sábado, 28 de julho de 2018

Você

  Eu acordo, como em vários outros dias, me fazendo essa mesma pergunta. Não a dedico a mim mesmo, dedico a você. Será que ainda temos essa sintonia? Por acaso você também acorda pensando nisso? Será que você ainda ouve algo que eu digo? Eu ainda tenho essa importância de fazer parar o mundo, de fazer rodar o filme que daria origem a tudo aquilo que nunca será? Eu ainda sou o sabor que ficou após sua tão horrível partida, suas férias do mundo, longas como a própria morte? Eu ainda atraio lágrimas e sorrisos, como se os dois se completassem desde a origem dos tempos, ou agora sou só mais uma sombra que vaga sem destino ou esperança nos mais esquecidos labirintos da sua mente? Será que você ainda se lembra de como é minha voz? Eu me lembro de uma vez ter dito que acreditava em você. Não nas suas palavras, não. Em você. E então, você ainda acredita nisso? Ah, acho que não. Não digo em tom irônico ou de deboche. Nada desse tipo. O meu problema é achar que tão cedo na vida poderia ter tomado de um remédio tão efetivo e tão mortífero. Esse é o verdadeiro problema, o maior dos dilemas que permeou essa passagem, essa história. E pensar que em uma viagem, algumas palavras e um final tão trágico, uma canção tão profunda se diluiu no eco de um batimento cardíaco descompassado e intenso. Na verdade, dois batimentos. Mas ainda descompassados, nunca no mesmo ritmo. Isso é, mesmo assim, uma beleza. A imprevisível natureza do que vai acontecer amanhã. Mas o dia de hoje é um dia de descanso, talvez congelado para sempre no nascer da lua. Num céu dividido em duas metades que não se aceitam, mas todos os dias devem conviver uma com a outra. Talvez essa seja a maior ironia de todas. Se eu ainda acredito em você? Não sei. Não tenho certeza de que vejo você, talvez seja minha imaginação. Uma mente fértil onde nasceu uma flor de cores intensas, mas muito frágil. Tão delicada que não cresceria em nenhum outro terreno, e não suportaria qualquer outro clima. Essa é a punição de toda uma vida, uma piada de mau-gosto do mundo com nós dois. O fato, no caso, é que talvez não exista uma só coisa que conspire a nosso favor.
  Mesmo assim, talvez existam coisas que não morrem, que não podem ser extintas. Quem sabe não é nossa a sorte de que algum ser superior nos dê esse privilégio? Talvez você se deite na cama e tudo aquilo que um dia foi a mais incontestável verdade volte a ser um decreto. Talvez o mistério que persiste em ti seja apenas fruto de uma fé oculta esperando a hora. Talvez você ainda pense em mim quando ouve notícias boas, como eu penso em você. Acho que pode haver um certo tipo de diversão no meio de tudo isso, uma história de infância. Algo que possa ser guardado, como qualquer outra coisa que eu já tenha te dado. Sim, acho que, por mais desconsertada que essa história pareça, sempre existe uma linha que, mesmo sendo suspeita, antiga, nova, ou seja o que for, pode servir como amarra. Afinal, o que é que há de importante senão os laços? Não sei como é que estão as coisas agora, e nem acho que exista um bom fim pra essa história, mas queria que você pudesse ler tudo que eu disse. Que pudesse ver tudo que eu vivi. Que pudesse saber tudo que eu fiz e viver tudo que eu conquistei. Mas você não pode, não é mesmo? Outro algo ou alguém, quem sabe? Mas não você.

Onde Fica Minha História?

  O tipo de coisa que mais ocupa minha cabeça é justamente aquilo que, não importa o quanto eu pense, não parece ter resposta. Acho que isso não é nenhuma novidade, deve ser assim com todos nós. Apesar de não gostarmos de perder, nós odiamos ainda mais não ter o que vencer. Isso é um tanto quanto natural, nos ajuda a sobreviver. Se não temos anseios, se não buscamos respostas e novas conquistas, apodrecemos. Preferimos a derrota à complacência, mesmo que isso vá contra a nossa lógica. O mais estranho, eu suponho, é que nem mesmo conseguimos definir nossas vitórias de maneira firme. Não quero falar por todas as pessoas, mas eu mesmo não sei o que é que eu quero. Talvez, seguindo a ideia que eu falei, nem mesmo seja possível definir isso. Se eu consigo algo que quero, eu ainda quero essa coisa? Talvez eu não saiba lidar com esse sentimento de posse tão presente no mundo. Na realidade, o que define algo como meu? A resposta pra essas perguntas, por exemplo, não é algo que eu queria ter. Que graça tem estar certo todo o tempo? Toda a emoção da vida vem de interpretar as coisas a seu próprio modo, de sua própria maneira. O conhecimento é um grande poder, de fato. Mas grandes poderes deixam o mundo mais cinza.
  É isso que me incomoda, sabe? Eu não sei ao certo até onde o espírito humano se extende. Não falo de espírito como algo religioso ou qualquer coisa assim. Digo de maneira filosófica. Talvez esse próprio texto seja, de uma maneira metalinguística, um exemplo do que eu estou querendo dizer. É sobre o desconhecer desse limite que eu me referia no início do texto, e olha só quanta coisa eu disse desde então, só para introduzir. A consciência me encanta de uma maneira que poucas coisas o fazem. Somos tão pequenos diante do mundo, tão insignificantes, e, mesmo assim, cabem dezenas de mundos dentro de nossas cabeças. Qual é o limite disso? Digo, o quanto eu posso me expandir, por meio de tudo aquilo que permite que eu me expresse, para além do meu próprio limite? Existe algum ponto no qual eu poderia ofuscar outras pessoas? Ou será que é a própria vontade dessas outras pessoas que regula o tamanho da minha influência? Se o poder do espírito de uma pessoa é, ao mesmo tempo, a alegria e a monotonia do mundo para essa pessoa, onde está o limite entre um e outro?
  Não sei. E não saber é parte desse espírito. O que sei é que reconhecer isso me faz realmente feliz, e não acho que isso tenha que mudar. Pode até parecer mais do mesmo, essa história da bênção da ignorância, do saber que nada sei. Mas é, de fato, algo muito bonito. Eu não sei, e sei que ninguém sabe. Assim, a consciência humana e o propósito do mundo tornam-se, apenas, histórias. A vida não tem resposta. O universo, provavelmente, também não. Então eu vou fazer o que cabe à consciência fazer. Não é definir o mundo. É contar, da maneira que eu achar mais incrível, o que é o mundo pra mim. O que eu quero é encantar as pessoas que ouvirem essa minha história, porque assim eu sei que elas vão criar histórias ainda mais encantadoras. É aqui que eu vejo propósito em tudo isso. Nas fantasias da minha mente eu quero deixar para as pessoas o meu legado.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Liberdade

  Não sei bem como é que eu poderia esperar algo diferente. Dia após dia, esse tipo de coisa sempre acaba se repetindo, se reconstruindo dentro de tudo aquilo em que eu acredito. Não é mais um abalo ou um deslize de uma vida perfeita. Não, o problema é que, invariavelmente, as coisas ruins sempre acabam se acumulando, fortalecendo umas às outras, enquanto as maravilhas parecem não gostar muito da convivência. O espírito humano, naturalmente, percebe o mundo segundo essa lógica, o que, no final, acaba por nos encurralar. Ficamos acorrentados numa cela que não conseguimos escapar, apesar de possuirmos a chave. Isso é algo que eu, inclusive, acho muito interessante. Talvez até cômico. É uma triste piada. Mesmo se soubermos como abrir a porta e sair, ficamos sempre inertes, deitados e brincando com a chave que abre a cela. Mas não demora muito para lamentarmos essa situação. Basta alguém passar do lado de fora da cela, e todo esse espírito muda. Alguns têm ódio pelos que saíram de sua prisão. Outros, inveja. Mais raramente, mostram orgulho, mas isso é um pouco utópico. A questão é que, instintivamente, temos repulsa pelo som que os passos dessas pessoas fazem fora da cela. Felizmente (será?), essa repulsa demora muito pouco. Logo, aqueles que se libertaram estarão a quilômetros de distância da prisão, e o único jeito de saber o que aconteceu com eles é conversando com os carcereiros, que nem sempre falam a verdade. E sabemos disso, todos os outros presos sabem disso e lhe dizem isso. Mas, na nossa cabeça, não temos escolha senão ouví-los. Eu não sei bem como é o mundo lá fora. Talvez seja melhor. Olhando pela minúscula janela da cela, parece bonito. Mas dizem que não há comida servida como aqui, não há cama garantida, e que existem vários perigos. De qualquer maneira, também não sei o quão longe estou de fazer o que vários outros fizeram e trocar a chave por alguns cigarros. Talvez isso me mate mais rápido, talvez faça o tempo passar mais rápido, talvez me permita sentir algo diferente. O que eu sei é que as pessoas, quase sempre, são as únicas que decidem o que as prende e o que as liberta. E saber disso não faz muita diferença, pois continuamos nos segurando dentro de uma fortaleza impenetrável. As pessoas lá fora, não importa o que digam, não conseguem e nem têm interesse em libertar quem está aqui dentro. É até bem curioso, parando pra pensar. Mas não quero pensar nisso agora. Hoje é dia do banho de Sol. Não vou ser o idiota que vai perder isso.

De dentro do condomínio

Pensamentos estranhos se fazem vivos Pensamentos que nos vigiam, que nos instigam Que parece sempre vindos De uma mente vazia De uma men...