"Essa é a minha carta final. Sinceramente, não sei qual o motivo da escrita disso. Esse texto apenas me traz mais sofrimento, me faz lembrar o quão incrivelmente malditos foram os últimos anos. Acho que me tornei o filho de uma causa perdida. Não vou mentir para mim mesmo, eu nunca fui uma boa pessoa. Nunca fui um exemplo de vida, alguém que servisse de modelo. Tratei a maioria das pessoas de maneira medíocre. Vivi mais para mim do que vivi para qualquer pessoa. Claro, se eu quisesse justificar esse caminho, eu o faria. Tenho a capacidade de justificá-lo de acordo com o que eu acredito. Afinal, se não tivesse uma justificativa eu não o teria seguido. Mas não é minha vontade que outros entendam o que eu fiz. O que seria do mundo se resolvessem viver da mesma maneira?
Eu poderia ter vivido melhor, agradado a mais pessoas. Mas agora que tomei a decisão me pergunto que diferença faria. Não me sinto mal com minha vida e nem me sinto mal pelas pessoas que decepcionei. Eu me sinto mal com o que será de vocês daqui pra frente. Racionalmente, não faz muito sentido. Não vou ver nenhuma mudança no mundo, não verei nenhuma piora, nenhuma melhoria, nada de diferente. A verdade, imagino, é que eu parto cedo demais, e para mim não mais existe um propósito. Mas para vocês... existe. Claro que, socialmente, eu deveria me sentir mal por isso. Mas, novamente, que diferença faria? Não haverá remorso, essa é a mais pura verdade que vejo. Há algum tempo vocês deixaram de ter qualquer importância. E não desejo que morram, não. Desejo que vivam o suficiente para que possam continuar esse asqueroso processo de julgar uns aos outros. Seus pecados não mudarão o mundo, é verdade, mas farão com que as outras pessoas, secretamente, cultivem algo de ruim por vocês. Até que não mais seja secreto... aí é quando começa a verdadeira noite do julgamento. Uma angústia muito pior do que qualquer coisa que possam imaginar. Ou, ao menos, é assim que eu espero que seja.
Imagino que eu possa parecer uma pessoa terrível ao falar tudo isso, principalmente numa ocasião como a atual. Mas a verdade é que não me importo mais. Trair a confiança daqueles que muito se importam contigo, abdicar de valores próprios para satisfazer uma multidão de ignorantes, jogar a si mesmo num penhasco de infelicidade em busca de algo menos assustador que a vida. Vocês pecam a todo momento. Que direito têm de me julgar? Tenho certeza que pareço um fraco agora. Sim, eu sou. É claro que sou. Por qual outro motivo eu estaria nessa situação se não fosse? Mas eu cansei. Tentei, por vezes, ser bom. Não que eu realmente soubesse o significado disso, mas tentei. Começou como algo incrível. Um sorriso à meia luz, um agrado aqui e ali, um raio de esperança. Que sensação boa! Quase que inumana. Mas, na verdade, era completamente inumana. Deixar os outros felizes –honestamente felizes– há muito deixou de ser uma prática humana. Vocês... não, não vocês. Nós não conseguimos mais criar o bem. Existimos para destruir o que quer que nasça de bom. E sua falsa preocupação com isso me enoja. Sinto empatia pelas pessoas que realmente entendem isso. Mas não teria uma diferença, já que minha carta não vai alcançá-las. Não poderia alcançá-las. Peço perdão a quem ofendi sem necessidade (apesar de duvidar que alguém não mereça isso) e espero que vocês aproveitem bem. A minha desgraça se esvai para alimentar, fatalmente, o ego podre daqueles que dela sempre quiseram se apossar. Me despeço de consciência limpa, coração vazio e uma dúvida no peito: quando foi que vocês se abandonaram?"
domingo, 3 de dezembro de 2017
Despedida final
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