quarta-feira, 31 de maio de 2017

Câmera

  O contínuo e irritante barulho do alarme, como um bate-estacas, desestabilizava o ambiente e ecoava profundo em meus ouvidos. Eu não estava dormindo, mas ele me despertara, me instigara a fazer algo. Estou de pé, olhando para aquele barulhento aparelho apitando num insano ritmo. Demorei um ou dois — talvez três — minutos para mergulhar na realidade e levantei-me para desligar o alarme. Normalmente a casa está vazia. Mas nesse dia... andei pelos corredores em passos assimétricos. Nesse dia ela também estava vazia. O exatismo das horas me trazem desconforto, não me atrevi a olhar o relógio que estava pendurado, alto e imponente, na parede da cozinha. Olhei pela janela, e a janela me dizia que era final da tarde. O céu, nublado, tomava por trás das nuvens uma tímida cor de sangue. Tentei comer, e a comida se negava. Frutas e pães me encaravam com expressões agressivas. Saí dali, juntei algumas coisas, uma velha câmera, e fui para fora de casa. Não estava realmente frio, mas uma afiada brisa gelada balançava as folhas das árvores e levemente cortava meu rosto. Alguns gatos que moravam na minha rua passavam de lá pra ca, carregando coisas e coisas, objetos que não reconheci. Seus olhos cansados me encontravam com desconfiança, e seus planos eu não pude saber.
  Continuei como sempre continuo. Passos e passos num ansioso descompasso. Não muito tempo depois, cheguei a uma avenida movimentada. Mesmo durante a noite havia um frenesi de luzes fluindo de cá pra lá e de lá pra cá, hipnotizantes. Não sei bem ao certo o porquê, mas aquela visão me enjoou. Movimento demais, ordem demais. Complacência demais. Talvez o problema seja o excesso de tudo. Talvez seja a falta de excessos. Não obstante, resolvi que era hora de pegar minha câmera. Em nenhum momento parei de andar para qualquer coisa. Não sentia cansaço nas pernas e não sentia vontade de parar. Andando, revirei minha mochila e me armei com a câmera. Tirei fotos e fotos, pessoas, lugares, objetos. Não tive certeza de qual era qual na hora, não estava tão fácil identificar. Mesmo sem a câmera. Andei mais, parei. Sentei-me debaixo de uma árvore, num parque. Não estava tão tarde, afinal. Algumas famílias, algumas pessoas ainda aproveitavam um pouco de lazer no parque. Algumas crianças jogavam futebol, algumas pessoas tiravam fotos e alguns adolescentes se encontravam escondidos, num canto afastado. Não era claro o suficiente para ver o que faziam, mas o cheiro potente da nicotina tomara o ambiente. Me levantei e resolvi dar algumas voltas pelo parque. Ao andar, algo estranho me ocorreu, e um sentimento de incerteza me possuiu. Apesar de eu não me afastar da avenida, as buzinas e motores pareciam ter um som mais abafado, mais silencioso. Cada vez mais, se tornavam mais distantes, menos histéricos. Minha mochila parecia pesar mais, minhas roupas velhas incomodavam meu corpo e meu suor, fruto de toda aquela caminhada, era intensamente quente.
  Não digo que perdi a noção de tempo. Pelo contrário, sentia-o presente. Apenas andei por bastante tempo. A maioria das pessoas haviam ido embora quando um choro de criança soou alto no parque. Os adolescentes tinham saído, deixando seu escandaloso cheiro de cigarros para trás. Passei em frente à criança que chorava, e enxerguei-a. Seus olhos me fitavam, e ela me encarava enquanto eu a encarava. Seus olhos não imploravam por socorro. Ela não estava com dor. Não sofria e não tinha medo. Ela não estava com raiva. Não sei ao certo por que ela chorava, mas chorava. Chorava suavemente, e me encarava. Apesar daquela expressão com pouco a revelar, tudo que consegui sentir foi tristeza. Não por compartilhar de seja lá o que fazia ela chorar. Não por sentir pena dela. Não era esse tipo de tristeza. Era apenas tristeza. Seca e pura, de um jeito que não se sentia ao chorar. Não era como se eu quisesse isso. Era uma tristeza que se fundia com um pavor doentio e dominador. Não era como se a última que morre realmente tivesse morrido. Não, era como se ela tivesse saído, arrumada e bem vestida, pela porta da frente, e eu tivesse ficado apenas olhando, atado e imóvel. Ou talvez apenas assustado demais, pequeno demais para fazer qualquer coisa a respeito. Não pensei mais, apenas corri.
  Enfim, cheguei em casa. O conforto de casa. O... conforto de casa? As luzes estavam apagadas. Era tarde da noite, as sombras tomavam seu lugar em meio aos tímidos raios de luz que ainda alastravam-se por algumas solitárias frestas. De onde vinham aquelas luzes? Não toquei no interruptor e avancei, cego, para o meu quarto. Não cheguei até ele, na verdade. Algo me parou no meio do caminho, e eu me sentei no escuro frio do corredor. Me sentia apavorado, com medo. Medo do escuro. Nunca tive medo do escuro, mas ele me apavorava. Esse é o pior medo que se pode ter. Claro, temos medo não do escuro, mas do que pode estar escondido em suas profundezas. Mas se fechamos os olhos para tentar fugir desse medo, vamos para um lugar muito pior e com muito mais ameaças. Somos forçados a enfrentar o terror que se esconde em nós, que sempre ficara acuado por causa da constante velocidade do mundo, e que naquele momento, naquele horrível momento, são libertos. Fui forçado a enfrentar isso, e me apavorei. Sem esperança e aterrorizado, sem sentir meu corpo, minhas coisas, meus desejos, desci ao mais baixo nível, estava acabado.
  O contínuo e irritante barulho do alarme, como um bate-estacas, interrompera pavorosos sonhos.

                         Felipe Valverde

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