, algumas pessoas ainda aproveitavam um pouco de lazer no parque. Algumas crianças jogavam futebol, algumas pessoas tiravam fotos e alguns adolescentes se encontravam escondidos, num canto afastado. Não era claro o suficiente para ver o que faziam, mas o cheiro potente da nicotina tomara o ambiente. Me levantei e resolvi dar algumas voltas pelo parque. Ao andar, algo estranho me ocorreu, e um sentimento de incerteza me possuiu. Apesar de eu não me afastar da avenida, as buzinas e motores pareciam ter um som mais abafado, mais silencioso. Cada vez mais, se tornavam mais distantes, menos histéricos. Minha mochila parecia pesar mais, minhas roupas velhas incomodavam meu corpo e meu suor, fruto de toda aquela caminhada, era intensamente quente.
  Não digo que perdi a noção de tempo. Pelo contrário, sentia-o presente. Apenas andei por bastante tempo. A maioria das pessoas haviam ido embora quando um choro de criança soou alto no parque. Os adolescentes tinham saído, deixando seu escandaloso cheiro de cigarros para trás. Passei em frente à criança que chorava, e enxerguei-a. Seus olhos me fitavam, e ela me encarava enquanto eu a encarava. Seus olhos não imploravam por socorro. Ela não estava com dor. Não sofria e não tinha medo. Ela não estava com raiva. Não sei ao certo por que ela chorava, mas chorava. Chorava suavemente, e me encarava. Apesar daquela expressão com pouco a revelar, tudo que consegui sentir foi tristeza. Não por compartilhar de seja lá o que fazia ela chorar. Não por sentir pena dela. Não era esse tipo de tristeza. Era apenas tristeza. Seca e pura, de um jeito que não se sentia ao chorar. Não era como se eu quisesse isso. Era uma tristeza que se fundia com um pavor doentio e dominador. Não era como se a última que morre realmente tivesse morrido. Não, era como se ela tivesse saído, arrumada e bem vestida, pela porta da frente, e eu tivesse ficado apenas olhando, atado e imóvel. Ou talvez apenas assustado demais, pequeno demais para fazer qualquer coisa a respeito. Não pensei mais, apenas corri.
  Enfim, cheguei em casa. O conforto de casa. O... conforto de casa? As luzes estavam apagadas. Era tarde da noite, as sombras tomavam seu lugar em meio aos tímidos raios de luz que ainda alastravam-se por algumas solitárias frestas. De onde vinham aquelas luzes? Não toquei no interruptor e avancei, cego, para o meu quarto. Não cheguei até ele, na verdade. Algo me parou no meio do caminho, e eu me sentei no escuro frio do corredor. Me sentia apavorado, com medo. Medo do escuro. Nunca tive medo do escuro, mas ele me apavorava. Esse é o pior medo que se pode ter. Claro, temos medo não do escuro, mas do que pode estar escondido em suas profundezas. Mas se fechamos os olhos para tentar fugir desse medo, vamos para um lugar muito pior e com muito mais ameaças. Somos forçados a enfrentar o terror que se esconde em nós, que sempre ficara acuado por causa da constante velocidade do mundo, e que naquele momento, naquele horrível momento, são libertos. Fui forçado a enfrentar isso, e me apavorei. Sem esperança e aterrorizado, sem sentir meu corpo, minhas coisas, meus desejos, desci ao mais baixo nível, estava acabado.
  O contínuo e irritante barulho do alarme, como um bate-estacas, interrompera pavorosos sonhos.

                         Felipe Valverde

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Cela De Vidro

  Me levantei. Querendo ou não, me levanto. Comida, água, roupas, rotina. Tudo vem, vai e se perde num mar de palavras, concretas e abstratas, que balança todas as coisas, remoendo-as e minimizando-as. Nada fora do lugar, tudo flui como num concerto de engrenagens, precisamente programadas para funcionarem da maneira que funcionam. Um milagre, diriam alguns. Realmente, não existe problema. Não há problema. Não há nenhum. Mas há. Não o problema das coisas. Não um problema em mim. Um problema de ambos, numa insalubre convivência.
  Nos salões da minha cabeça ecoa tudo aquilo que se abafa na uniformidade do mundo. É na minha cabeça mesmo? Indiferentes, as pequenas preocupações tomam para si proporção de gigantes. As ínfimas coisas, resolvidas ou por se resolver, que não mais rompem limites ou ameaçam a paz, tornam-se monstros. Imponentes, marcham em círculos, sem destino e sem expressão. Cada vez mais dissonantes, seus deformados gemidos dominam seu espaço e corroem seus iguais. Cada um maior que o outro, avançam sem previsão de parada em direção a toda minha (talvez existente) sanidade. Um barulho agudo, desagradável e confortante, irrompe. Buzina. A carona chegou...
  Um escuro momentâneo toma parte, e os balanços do carro nas ruas esburacadas vibram meu corpo que, cansado, dói. Uma ou outra palavra destroem a maravilhosa e assustadora harmonia do silêncio que luta para dominar o ambiente, mesmo em meio ao barulhento motor que empurra aquelas pessoas de um lado pro outro, por vontade delas mesmas (ou talvez não). Algo no ar me incomoda. Não consigo ter certeza se são as músicas mecânicas que soam tão baixas que parecem distantes, ou se é algo mais. A luz? Não. A luz está ótima. Um dia não muito claro alivia um pouco todo aquele ambiente decadente. Ou talvez incremente-o. O perfume? Mas que perfume é esse? Irritante, esnobe, vazio... Ah! Nunca senti um cheiro tão repugnante. Não é ruim, não. É apenas isso: repugnante. Dá para sentir ele se espalhando pelo ar, sufocando as pessoas. Sinto cheiro de tormenta, de escravidão. Cheiro de toda uma sociedade, resumido naquele doentio perfume. De quem é esse veneno? De quem é essa doce, amarga essência? Esse cheiro me afoga em ainda mais...
  Em quê? Cheguei à escola.
  Castigo, castigo, castigo. Que bem me faz? Sinto falta do perfume...

                            Felipe Valverde

quarta-feira, 3 de maio de 2017

OK Computer - A Arte da Melancolia



 Na década de 1980, surgia, no Reino Unido, um movimento artístico denominado BritPop. O termo se referia à música popular britânica, e englobava vários estilos diferentes de música. Mais especificamente, o termo era aplicado às bandas de rock'n'roll, que, apesar de possuírem músicas e estilos completamente diferentes entre si, eram identificadas pelo mesmo termo. O Radiohead, em 1993, havia feito sucesso com o famoso single "Creep", parte também de seu primeiro álbum de estúdio, o Pablo Honey. Dois anos depois, com o lançamento do disco The Bends, a banda se via cercada de ainda mais sucesso e ótimas colocações nas paradas da Inglaterra. Uma interessante base de fãs já havia se formado, mas os dois álbuns pareciam muito normais. Apesar de lotados de músicas excelentes, eles seguiam um padrão já existente. As músicas eram muito convencionais. A banda não se via no movimento Grunge, mas também não se enxergava no BritPop. Para vários, era vista como um estranho meio do caminho entre os dois estilos que dominavam o Reino Unido na época. Na década de 90, Blur e Oasis seguiam como as potências artísticas do país, e suas composições se encaixavam também nesse padrão convencional. Com exceção, talvez, de The Universal, do Blur, ambas as bandas possuíam músicas bem lineares e "certinhas". Oasis, especialmente, apresentava muita influência dos Beatles, por exemplo, e essa influência era clara nas obras da banda. Todo esse conformismo na música coincidia com o início de uma nova era no mundo. A tecnologia se difundia cada vez mais. Nos EUA, os yuppies tornavam-se modelos de um novo estilo de vida que dominaria a nação. Dia após dia, a influência dos avanços tecno-científicos na vida das pessoas crescia, e suas consequências tornavam-se mais aparentes.

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Damon Albarn, do Blur, e Noel Gallagher, do Oasis
  Em 1996, Radiohead começava a produzir seu próximo álbum de estúdio. Com a ajuda de Nigel Godrich, um produtor musical que havia ajudado-os na produção do The Bends, a banda compunha e produzia o início do que viria a ser OK Computer. Parlophone Records, a gravadora da banda, concedeu 100.000 libras à banda e não cobrou prazo de entrega do álbum. Com calma, Thom Yorke, Jonny Greenwood, Colin Greenwood, Ed O'Brien e Phil Selway passaram meses tentando criar algo novo para a banda. Algo que não fosse apenas o "novo The Bends". Mas a produtividade era pequena. Cada membro desenvolvia sua parte da canção livremente e criticavam-se abertamente, o que tornava aquele trabalho algo muito estressante. A participação de Nigel Godrich intermediando as discussões do grupo a respeito das produções musicais facilitava o trabalho, e tudo fluía melhor. A ideia inicial do que o disco viria a ser formou-se na música Exit Music (For a Film). Então, numa histórica mansão na Inglaterra, a St Catherine's Court, o grupo unia-se com o intuito de finalizar o álbum. A mixagem havia durado mais de dois meses, já que Nigel trabalhava em apenas uma música por dia. Depois de pouco mais de um ano de trabalho duro, o disco seria lançado em 21 de maio de 1997.
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OK Computer cover art
  O álbum foi aclamado pelo público e pela crítica. Destacava-se a brusca mudança na sonoridade da banda. Radiohead tinha, finalmente, se emancipado tanto do Grunge quanto do Britpop, e iniciava um estilo diferente, único. O álbum era mais artístico, menos comercial. A visão a cerca do mundo exterior era muito evidente nas composições de OK Computer, diferentemente de The Bends, que apresentava letras mais introspectivas. A obra faz referências à influência da tecnologia e o cotidiano, os sentimentos e os pensamentos do humano nesse final de século, entrando no que se tornaria esse mundo completamente interconectado e dependente da tecnologia como o é hoje. O álbum foi para a primeira colocação nas paradas da Inglaterra e, apesar da fraca recepção nos EUA - ficando apenas em número 21 -, em nove meses o álbum havia vendido quase dez milhões de cópias no mundo todo. É considerado até hoje, por muitos críticos, um dos melhores álbuns musicais já produzido.

  A capa do álbum é uma montagem gerada por computador de imagens e textos, criada pelo vocalista Thom Yorke e Stanley Donwood, que ajudava a banda a criar as artes dos álbuns. O nome, OK Computer, era o título original da música Palo Alto, que acabou se tornando uma B-Side. A banda dizia que aquele título estava preso a eles. Segundo Jonny Greenwood: "Ele tinha se ligado a nós, e criava todas essas estranhas ressonâncias com o que tentávamos fazer". Segundo Yorke, o título se referia a aceitar o futuro, a temer o futuro, a temer o nosso futuro e o de todas as outras pessoas. Além disso, a frase "Ok, computer, I want full manual control now" aparece no Guia do Mochileiro das Galáxias no capítulo anterior ao qual Marvin, um robô mórbido e depressivo, é descrito como um "Paranoid Android", título da segunda música do álbum.
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Radiohead
                               
  O disco se inicia com a faixa "Airbag". Um solo de guitarra distorcido inicia a música, e alguns barulhos digitais podem ser escutados por detrás das notas. Então entra a bateria, e logo em seguida a voz aparece. A letra da música fala sobre o valor da vida, recém-descoberto pelo eu-lírico, após sobreviver a um acidente de carro. Também vale notar que a personagem referencia a tecnologia sendo tanto a causa de seu acidente (as faixas de neon, o caminhão que o atinge) quanto a causa de sua salvação (o airbag que salvou sua vida). O sentimento de estar vivo era tão maravilhoso, como se nota pela bela voz de Yorke, que manifesta:
"In an interstellar burst
 I am back to save the universe"
  Logo em seguida, alguns barulhos eletrônicos anunciam o início da obra-prima do álbum: Paranoid Android. Na minha opinião, a música fala sobre a impossibilidade de se viver em paz no mundo. Podemos assumir que o eu-lírico da canção é um "paranoid android", isto é, alguém construído e moldado mas que, ao mesmo tempo, luta contra esse molde, estando num estado de paranoia. A canção se inicia com instrumentos acústicos mesclando-se à elétricos. Yorke, então, num tom de voz notavelmente mais melancólico que na canção anterior, pede:
"Please could you stop the noise?
 I'm trying to get some rest
 From all the unborn chicken voices in my head"
  O protagonista pede, simplesmente, um descanso de todo aquele incessante barulho que o incomoda profundamente, as "vozes de galinha". Possivelmente, ele fala com a sociedade como um todo, enxergando-a como apenas um conjunto automático, comportando-se como programas de computador. O pedido então é interrompido pelo narrador questionando "What's that?", como se não entendesse o que ele mesmo acabava de dizer. Ao fundo, uma voz robótica repete a frase "I may be paranoid, but not an android". A personagem instaurou, no fundo de sua mente, que ele não era programado como as pessoas que ela via ao seu redor, mesmo que fosse paranoico. A próxima estrofe apresenta a mesma configuração, mas é cantada num tom mais agressivo. Diz-se:
"When I am king
 You will be first against the wall
 With your opinion which is of no consequence at all" 
  Novamente, o eu-lírico fala com a sociedade, mudando de uma sonoridade melancólica para uma sonoridade colérica. A personagem preza por um dia em que se tornará superior a toda aquela gente, que, segundo ela, tem uma opinião irrelevante, pré-programada. Os próximos versos contam com um instrumental menos passivo e mais agressivo, com um forte riff de baixo acompanhando o ritmo. Referindo-se diretamente à camada da sociedade que vive pelo materialismo, Yorke canta, num ritmo ofensivo:
"Ambition makes you look pretty ugly
 Kicking, squealing Gucci little piggy"
  O protagonista, agora, pergunta por que essas pessoas não se lembram dele. Ele se sente excluído, e esse sentimento se transforma em ódio. Ocorre, agora, uma parte na qual a tranquilidade da música cessa e o instrumental torna-se agressivo, até retornar para o ritmo melancólico da canção. Isso permanece por algum tempo, até que a melancolia da música é retomada com um coro de fundo num tom extremamente triste, quase como se a personagem se arrependesse de seu surto de ódio. Depois, o cantor clama para que a chuva caia sobre ele, como que para lavá-lo, fazê-lo esquecer-se de toda aquela paranoia. Os versos parecem agora prorrogados, arrastados, numa triste entoação que demonstra, ao mesmo tempo, a tristeza e o desespero da personagem. A letra se encerra numa frase a princípio esperançosa, mas que soa irônica, como se a personagem zombasse de Deus e dos poderosos:
"God loves his children
 God loves his children, yeah..."
  A música termina com outro estouro de violência nos instrumentos, deixando a agressividade solta depois das últimas frases. Essa agressividade é abruptamente cortada e inicia-se a calma Subterranean Homesick Alien. O próprio título dessa música já é uma referência à Subterranean Homesick Blues, de Bob Dylan, lançada em 1965. A canção de Dylan fala sobre um sentimento de se sentir preso, enjaulado, sobre todos quererem dar um palpite sobre como você deveria ser. Já a de Yorke é uma clara crítica à alienação e ao sentimento de se sentir diferente de todos ao seu redor. A letra se inicia criticando a cidade na qual a personagem vive, com ela clamando que não se lembra do cheiro do verão, por exemplo. A parte inicial utiliza o "cheiro" como metáfora para a emoção, a alegria, e assim o meio urbano tecnológico da década de '90 é criticado, com o cantor ainda dizendo como todos andam de cabeça baixa, melancólicos:
"I live in a town
 Where you can't smell a thing
 You watch your feet
 For cracks in the pavement"
  O protagonista se sente como um alienígena, em um lugar ao qual ele não pertence. Há um forte sentimento de escapismo, e ele afasta as outras pessoas de si pois eles não tem nada em comum com o protagonista. A letra procede para falar sobre as outras pessoas que são como o eu-lírico, que ele imagina estarem tão longe dele que são inalcançáveis. Há, então, uma crítica explícita ao modo de vida do ser humano naquela época, que perdura até hoje:
"Up above
 Aliens hover
 Making home movies
 For the folks back home
 Of all these weird creatures
 Who lock up their spirits
 Drill holes in themselves
 And live for their secrets" 
 O refrão da música é bem simples. O cantor fala sobre como todos sempre andam tensos, estressados. A segunda parte da música também é recheada do sentimento de escapismo, enquanto o protagonista tem devaneios sobre encontras as pessoas que são iguais a ele, que não são automáticas, e sobre como a vida dele seria bonita, como o mundo seria bonito, diferente do que ele enxerga no momento. Logo no final, ele desfaz esse devaneio, falando que não vai dar certo, mas que, mesmo assim, ele ficaria bem, e que ele só estava tenso. A canção toda é composta num ritmo calmo, no mesmo esquema da anterior: sons acústico se misturando a sons elétricos, e a voz de Yorke cumprindo um papel melancólico, a marca do cantor. Além disso, as variações de tonalidade no refrão, além de adicionarem um toque emocional muito forte na obra, demonstram a capacidade da banda de fazer música não só como música, mas também como poesia. Esse sentimentalismo é demonstrado de maneira intensa na próxima faixa do álbum, Exit Music (For a film). Essa é, facilmente, a música mais triste do álbum. Originalmente escrita para ser tocada nos créditos do filme Romeo+Juliet, de Baz Luhrmann, a música traz à tona, novamente, o sentimento de escapismo tão presente no romance ao qual ela se refere. Um violão acústico acompanha a voz durante a canção e, mais tarde, um teclado e os outros instrumentos da bandam entram para um finale sentimental e catártico, expressando a revolta dos jovens apaixonados contra um pai antiquado e conservador, que se julga inteligente e disciplinado, mas que só se afoga mais e mais em regras, sem abrir a mente para nenhuma outra ideia.
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Romeo+Juliet
                                        
  A próxima música, Let Down, traz consigo uma enorme carga de críticas a uma sociedade monótona e que não dá o valor merecido às emoções, mas também lança um olhar esperançoso. Essa música é um belíssimo exemplo de como o Radiohead consegue combinar a sonoridade e a musicalidade com o objetivo da canção. A guitarra de Ed, repetindo basicamente as mesmas notas num riff calmo durante toda a música, e a voz de Yorke num tom monótono exemplificam perfeitamente a banalização da emoção na sociedade. A letra da música fala sobre como as coisas que acontecem no mundo, exemplificado por meio do trânsito (novamente a crítica à tecnologia) trazem as sensações mais vazias de todas. Fala-se como a pessoas se desapontam com esse mundo, mesmo sem perceber, e se apegam à garrafas (o álcool). O refrão apenas reforça essa ideia de tristeza, de melancolia, falando como o protagonista se sente abandonado, decepcionado, destruído pelo mundo. Os próximos versos apontam como a vida deste foi destruída, sendo representada por metáforas com insetos (metáfora também presente no refrão). E a seguinte frase, criticando como o sentimento é banalizado, visto como fútil, mostra muito da visão crítica da obra:
"Don't get sentimental
 It always ends up drivel"
  Entre todas as partes da música, eu vejo na seguinte estrofe um grande trabalho de crítica por meio da ironia que mescla-se, ainda, ao sentimento de esperança da personagem, que, apesar de sentir-se extremamente abatida pela sociedade, vê e espera um futuro melhor. Yorke mostra, na mesma estrofe, ambas a visão da protagonista a respeito de seu futuro quanto a visão da sociedade:
"And one day I am going to grow wings
 A chemical reaction
 Hysterical and useless"
  Como a metáfora dos insetos é presente na música, denota-se que o primeiro verso explicita a saída da personagem do estado de larva, em que todas as pessoas estão, com medo de evoluir, para a fase da borboleta, em que se adicionam cores. O protagonista vê essa passagem de modo otimista e esperançoso, e pensa nela como sendo tão fantástica quanto uma reação química. Em oposição, a visão da sociedade a respeito dessa mudança é que ela é histérica e inútil, desnecessária para um mundo onde o importante é produzir.
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Trecho do videoclipe de Karma Police
  A respeito de Karma Police, me interessa também falar sobre seu videoclipe. Para mim, essa é uma das mais profundas canções já feitas, e expressa uma quantidade enorme de sentimentos em alguns poucos e simples versos. A música mostra um eu-lírico arrogante e imaturo, questionando todas as pessoas que agem de uma maneira com a qual ele não concorda. Ele implora por uma punição à um homem que falava coisas que ele não entendia, que para o narrador pareciam mais ruídos de geladeira. Em seguida, ele pede uma punição à uma garota por não gostar do seu corte de cabelo, apesar de estar se aproveitando de regalias oferecidas por essa mesma garota. No refrão, ele parece se gabar, mostrando que ele e seu grupo (a massa popular, como um todo) são inquestionáveis:
"This is what you get
 This is what you get
 When you mess with us"
 Como na primeira parte da música, após o refrão, o narrador interpela a "polícia do Karma" para outro diálogo com esta. Essa "polícia", de acordo com a crença do Karma, deveria punir àqueles que fazem o mal, que, na visão do narrador, são todos os que agem diferentemente dele. Voltando à letra, a personagem agora questiona a polícia:
"Karma police
 I've given all I can
 It's not enough
 I've given all I can but
 We're still on the payroll"
  Nessa parte da canção, o narrador parece estar sofrendo com as punições da Karma Police. Ele está muito confuso, clamando que ele deu tudo que podia e que ainda assim não era o suficiente, que ele deveria ser beneficiado por estar entregando todas aquelas "pessoas ruins" para a polícia. O uso do pronome no plural "We" ao invés de "I" mostra que o narrador está, no momento, com um grupo, ou mesmo representando-o. Apesar de vermos, durante toda a música, um narrador mesquinho e egoísta, o final da música sugere que ele é alguém paranoico por causa da sociedade, como em todas as outras músicas do álbum. Ele diz que por um momento ele se perdeu, ele se tornou outra pessoa, influenciado pela sociedade.
"For a minute there,
 I lost myself
 I lost myself"
  O clipe dessa faixa é muito interessante. Vemos uma câmera fixa no banco do motorista de um carro, e na traseira está o eu-lírico da canção, representado por Yorke. Durante todo o curta, esse carro persegue um homem vestido em roupas formais que foge do carro, em desespero. Essa parte representa o julgamento da personagem à todas as pessoas que agem diferentemente dele (as roupas do homem e de Yorke são bem distintas). Entretanto, quando o homem finalmente se cansa de correr e o carro o alcança, este freia e começa a dar ré, como que se para acelerar e atropelá-lo. Entretanto, a câmera muda para trás do homem e mostra que o carro vinha deixando um rastro de gasolina. Neste momento, o homem acende um fósforo e o joga na gasolina, ateando o carro em chamas. Isso representa, claramente, que a única coisa que alguém consegue ao passar a vida julgando e perseguindo os outros é sua própria destruição.
  O álbum se segue com a faixa Fitter Happier. Essa "música" é a que mais perfeitamente sintetiza a ideia central do álbum. Uma calma melodia toca ao fundo, e uma voz completamente robotizada fala, sem emoção ou ritmo. Na letra, várias ordens são dadas para a obtenção de uma vida perfeita. Todas essas regras são criadas pela sociedade, mas na década de 90, no lançamento do álbum, nada parecia mais forte (e é assim até hoje) do que o controle exercido pela tecnologia sobre nós. Isso é representado pela voz robótica. Apesar de, quando citadas na música, as ordens parecerem altamente controladoras, a obra simplesmente descreve a vida moderna, mostrando como todos somos animais sedados, controlados, o que é visto claramente em alguns trechos da faixa:
"Concerned, but powerless"
"Calm, fitter, healthier and more productive
 A pig in a cage on antibiotics"
   Logo em seguida, há um grande contraste. Após uma faixa sem ritmo e completamente mecanizada como Fitter Happier, Electioneering estoura as expectativas do ouvinte ao apresentar um riff rápido, uma bateria animada e uma voz forte, ao contrário da tendência melancólica das outras músicas. O eu-lírico, agora, é um político. Ele começa a canção falando que não parará por nada, como que fazendo uma propaganda política. Em seguida, ele revela que fala as coisas certas apenas durante as propagandas políticas, e então se refere diretamente ao ouvinte, dizendo estar certo de que pode contar com seu voto. O refrão mostra como os políticos se tornam cada vez mais poderoso e os eleitores, cada vez mais fracos. Mas, apesar disso, o político diz e o povo acredita que em algum momento ambos se tornaram iguais.
  Climbing Up The Walls é uma faixa intrigante. É uma canção sombria, melancólica, profunda. Pode, facilmente, ser descrita como assustadora. O instrumental conta com barulhos distorcidos, uma percussão simples mas imponente, uma guitarra pesada. A voz de Thom também é distorcida, o que dá um tom ainda mais sombrio à canção. A letra fala sobre uma pessoa com problemas mentais, mas que no contexto do álbum pode se referir à qualquer um enfrentando um episódio de ansiedade. O eu-lírico dessa canção é uma voz dentro da cabeça da personagem, representando sua ansiedade ou seu medo. Ele fala de si mesmo, sobre como ele é a única fonte de esperança dessa pessoa, sobre como ele tem poder sobre ela e como ela não pode combatê-lo. Sobre como eles serão amigos até a morte. O refrão é arrepiante, e a voz expõe toda seu poder ao mostrar à personagem que não há escapatória:
"And either way you turn I'll be there
 Open up your skull
 I'll be there
 Climbing up the walls"
  Na segunda estrofe, a voz continua a mostrar toda sua força. Qualquer um que está ouvindo é automaticamente aterrorizado pelos horrores que aquela melancolia personificada transpõe em ódio por meio de suas palavras:
"It's always best when the light is off
 It's always better on the outside
 Fifteen blows to the back of your head
 Fifteen blows to your mind"
  A música é muito potente, e o terror daquela voz ecoa por toda a faixa. Mais uma vez, uma combinação impecável dos instrumentos distorcidos perfeitamente e da incrível atuação artística de Yorke envolve o ouvinte no sentimento que Radiohead buscava.
  O clima sombrio é quebrado pelo instrumental quase que infantil de No Surprises. Uma música extremamente calma, novamente combinando com sua temática lírica, acalma o ouvinte depois do pesadelo (no bom sentido) que foi a faixa anterior. Na letra, temos uma ideia parecida com a de Fitter Happier. O eu-lírico vive a vida calma, com um trabalho estável, sem sustos e sem surpresas, silenciosa, numa bonita casa com um bonito jardim, e percebe lentamente que essa vida está destruindo-o, mas ele não se desespera com isso. Pelo contrário, ele parece complacente, calmo, como se isso não fizesse diferença, já que a vida dele está "boa". Um pensamento muito atual em grande parte da população até hoje, que senta e vê a vida passar, vive como lhe dizem para viver.
"I'll take a quiet life
 A handshake of carbon monoxide"
  Lucky é a faixa que pode ser descrita como a música mais feliz do álbum. O tema esperançoso é muito presente, os instrumentos apresentam uma sonoridade muito mais aberta do que o restante das canções do álbum. Yorke fala sobre como ele está provando da felicidade, do sucesso, e ele sente que sua sorte pode mudar. A obra traz uma ideia de que devemos viver cada dia com um bom olhar, aceitando o que cada um pode nos dar, mesmo que algumas coisas sejam ruins. Devemos aproveitar o amor, aproveitar as segundas chances que recebemos, aproveitar o nosso tempo.
  Fechando o álbum, temos The Tourist. Essa é uma faixa difícil de difícil compreensão. Ela também fala sobre levar uma vida mais calma, mas dessa vez com uma visão diferente. A música fala sobre os defeitos de se levar uma vida rápida demais. Tudo parece frenético demais, violento demais. O eu-lírico se sente cobrado demais, todos perguntam-no onde ele vai com tanta pressa. E o refrão apenas pede por calma. Nesta faixa, diferentemente de todas as outras faixas do álbum, não há sons digitais. Apenas os intrumentos, limpos, suaves. A voz de Yorke não tem efeitos, a música pede por calma e dá calma. O pedido para que o "Turista" da música diminua a velocidade para que ele possa apreciar a paisagem, a vida como um todo, dão um ar misterioso na canção, e criam um efeito de loop no álbum. OK Computer funcionaria perfeitamente se esta fosse a primeira faixa do álbum. A música se encerra repentinamente, e completa-se a jornada do homem que renasceu para salvar o Universo.
"Hey man, slow down, slow down
 Idiot, slow down, slow down"
  OK Computer é um álbum que guia o ouvinte por um universo inteiro de sentimentos e sensações, retratando perfeitamente a melancolia, a solidão, o ódio, a ambição, a esperança. Tudo isso reunido na imagem de uma sociedade que se curva à sua própria criação, vulnerável, impotente. A dualidade, a bipolaridade encontram recanto na arte de Radiohead. A grande liberdade da banda abre portas que ainda não haviam sido descobertas para o rock, para o BritPop, para o experimental e para o alternativo. Thom Yorke utiliza sua inigualável interpretação artística para trazer os ouvintes para o mundo real: um mundo onde o ser humano importa. Realmente, não é difícil perceber porque OK Computer é considerado um dos melhores álbuns já produzidos. Uma obra de arte a frente de seu tempo, intensamente profunda e acolhedora.
                                                                                                         Felipe Valverde

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Quadrophenia: Como o The Who Retratou a Angústia Pós-Guerra



  O ano era 1960. Mais de meio século havia se passado. Duas grandes guerras. As revoluções sociais começando. O antes considerado "pouco sofisticado" movimento expressionista, que representava o sentimento de angústia daqueles que viveram o início do século XX, agora era sofisticado demais. O pós guerra não tinha mais espaço para os traços de Edvard Munch, Vincent Van Gogh e Pablo Picasso. A juventude não estava mais interessada em vanguardistas, poetas boêmios e loucos bebendo absinto em Paris. Os jovens agora se interessavam em R&B, free jazz e televisão. O entorpecente agora era outro: os avanços científicos da guerra tinham criado as anfetaminas. A Pop Art e a era pós-moderna estava surgindo.

  Foi em meio a essa revolução cultural que criou-se a adolescência. Nunca antes o público jovem teve tanto poder aquisitivo, e o capitalismo estava ciente disso. As propagandas criavam rótulos, não apenas nos produtos, mas agora na juventude: Roupas, musicas, e cortes de cabelo determinavam a tribo social à qual você pertencia. Entre esses muitos grupos do início dos anos '60 estavam os Rockers, ingleses que ouviam música americana e se vestiam com jaquetas de couro, reproduzindo tudo aquilo que os EUA proporcionava de cultura, desde dirigir motocicletas até idolatrar Elvis Presley. Esse grupo rivalizava com uma outra tribo social tão grande quanto: os Mods (diminutivo de Modernists). Esses que não simpatizavam com a cultura retrógrada dos Rockers, gastavam seu dinheiro com anfetaminas e roupas caras, gostavam de Pop Art, rock inglês, e pilotavam scooters com dezenas de faróis instalados, uma forma de protesto contra uma lei que não permitia que os veículos tivessem mais do que dois.

os Beatles, sob o nome de Johnny and the Moondogs, antes da fama eram Rockers.

  No meio desse movimento, a banda The High Numbers, que mais tarde lançaria seu primeiro LP sob o nome de The Who, começava a ganhar destaque entre o público Mod. O guitarrista Pete Townshend, estudante de design, era inspirado por arte performática, e assim ficou famoso por destruir seus instrumentos no final de suas apresentações ao lado do lunático baterista Keith Moon. Assim o High Numbers começava a ganhar fama por seus shows barulhentos, e as letras sobre fúria adolescente se destacavam em meio as canções de amor dos Beatles e dos Rolling Stones.


o famoso símbolo da Força Aérea Real britânica que Keith Moon usava no peito não virou apenas o logotipo do The Who, mas também o símbolo da cultura Mod.


  Os anos se passaram e o The Who evoluiu como uma banda. Aos poucos, com a queda do movimento Mod (que só voltaria às ruas de Londres com a banda The Jam, no início dos anos '80 misturando o estilo com o punk, e novamente nos anos '90 com o Britpop), o The Who abandonou o movimento, se voltando mais ao Garage Rock, Rock Progressivo e Experimental, que apareceria ao longo dos anos '60, tornando-se uma das bandas mais icônicas da história. Eles também ficariam famosos pela criação do conceito de ópera rock, ideia utilizada pela banda três vezes ao longo da carreira, que consistia em usar o modelo tradicional de ópera, com overtures leitmotives, criando uma narrativa com um toque especial de rock n' roll.

  A terceira e última ópera rock do The Who, é um dos últimos álbuns do grupo com sua formação original. Lançado 10 anos após o nascimento da banda, em '73, o álbum Quadrophenia narra as reflexões de Jimmy Cooper, um jovem Mod, viciado, com problemas psicológicos, que fora expulso de casa, e questiona acontecimentos recentes de sua vida em uma praia em Brighton. Jimmy fala de seu transtorno de personalidade, e critica sua preocupação em relação a se encaixar em um grupo e no mercado de trabalho. Fala de costumes da cultura Mod, e da rivalidade com os Rockers, retratando a geração de onde o The Who surgiu, e ao mesmo tempo explicando seus problemas pessoais.


  Quadrophenia abre com a faixa introdutória "I'm The Sea": trechos de sons do mar e leitmotives de outras músicas do álbum ao longe, que marcam o resto da narrativa. Logo a calma é quebrada com a explosiva "The Real Me", que te direciona a alguns dias no passado do protagonista, em um questionamento sobre seu transtorno de personalidade. O refrão muda ao longo da música para representar sua dúvida, variando entre: "Can you see the real me, doctor?", "Can you see the real me, mother?" e "Can you see the real me, preacher?". O estado de paranoia e confusão em que Jimmy está sendo levado é mostrado nos versos: 

"Cracks between the paving stones
Looks like rivers of flowing veins.
Strange people who know me,
Peeping from behind every window pane."

  É interessante notar o modo como esse artifício das múltiplas personalidades de Jimmy é usado ao longo da ópera. Faz parte da história o fato de que o garoto possui quatro personalidades diferentes (explicadas no encarte do álbum como cada uma representando um membro do The Who, e fazendo uma referência ao fato do álbum ser gravado em som quadrifônico), porém elas são tratadas de forma muito mais maleável: A violenta música "Doctor Jimmy" por exemplo, que faz referências diretas ao clássico literário inglês, The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, sobre um médico com uma segunda personalidade sanguinária, fala das transformações de caráter de Jimmy como se fossem relacionadas ao álcool. A música trata a situação do personagem como um dilema comum de alterações emocionais, sobre uma transformação em um indivíduo violento e inconsequente quando o garoto se embriaga:

"Doctor Jimmy and Mister Jim.
When I'm pilled you don't notice him,
He only comes out when I drink my gin."

  Jimmy e suas personalidades são uma metáfora para uma dificuldade adolescente comum de se encaixar em grupos sociais e de conciliar isso com uma individualidade. O conceito fica ainda mais claro em outras faixas como "Cut My Hair", onde o protagonista questiona suas preocupações pessoais em ser parte de um grupo:

"Why should I care
If I have to cut my hair?
I've got to move with the fashion, or be outcast
(...)
I'm dressed right for a beach fight
But I just can't explain
Why that uncertain feeling
Is still here in my brain."

  Ou a renomada "5:15",  em que Jimmy retrata a angústia, tédio e frustração comum entre a juventude urbana pós-guerra:

"Magically bored
On a quiet street corner
Free frustration
In our minds and our toes
Quiet storm water
M-m-my generation
Uppers and downers
Either way blood flows."

  Nota-se também o uso de trechos de músicas antigas do primeiro álbum da banda, que remontam a época em que se passa a história: Trechos de grandes sucessos do conjunto que se tornaram hinos Mod, como "I Can't Explain" e "My Generation" (onde inclusive a icônica gaguejada de Roger Daltrey está presente) são reutilizadas, muitas vezes de forma irônica, ao longo de Quadrophenia.



  Na narrativa Jimmy Cooper também se vê questionando seu futuro. Ele não tem uma vocação e não consegue se encaixar no mercado de trabalho. As únicas coisas que lhe interessam, ou pareciam lhe interessar, eram a diversão noturna, brigas com a gangue rival e vontades materialísticas. A música "The Dirty Jobs", é uma reflexão sobre a classe trabalhadora britânica. "Helpless Dancer", o melhor exemplo da técnica quadrifônica utilizada na gravação, critica a violência nas ruas e o capitalismo predatório. Jimmy está em uma crise de identidade por não se identificar mais com os garotos da sua idade, mas também tem medo de se tornar um adulto.

  A canção "Bell Boy", uma das mais famosas da banda, retrata um encontro entre Jimmy e um antigo Mod que o garoto idolatrava. Esse segundo, chamado de Bell Boy, agora trabalha como ajudante em um hotel, e se sente renovado com seu emprego. Porém ao longo da música, Bell Boy lembra com uma certa nostalgia da época em que era um arruaceiro, e percebe sua frustração em relação à vida seguindo ordens de seu chefe:

"Some nights I still sleep on the beach,
Remember when the stars where in reach.
Then I wander in early to work,
Spend my day licking boots from my perks"

na adaptação cinematográfica de '79 Bell Boy é nomeado como Ace Face, e é interpretado por Sting, baixista e vocalista do The Police.

   Após 17 faixas impecáveis a ópera se encerra com "Love Reign O'er Me". Jimmy rouba um barco na praia e navega até uma rocha no meio do mar, onde uma tempestade começa. Não fica explícito o que acontece com o personagem após os acontecimentos da história, e a partir disso, os ouvintes podem especular um final, já que de acordo com o próprio Pete Townshend, no fim da história Jimmy está passando por um dilema suicida. O conceito desse final em aberto também é usado no filme de '79, onde Jimmy pilota a scooter roubada de Ace Face em direção à um penhasco. As últimas cenas do filme são o veículo caindo em direção ao mar, junto com a câmera, o que pode tanto dar a entender que Jimmy jogou apenas o veículo quanto pode dar a entender que se ele jogou junto, sendo a câmera seu ponto de vista em queda livre.


  Na minha análise pessoal, o suicídio de Jimmy é apenas metafórico. Sua decisão de atirar a scooter (que representa toda a cultura Mod) de um penhasco, é uma metáfora para uma decisão de abandonar seus costumes antigos.



Theo Vargas                

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Ink Sinking

If I had only one shade of red, green and blue
I promisse sweetheart, I'd give it all for you.
My days would be clear white
And my nights would be darker black,
But your primary colours would daze me - And baby, I'd never be sad.

Without you, my veins are ducts of water, colourless cold water
So when I see you, I drain out my own flavourless pouring rain
Instants later in this clourful dream I am back again
And can't even describe the pain, of my heart beating hard
Filling my bloodstreams with paint.

Sometimes I think of how many years it takes
To all the colours of the planet earth fade away
How many winds and waves it takes
So the grey stones sunken deep
Turns into the grey sand in the beach.

Will someday the nature and the forests green
Evolve in a certain way that it becomes pink?
And will someday the yellow full moon sink
Like slummocked pastel ivory
In the night sky's dense and black ink?

Sometimes I catch myself thinking of something too
About us, me and you - Specially about you.
I keep thinking of how many time it will take
To the flashing red light of our love
Turns into the opposite shade of the colour wheel.

A frosty cool.
Cold.
Frozen tone of the colour blue.

                                                                              Theo Vargas

De dentro do condomínio

Pensamentos estranhos se fazem vivos Pensamentos que nos vigiam, que nos instigam Que parece sempre vindos De uma mente vazia De uma men...