quarta-feira, 12 de abril de 2017

Quadrophenia: Como o The Who Retratou a Angústia Pós-Guerra



  O ano era 1960. Mais de meio século havia se passado. Duas grandes guerras. As revoluções sociais começando. O antes considerado "pouco sofisticado" movimento expressionista, que representava o sentimento de angústia daqueles que viveram o início do século XX, agora era sofisticado demais. O pós guerra não tinha mais espaço para os traços de Edvard Munch, Vincent Van Gogh e Pablo Picasso. A juventude não estava mais interessada em vanguardistas, poetas boêmios e loucos bebendo absinto em Paris. Os jovens agora se interessavam em R&B, free jazz e televisão. O entorpecente agora era outro: os avanços científicos da guerra tinham criado as anfetaminas. A Pop Art e a era pós-moderna estava surgindo.

  Foi em meio a essa revolução cultural que criou-se a adolescência. Nunca antes o público jovem teve tanto poder aquisitivo, e o capitalismo estava ciente disso. As propagandas criavam rótulos, não apenas nos produtos, mas agora na juventude: Roupas, musicas, e cortes de cabelo determinavam a tribo social à qual você pertencia. Entre esses muitos grupos do início dos anos '60 estavam os Rockers, ingleses que ouviam música americana e se vestiam com jaquetas de couro, reproduzindo tudo aquilo que os EUA proporcionava de cultura, desde dirigir motocicletas até idolatrar Elvis Presley. Esse grupo rivalizava com uma outra tribo social tão grande quanto: os Mods (diminutivo de Modernists). Esses que não simpatizavam com a cultura retrógrada dos Rockers, gastavam seu dinheiro com anfetaminas e roupas caras, gostavam de Pop Art, rock inglês, e pilotavam scooters com dezenas de faróis instalados, uma forma de protesto contra uma lei que não permitia que os veículos tivessem mais do que dois.

os Beatles, sob o nome de Johnny and the Moondogs, antes da fama eram Rockers.

  No meio desse movimento, a banda The High Numbers, que mais tarde lançaria seu primeiro LP sob o nome de The Who, começava a ganhar destaque entre o público Mod. O guitarrista Pete Townshend, estudante de design, era inspirado por arte performática, e assim ficou famoso por destruir seus instrumentos no final de suas apresentações ao lado do lunático baterista Keith Moon. Assim o High Numbers começava a ganhar fama por seus shows barulhentos, e as letras sobre fúria adolescente se destacavam em meio as canções de amor dos Beatles e dos Rolling Stones.


o famoso símbolo da Força Aérea Real britânica que Keith Moon usava no peito não virou apenas o logotipo do The Who, mas também o símbolo da cultura Mod.


  Os anos se passaram e o The Who evoluiu como uma banda. Aos poucos, com a queda do movimento Mod (que só voltaria às ruas de Londres com a banda The Jam, no início dos anos '80 misturando o estilo com o punk, e novamente nos anos '90 com o Britpop), o The Who abandonou o movimento, se voltando mais ao Garage Rock, Rock Progressivo e Experimental, que apareceria ao longo dos anos '60, tornando-se uma das bandas mais icônicas da história. Eles também ficariam famosos pela criação do conceito de ópera rock, ideia utilizada pela banda três vezes ao longo da carreira, que consistia em usar o modelo tradicional de ópera, com overtures leitmotives, criando uma narrativa com um toque especial de rock n' roll.

  A terceira e última ópera rock do The Who, é um dos últimos álbuns do grupo com sua formação original. Lançado 10 anos após o nascimento da banda, em '73, o álbum Quadrophenia narra as reflexões de Jimmy Cooper, um jovem Mod, viciado, com problemas psicológicos, que fora expulso de casa, e questiona acontecimentos recentes de sua vida em uma praia em Brighton. Jimmy fala de seu transtorno de personalidade, e critica sua preocupação em relação a se encaixar em um grupo e no mercado de trabalho. Fala de costumes da cultura Mod, e da rivalidade com os Rockers, retratando a geração de onde o The Who surgiu, e ao mesmo tempo explicando seus problemas pessoais.


  Quadrophenia abre com a faixa introdutória "I'm The Sea": trechos de sons do mar e leitmotives de outras músicas do álbum ao longe, que marcam o resto da narrativa. Logo a calma é quebrada com a explosiva "The Real Me", que te direciona a alguns dias no passado do protagonista, em um questionamento sobre seu transtorno de personalidade. O refrão muda ao longo da música para representar sua dúvida, variando entre: "Can you see the real me, doctor?", "Can you see the real me, mother?" e "Can you see the real me, preacher?". O estado de paranoia e confusão em que Jimmy está sendo levado é mostrado nos versos: 

"Cracks between the paving stones
Looks like rivers of flowing veins.
Strange people who know me,
Peeping from behind every window pane."

  É interessante notar o modo como esse artifício das múltiplas personalidades de Jimmy é usado ao longo da ópera. Faz parte da história o fato de que o garoto possui quatro personalidades diferentes (explicadas no encarte do álbum como cada uma representando um membro do The Who, e fazendo uma referência ao fato do álbum ser gravado em som quadrifônico), porém elas são tratadas de forma muito mais maleável: A violenta música "Doctor Jimmy" por exemplo, que faz referências diretas ao clássico literário inglês, The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, sobre um médico com uma segunda personalidade sanguinária, fala das transformações de caráter de Jimmy como se fossem relacionadas ao álcool. A música trata a situação do personagem como um dilema comum de alterações emocionais, sobre uma transformação em um indivíduo violento e inconsequente quando o garoto se embriaga:

"Doctor Jimmy and Mister Jim.
When I'm pilled you don't notice him,
He only comes out when I drink my gin."

  Jimmy e suas personalidades são uma metáfora para uma dificuldade adolescente comum de se encaixar em grupos sociais e de conciliar isso com uma individualidade. O conceito fica ainda mais claro em outras faixas como "Cut My Hair", onde o protagonista questiona suas preocupações pessoais em ser parte de um grupo:

"Why should I care
If I have to cut my hair?
I've got to move with the fashion, or be outcast
(...)
I'm dressed right for a beach fight
But I just can't explain
Why that uncertain feeling
Is still here in my brain."

  Ou a renomada "5:15",  em que Jimmy retrata a angústia, tédio e frustração comum entre a juventude urbana pós-guerra:

"Magically bored
On a quiet street corner
Free frustration
In our minds and our toes
Quiet storm water
M-m-my generation
Uppers and downers
Either way blood flows."

  Nota-se também o uso de trechos de músicas antigas do primeiro álbum da banda, que remontam a época em que se passa a história: Trechos de grandes sucessos do conjunto que se tornaram hinos Mod, como "I Can't Explain" e "My Generation" (onde inclusive a icônica gaguejada de Roger Daltrey está presente) são reutilizadas, muitas vezes de forma irônica, ao longo de Quadrophenia.



  Na narrativa Jimmy Cooper também se vê questionando seu futuro. Ele não tem uma vocação e não consegue se encaixar no mercado de trabalho. As únicas coisas que lhe interessam, ou pareciam lhe interessar, eram a diversão noturna, brigas com a gangue rival e vontades materialísticas. A música "The Dirty Jobs", é uma reflexão sobre a classe trabalhadora britânica. "Helpless Dancer", o melhor exemplo da técnica quadrifônica utilizada na gravação, critica a violência nas ruas e o capitalismo predatório. Jimmy está em uma crise de identidade por não se identificar mais com os garotos da sua idade, mas também tem medo de se tornar um adulto.

  A canção "Bell Boy", uma das mais famosas da banda, retrata um encontro entre Jimmy e um antigo Mod que o garoto idolatrava. Esse segundo, chamado de Bell Boy, agora trabalha como ajudante em um hotel, e se sente renovado com seu emprego. Porém ao longo da música, Bell Boy lembra com uma certa nostalgia da época em que era um arruaceiro, e percebe sua frustração em relação à vida seguindo ordens de seu chefe:

"Some nights I still sleep on the beach,
Remember when the stars where in reach.
Then I wander in early to work,
Spend my day licking boots from my perks"

na adaptação cinematográfica de '79 Bell Boy é nomeado como Ace Face, e é interpretado por Sting, baixista e vocalista do The Police.

   Após 17 faixas impecáveis a ópera se encerra com "Love Reign O'er Me". Jimmy rouba um barco na praia e navega até uma rocha no meio do mar, onde uma tempestade começa. Não fica explícito o que acontece com o personagem após os acontecimentos da história, e a partir disso, os ouvintes podem especular um final, já que de acordo com o próprio Pete Townshend, no fim da história Jimmy está passando por um dilema suicida. O conceito desse final em aberto também é usado no filme de '79, onde Jimmy pilota a scooter roubada de Ace Face em direção à um penhasco. As últimas cenas do filme são o veículo caindo em direção ao mar, junto com a câmera, o que pode tanto dar a entender que Jimmy jogou apenas o veículo quanto pode dar a entender que se ele jogou junto, sendo a câmera seu ponto de vista em queda livre.


  Na minha análise pessoal, o suicídio de Jimmy é apenas metafórico. Sua decisão de atirar a scooter (que representa toda a cultura Mod) de um penhasco, é uma metáfora para uma decisão de abandonar seus costumes antigos.



Theo Vargas                

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