É um pouco engraçado. Quando somos pequenos, costumamos imaginar que o mundo é todo o lugar até onde nossas vozes viajam e são ouvidas por outro alguém. As outras pessoas sempre nos escutam, e nós as admiramos. Por que, então, quando olho para mim mesmo hoje, nada disso se faz presente? Eu falo. Eu falo, grito, choro. E ainda assim, minha voz não chega a lugar nenhum. Para falar a verdade, eu não tenho certeza se alguma vez ela saiu de mim. Me sinto... sozinho. Mas é normal, eu acredito. Todas as pessoas passam por isso. De repente, lembro-me: não estou mais naquele mundo. Não, o mundo é outro. Agora, eu vivo no mundo adulto. O mundo real. Os minutos se passam e todas as pessoas caminham por você, te atravessam. Eu não admiro mais as pessoas. Pra falar a verdade, faz um tempo que eu não admiro nada. De vez em quando uma paisagem ou outra...
Agora, a relação que eu tenho com as outras pessoas é dolorosa. Mas não tenho tempo para me doer. As pessoas esperam muito de mim. Elas cobram, estão aguardando minha resposta. Num mundo onde as vozes não chegam a lugar algum, todos querem ouvir uma resposta. Carregamos o peso do nosso dever moral, como seres conscientes, no eterno silêncio violento que musicaliza um filme apavorante: a realidade. Eu vivo a vida dentro de mim. O mundo me mostra seu terror pelo olho mágico da porta da frente. A maçaneta gira, as sombras que permeiam por debaixo da fresta da porta se agitam, de um lado para o outro. "Oi?". O que quer que esteja lá fora, no mundo, permanece mudo. "Quem é você? O que você procura?". Não ouço um só barulho. O mundo real nunca me respondeu. Talvez ele queira, talvez ele tenha respondido. Mas talvez sua voz não tenha me alcançado. Toda a vida, porém, me ensinaram a não abrir a porta para estranhos. E o mundo, acima de tudo, me é estranho. Estranho demais, irreconhecível. E a visão do olho mágico não é nada agradável. Quando olho, vejo apenas solidão. O mundo não é um lugar bonito. Não mesmo. Ao menos não daqui de dentro. Às vezes eu penso que esse é o motivo para eu me decepcionar tanto com as pessoas. Nunca, na minha vida no mundo adulto, eu ouvi a verdadeira voz de uma pessoa. De um ser humano. Sinto que sempre me comuniquei por... qualquer coisa. Qualquer coisa que não a voz. Recados, telefonemas, bilhetes. Isso é carinhoso e tudo... mas não é completo, sabe? Depois de uma vida inteira ouvindo vozes e mensagens distorcidas, tudo que eu mais poderia desejar, na insanidade desesperada do meu próprio espírito, é uma voz. Aqui, do meu lado. Mas ela nunca está. É sempre uma versão mais fraca. Apagada. Uma cópia de uma voz. E quando conhecemos uma pessoa, cada vez mais vendo seus bilhetes, percebemos que ela na verdade não é a pessoa que parecia ser. Por vezes eu penso que nem mesmo pessoas são. Talvez, depois de tudo, eu realmente esteja sozinho no mundo. Uma consciência errante no universo, procurando apenas uma companhia. E talvez sejamos todos assim. Talvez tudo que procuremos seja outra alma. Não buscamos arte. Buscamos alguém. Não buscamos riqueza. Buscamos alguém. Não buscamos ninguém. Buscamos nós mesmos nos outros. É... talvez a humanidade seja só mais uma mentirinha. Humanidade... talvez sejamos só criaturas brincando de ser gente.
Felipe Valverde
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