sábado, 28 de julho de 2018

Você

  Eu acordo, como em vários outros dias, me fazendo essa mesma pergunta. Não a dedico a mim mesmo, dedico a você. Será que ainda temos essa sintonia? Por acaso você também acorda pensando nisso? Será que você ainda ouve algo que eu digo? Eu ainda tenho essa importância de fazer parar o mundo, de fazer rodar o filme que daria origem a tudo aquilo que nunca será? Eu ainda sou o sabor que ficou após sua tão horrível partida, suas férias do mundo, longas como a própria morte? Eu ainda atraio lágrimas e sorrisos, como se os dois se completassem desde a origem dos tempos, ou agora sou só mais uma sombra que vaga sem destino ou esperança nos mais esquecidos labirintos da sua mente? Será que você ainda se lembra de como é minha voz? Eu me lembro de uma vez ter dito que acreditava em você. Não nas suas palavras, não. Em você. E então, você ainda acredita nisso? Ah, acho que não. Não digo em tom irônico ou de deboche. Nada desse tipo. O meu problema é achar que tão cedo na vida poderia ter tomado de um remédio tão efetivo e tão mortífero. Esse é o verdadeiro problema, o maior dos dilemas que permeou essa passagem, essa história. E pensar que em uma viagem, algumas palavras e um final tão trágico, uma canção tão profunda se diluiu no eco de um batimento cardíaco descompassado e intenso. Na verdade, dois batimentos. Mas ainda descompassados, nunca no mesmo ritmo. Isso é, mesmo assim, uma beleza. A imprevisível natureza do que vai acontecer amanhã. Mas o dia de hoje é um dia de descanso, talvez congelado para sempre no nascer da lua. Num céu dividido em duas metades que não se aceitam, mas todos os dias devem conviver uma com a outra. Talvez essa seja a maior ironia de todas. Se eu ainda acredito em você? Não sei. Não tenho certeza de que vejo você, talvez seja minha imaginação. Uma mente fértil onde nasceu uma flor de cores intensas, mas muito frágil. Tão delicada que não cresceria em nenhum outro terreno, e não suportaria qualquer outro clima. Essa é a punição de toda uma vida, uma piada de mau-gosto do mundo com nós dois. O fato, no caso, é que talvez não exista uma só coisa que conspire a nosso favor.
  Mesmo assim, talvez existam coisas que não morrem, que não podem ser extintas. Quem sabe não é nossa a sorte de que algum ser superior nos dê esse privilégio? Talvez você se deite na cama e tudo aquilo que um dia foi a mais incontestável verdade volte a ser um decreto. Talvez o mistério que persiste em ti seja apenas fruto de uma fé oculta esperando a hora. Talvez você ainda pense em mim quando ouve notícias boas, como eu penso em você. Acho que pode haver um certo tipo de diversão no meio de tudo isso, uma história de infância. Algo que possa ser guardado, como qualquer outra coisa que eu já tenha te dado. Sim, acho que, por mais desconsertada que essa história pareça, sempre existe uma linha que, mesmo sendo suspeita, antiga, nova, ou seja o que for, pode servir como amarra. Afinal, o que é que há de importante senão os laços? Não sei como é que estão as coisas agora, e nem acho que exista um bom fim pra essa história, mas queria que você pudesse ler tudo que eu disse. Que pudesse ver tudo que eu vivi. Que pudesse saber tudo que eu fiz e viver tudo que eu conquistei. Mas você não pode, não é mesmo? Outro algo ou alguém, quem sabe? Mas não você.

Onde Fica Minha História?

  O tipo de coisa que mais ocupa minha cabeça é justamente aquilo que, não importa o quanto eu pense, não parece ter resposta. Acho que isso não é nenhuma novidade, deve ser assim com todos nós. Apesar de não gostarmos de perder, nós odiamos ainda mais não ter o que vencer. Isso é um tanto quanto natural, nos ajuda a sobreviver. Se não temos anseios, se não buscamos respostas e novas conquistas, apodrecemos. Preferimos a derrota à complacência, mesmo que isso vá contra a nossa lógica. O mais estranho, eu suponho, é que nem mesmo conseguimos definir nossas vitórias de maneira firme. Não quero falar por todas as pessoas, mas eu mesmo não sei o que é que eu quero. Talvez, seguindo a ideia que eu falei, nem mesmo seja possível definir isso. Se eu consigo algo que quero, eu ainda quero essa coisa? Talvez eu não saiba lidar com esse sentimento de posse tão presente no mundo. Na realidade, o que define algo como meu? A resposta pra essas perguntas, por exemplo, não é algo que eu queria ter. Que graça tem estar certo todo o tempo? Toda a emoção da vida vem de interpretar as coisas a seu próprio modo, de sua própria maneira. O conhecimento é um grande poder, de fato. Mas grandes poderes deixam o mundo mais cinza.
  É isso que me incomoda, sabe? Eu não sei ao certo até onde o espírito humano se extende. Não falo de espírito como algo religioso ou qualquer coisa assim. Digo de maneira filosófica. Talvez esse próprio texto seja, de uma maneira metalinguística, um exemplo do que eu estou querendo dizer. É sobre o desconhecer desse limite que eu me referia no início do texto, e olha só quanta coisa eu disse desde então, só para introduzir. A consciência me encanta de uma maneira que poucas coisas o fazem. Somos tão pequenos diante do mundo, tão insignificantes, e, mesmo assim, cabem dezenas de mundos dentro de nossas cabeças. Qual é o limite disso? Digo, o quanto eu posso me expandir, por meio de tudo aquilo que permite que eu me expresse, para além do meu próprio limite? Existe algum ponto no qual eu poderia ofuscar outras pessoas? Ou será que é a própria vontade dessas outras pessoas que regula o tamanho da minha influência? Se o poder do espírito de uma pessoa é, ao mesmo tempo, a alegria e a monotonia do mundo para essa pessoa, onde está o limite entre um e outro?
  Não sei. E não saber é parte desse espírito. O que sei é que reconhecer isso me faz realmente feliz, e não acho que isso tenha que mudar. Pode até parecer mais do mesmo, essa história da bênção da ignorância, do saber que nada sei. Mas é, de fato, algo muito bonito. Eu não sei, e sei que ninguém sabe. Assim, a consciência humana e o propósito do mundo tornam-se, apenas, histórias. A vida não tem resposta. O universo, provavelmente, também não. Então eu vou fazer o que cabe à consciência fazer. Não é definir o mundo. É contar, da maneira que eu achar mais incrível, o que é o mundo pra mim. O que eu quero é encantar as pessoas que ouvirem essa minha história, porque assim eu sei que elas vão criar histórias ainda mais encantadoras. É aqui que eu vejo propósito em tudo isso. Nas fantasias da minha mente eu quero deixar para as pessoas o meu legado.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Liberdade

  Não sei bem como é que eu poderia esperar algo diferente. Dia após dia, esse tipo de coisa sempre acaba se repetindo, se reconstruindo dentro de tudo aquilo em que eu acredito. Não é mais um abalo ou um deslize de uma vida perfeita. Não, o problema é que, invariavelmente, as coisas ruins sempre acabam se acumulando, fortalecendo umas às outras, enquanto as maravilhas parecem não gostar muito da convivência. O espírito humano, naturalmente, percebe o mundo segundo essa lógica, o que, no final, acaba por nos encurralar. Ficamos acorrentados numa cela que não conseguimos escapar, apesar de possuirmos a chave. Isso é algo que eu, inclusive, acho muito interessante. Talvez até cômico. É uma triste piada. Mesmo se soubermos como abrir a porta e sair, ficamos sempre inertes, deitados e brincando com a chave que abre a cela. Mas não demora muito para lamentarmos essa situação. Basta alguém passar do lado de fora da cela, e todo esse espírito muda. Alguns têm ódio pelos que saíram de sua prisão. Outros, inveja. Mais raramente, mostram orgulho, mas isso é um pouco utópico. A questão é que, instintivamente, temos repulsa pelo som que os passos dessas pessoas fazem fora da cela. Felizmente (será?), essa repulsa demora muito pouco. Logo, aqueles que se libertaram estarão a quilômetros de distância da prisão, e o único jeito de saber o que aconteceu com eles é conversando com os carcereiros, que nem sempre falam a verdade. E sabemos disso, todos os outros presos sabem disso e lhe dizem isso. Mas, na nossa cabeça, não temos escolha senão ouví-los. Eu não sei bem como é o mundo lá fora. Talvez seja melhor. Olhando pela minúscula janela da cela, parece bonito. Mas dizem que não há comida servida como aqui, não há cama garantida, e que existem vários perigos. De qualquer maneira, também não sei o quão longe estou de fazer o que vários outros fizeram e trocar a chave por alguns cigarros. Talvez isso me mate mais rápido, talvez faça o tempo passar mais rápido, talvez me permita sentir algo diferente. O que eu sei é que as pessoas, quase sempre, são as únicas que decidem o que as prende e o que as liberta. E saber disso não faz muita diferença, pois continuamos nos segurando dentro de uma fortaleza impenetrável. As pessoas lá fora, não importa o que digam, não conseguem e nem têm interesse em libertar quem está aqui dentro. É até bem curioso, parando pra pensar. Mas não quero pensar nisso agora. Hoje é dia do banho de Sol. Não vou ser o idiota que vai perder isso.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Você é a Melhor Montanha-Russa Na Qual Eu Já Estive Amarrado Nos Trilhos

    De todos os pesadelos que me acordam de madrugada, aqueles que você visita são meus favoritos. A simples ideia de poder te encontrar sem querer todas as noites é suficiente para deixar meu cérebro em um estado de alerta, que, buzinando e com a sirene ligada, me impede de cair no sono ao volante. E é só então por volta das 3:33 da madrugada em uma estrada qualquer, que eu desapareço em um espetáculo faraônico de ideias e conceitos abstratos, submerso no vácuo colorido dos céus brilhantes sobre o deserto infinito de Júpiter. E lá te encontro, confortável como um bebê dentro de uma concha. Pairando como um anjo no céu, como um milagre que vem para anunciar o apocalipse, ou os segundos inacabáveis que antecedem o primeiro beep do microondas. As estrelas se retorcem de ciúmes da única nebulosa capaz de domesticar a Lua minguante, com a dança hipnótica que astrônomos e seus telescópios vulgarmente chamam de libração. Os deuses se entreolham chocados procurando o responsável por tal truque de mágica, e sem nenhuma resposta, se banham em gasolina e ateiam fogo em suas próprias cabeças.

    O universo observável troca de pele e vira ao avesso. Tudo o que me resta nesse circo de horrores é vomitar meu coração em minhas mãos, envolto em um papel de presente colorido e amarrado com um nó de marinheiro, dentro de um cofre de banco que só você sabe a senha. Me encontro totalmente rendido ao frio mágico de sua língua, capaz de congelar minhas lágrimas antes mesmo que içem as velas no canal lacrimal. Assim, soltam-se dos meus globos oculares como bolhas de sabão, flutuando até o quarto mais escuro da sua alma. Mas, ah, é um lugar tão frio! Suas palavras montam guilhotinas (sem precisar de nenhum tipo de manual de instrução) e, entediada, você chupa o sangue da minha artéria Aorta mordiscando a ponta como um canudo dobrável de milkshake. As ondas nos seus olhos quebram minha concentração o tempo inteiro como trovões de ferro, nunca me permitindo terminar essa equação. Seu simples olhar conjura formigas vermelhas no meu estômago. E quando estou desperto, por volta da mesma hora, em uma segunda-feira qualquer, encruzilhado entre rifles que atiram realidade, penso na saudade que sinto do sono, e as armas se tornam flores ferozes. O mundo lúcido se metamorfoseia em pesadelo, e o mínimo que posso lhe dizer é que essa é a melhor montanha-russa na qual eu já estive amarrado nos trilhos.

                                                                                                         T.V [aka Fuss Aldrin]

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Assim Como o Céu Faz Todos Os Dias No Entardecer


"Pessoas em seus estados naturais são basicamente boas. Essa inocência natural, entretanto, é corrompida pelos males da sociedade." - Jean-Jacques Rousseau

    As cinco badaladas que ressoavam da torre tiraram o jovem fazendeiro de um estado hipnótico. Ficava daquele mesmo jeito todos os dias, àquela mesma hora, no cemitério, desde que ficou viúvo. Depositou uma pequena e delicada flor amarela em cima do túmulo frio de sua esposa, e enxugou as lágimas com a manga da camisa ao perceber a presença de mais alguém no campo-santo. Não percebera de imediato, mas se assustara com o barulho metálico do sino. Alguns segundos antes das badaladas, ainda estava submerso no passado. Viajava nas lembranças mais restritas e particulares que tinha de sua mulher, que recentemente falecera, e o barulho o tirara de forma violenta do transe, como se tivesse sido acordado, por berros, de um sono profundo. O Sol poente deixava o céu com um tom sanguinário, que, acima das terras douradas da América Espanhola, fazia aquelas brutais pradarias parecerem o paraíso. O homem mal precisou levantar seu chapéu de vaqueiro para tentar decifrar a silhueta de sua companhia contra o pôr do sol, quando a identificou pela sombra projetada no chão. Avistou um velho calvo e corcunda, com vestes escuras esfarrapadas e um nariz pontudo. Alguém menos atencioso acharia que suas mãos magras e trêmulas logo largariam a pesada pá de metal que segurava, mas o viúvo sabia que carregar aquela ferramenta era, com certeza, o trabalho que o velho mais estava acostumado a fazer. Ele reconhecia quando alguém estava habituado com um trabalho há muito tempo, afinal, era fazendeiro desde que nascera. Os dois homens se encararam por alguns instantes, até que o idoso apontou para cima e resmungou com o canto da boca:
     — É engraçado. O Sol corre no azul frio ao longo de todo o dia, mas só decide tingir o céu de vermelho quando percebe que seu tempo na abóbada celeste está acabando. — O velho soltou uma risada ligeiramente doentia por entre seus dentes tortos. — É como um palhaço que decide contar sua melhor piada segundos antes de ser expulso do palco.
     O fazendeiro sorriu e comentou:
     — E o desgraçado ainda faz isso todos os dias.
     — Não por muito tempo, vaqueiro. — O corcunda transformou seu semblante em uma carranca fantasmagoricamente séria, que sob a luz avermelhada do Sol poente aparentou ser mais infernal ainda. — Ficou sabendo do que aconteceu em um vilarejo aqui perto? Uma jovem deu a luz ao próprio Diabo... É o fim dos tempos. Da maneira que as coisas estão acontecendo, em pouco tempo até mesmo o Sol vai ter medo de acordar.
     — Você não me parece o tipo que tem medo do fim do mundo. Nunca imaginaria que um coveiro teria medo de morrer. — Respondeu o fazendeiro.
     — Provavelmente tenho mais medo que você. Ninguém com medo da morte andaria com um ferro desses no coldre. — E apontou seu dedo magro e sujo de terra para o revólver na cintura do fazendeiro. — Mas vejo que pelo menos você respeita os mortos, pelo contrário não estaria aqui.
     — Respeito os mortos, mas isso não significa que eu queira me juntar a eles...
     — Você é um sujeito engraçado. Eu normalmente não simpatizo com os vivos que vêm aqui. São sempre velhos amargos, pessoas extremamente abaladas pela vida, que caminham por entre essas lápides como se estivessem escolhendo onde vão descansar quando chegar a hora deles. Mas você ainda é jovem e cheio de vida. Ainda possui a energia celestial que trazemos do útero de nossas mães.
     — Discordo de você... — Contrariou o mais jovem.
     — Acha que já perdeu a luz da vida?
     — É mais complicado que isso... Percebo que você pensa que sabe alguma coisa sobre a vida e a morte, mas acredite senhor — o jovem suspirou e olhou friamente para o coveiro — há anos trabalho em fazendas de gado, e já presenciei centenas de bezerros vindo para esse mundo, assim como já matei animais velhos e doentes. Posso te garantir que o momento do nascimento é a cena mais bestial e selvagem que um ser vivo pode presenciar, muito pior do que a morte. Já esteve em um parto?
     — Além do meu? — Disse o coveiro — Na realidade não. Mas me interessei por sua teoria. Gostaria de entrar e tomar uísque? Tenho uma garrafa, e há muito tempo que não tenho a companhia de alguém.
     O fazendeiro assentiu, e seguiu o velho corcunda em direção à pequena construção de pedra a poucos metros do cemitério. Os dois homens caminharam, sob a intensa luz vermelha irradiada pelo horizonte, por entre as lápides. A relva amarelada em volta do cemitério tremulava como fogo, dando uma aparência apocalíptica para a paisagem abrasadora do deserto mexicano. Entraram na pequena casa de pedra, composta de apenas um cômodo, habitada pelo coveiro. Se não fosse uma fraca chama em uma lareira no canto do aposento, a única fonte de luz da casa seria um faixo de luz escarlate, que entrava pela pequena e solitária janela acima de uma velha mesa de madeira. Entulhos empoeirados estavam jogados por todo lugar, e uma coleção de crucifixos enferrujados se erguia de forma poderosa na parede acima de uma precária cama de palha. O velho, que agora debaixo de uma luz mais fraca mostrava ter um rosto pálido e olheiras escuras, puxou a única cadeira do aposento e disse para seu convidado se sentar. Enquanto o fazendeiro se acomodava, o coveiro abriu um armário e pegou uma imensa garrafa de uísque caseiro com uma mão, e dois copos sujos com a outra. Sentou-se em uma caixa e serviu seu convidado, que tomou a bebida e disse:
     — O que foi mesmo que você falou lá fora? Sobre uma mulher ter parido o Diabo?
     O fazendeiro logo se arrependeu de ter tocado no assunto. Percebeu que perguntara sem pensar, apenas para render conversa e quebrar o clima sombrio do quarto, mas que agora havia entrado em um tema perigoso. O coveiro levantou as sobrancelhas, e abriu a boca com uma expressão de terror absoluto, como se tivesse ouvido a própria voz do Diabo. Com sua voz rouca e cavernosa disse, quase sussurrando, como se estivesse com medo de mais alguém ouvir:
     — Você não tem ouvido as histórias? Todo o vilarejo tem falado disso... Alguns quilômetros mais distantes daqui, atrás daquela montanha rochosa a oeste, mora uma jovem de pouco mais de dezesseis anos que compactua com poderes malignos... Ninguém sabe de onde veio, nem o porquê de ter escolhido essa região miserável para perturbar, mas há poucos dias um comerciante veio correndo para a igreja, dizendo que a moça estava prestes a dar a luz, e precisava de uma parteira. Naturalmente o padre foi junto... Mas nem mesmo seu dom santificado foi suficiente para conter a Besta. Do ventre da garota saiu uma criatura aterrorizante, com pele escamosa, chifres, olhos amarelos cadavéricos e labaredas saindo das narinas. — Fez uma pausa para tomar um pouco mais da bebida, e serviu ao convidado. — A maldita cria do Diabo matou não só a mãe, mas também o padre e até mesmo a pobre parteira. Transformou o milagre do nascimento em um banho de sangue, com suas garras afiadas como facas.
     O jovem fazendeiro expressou um sorriso cético e indagou:
     — Se todos que estavam presentes foram assassinados, como sabem quem matou? E como sabem a aparência da criatura? Me desculpe senhor, mas de todos os boatos mentirosos que eu já ouvi contarem nesse vilarejo, esse foi o mais desonesto.
     — Ah, garoto! Você é esperto... Mas dezenas de pessoas já avistaram a criatura depois do massacre. — Retrucou o velho, com um tom agressivo. —Dizem que ela se espreita pelo mato alto e ataca seus calcanhares antes que você consiga fugir... E mesmo que consiga correr, o Bebê Diabo é mais veloz. Ele corre mais rápido do que um cavalo, ninguém foi capaz de sequer se aproximar...
     O fazendeiro teve sua atenção tomada por uma curiosidade mórbida de saber onde a criatura se escondia. Não ouviu o que o coveiro lhe contou após isso, mas sabia que o velho passara talvez uma hora falando da tal besta demoníaca. Enquanto narrava os relatos de avistamento dos camponeses, reenchia os copos rapidamente, nunca os deixando vazios por muito tempo. Os dois homens brindavam de forma quase instantânea e o coveiro continuava a falar. O mais jovem aceitava as doses da bebida inconscientemente, com os olhos fixos em direção à janela. pensava na possibilidade do Diabo estar logo ali do lado de fora, naquele terreno macabro do cemitério. A criatura pequena, do tamanho de um recém-nascido, com patas de bode e dentes e garras afiados como facas, rosnando como um cachorro e bufando fogo. Imaginava a criatura descrita pelo velho abaixada entre o mato-alto da planície, escondida, agora que escurecia, e o céu se tornava um azul sombrio e o Sol se deitava atrás das montanhas, à distância, na direção do lar da mãe da criatura.
     A sala ficou em silêncio assim que o coveiro percebeu que o jovem não estava mais prestando atenção. Encheu mais uma vez os copos e ficou pensativo, enquanto dava pequenos goles no uísque e olhava para o vazio. Respirou fundo e, com a boca fraca e a voz trêmula, disse em tom de confissão:
    — Eu já estive em outro parto além do meu.
     A afirmação tirou o fazendeiro de seu transe alcoólico assustador, e o fez rapidamente esquecer o pavor inexplicável que a história da criança diabólica lhe provocara. Olhou para o coveiro com seriedade, e o mais velho de volta, com a mesma frieza, e lágrimas escorriam pelo seu rosto pálido e enrugado. Fraco e com o olhar vago o velho disse:
    — Era tão pequena... Minha pequena filha... Teria idade para ser mãe se estivesse aqui conosco hoje. Em seus primeiros e únicos instantes nesse mundo eu vi em seus olhos a maior quantidade de vida no planeta. Era tanto amor que nem me lembro do sangue e da brutalidade do nascimento. Aquela criatura tão pequena e sensível... E poucos instantes depois, morta, nas minhas mãos. O pulmão era frágil demais para o ar espesso e grosseiro de nosso mundo. Hoje ela é um pequeno anjo no colo do Criador.
    O coveiro limpou as lágrimas com as mãos magras, enquanto o fazendeiro ouvia sua história, sem saber como reagir. O mais velho continuou:
    — Sabe, garoto... Quando viemos ao mundo somos tão puros quanto o azul do céu. À medida que entramos em contato com o pecado que já está impregnado nessas terras, nos contaminamos. Aprendemos a ser maus com nossos pais. O dom de cometer um crime não é natural do ser humano. E no momento que nos esquecemos do prazer da inocência que trazemos do ventre, nos envenenamos e ficamos doentes. Envelhecemos. Deixamos o Diabo nos segurar pelas mãos e nos arrastar até o inferno, simplesmente porque aprendemos a fazer isso. Então morremos, e o ódio continua impregnado em nossos filhos. Ele é passado de geração em geração como uma doença.
    O jovem suspirou, tonto, franziu o cenho, e disse calmamente:
    — Me desculpe senhor, mas serei obrigado a discordar de você. O ser humano é um animal tão selvagem quanto um bezerro, ou um lobo. Nascemos em um banho de sangue, urrando como monstros. Somos todos de certa forma filhos de um pecado... E não é à toa que também passamos nossas vidas todas pensando em voltar pelo local de onde viemos, falando de modo grosseiro. Posso te garantir que trazemos todas nossas más intenções desde o útero. Se recém-nascidos fossem tão angelicais, puros, almas saudáveis sem nenhum sofrimento, chorariam como choram?
    — Choram porque ainda são sensível demais. O mal cria uma concha em volta de nós, nosso corpo se acostuma com o gosto do veneno. — Disse o coveiro, fazendo uma careta após falar a palavra "veneno". — Se nascêssemos mal intencionados, imagine como ficaríamos no final da vida... Tão corrompidos que suicidaríamos antes que pudessem nos matar.
    — Você não entendeu. O pecado nos protege dos males alheios. É a lei da natureza. E quando o mundo exterior nos condena pelos nossos pecados, aprendemos a não pecar novamente. Voltamos então ao paraíso, quando já estamos sábios o suficiente para entender o segredo do universo. — Deu um grande ênfase no termo “segredo do universo”. — Deus tira nossas vidas só quando estamos preparados para isso.
    O fazendeiro já estava bêbado nesse ponto do diálogo tétrico que os homens conduziam, e falava de forma lenta, quase a ponto de se perder no meio da linha de raciocínio. Entretanto, era firme na certeza do que falava, tendo já refletido sobre aquela questão em outras tardes ensolaradas de trabalho. Prosseguiu:
    — Aprendemos com nossos erros, e nos santificamos quando percebemos nossa natureza maléfica. É claro que alguns morrem sem ter essa iluminação, mas sofrem em seus momentos derradeiros. É só quando estão derrubados no chão, com as mãos molhadas do próprio sangue, que se arrependem de todos os males que causaram.
    O coveiro refletiu por alguns minutos, se levantou, cambaleante, e alimentou o fogo, quase extinto, na lareira. O Sol já não iluminava mais a casa, e as estrelas tentavam brilhar por trás de um lençol de nuvens. O fazendeiro pegou um cigarro de dentro do bolso do casaco, e disse ao anfitrião que ia tomar um ar. O jovem saiu da casa, não mais amedrontado pela lenda do Bebê Diabo, e acendeu o cigarro. Cruzou os braços e olhou em direção ao cemitério. O coveiro seguiu o fazendeiro para fora da casa, e, olhando para cima, tentava procurar a Lua por entre as grandes porções de nuvens que agora tomavam conta do céu.
    — Também sinto que minha esposa nunca irradiou tanta vida quanto fez momentos antes de morrer. Acho que fazemos assim como o céu faz todo dia no entardecer. Contamos nossa melhor piada e somos expulsos do palco. — Disse o fazendeiro.
    — Percebi que em uma coisa nunca discordamos, garoto. Vivemos no inferno. — O coveiro acrescentou, olhando para o céu.
    Os dois estranhos se encontravam perplexos por suas próprias reflexões, cobertos pela escuridão da noite. E por vários minutos os dois homens ficaram ali, sozinhos e em silêncio absoluto, debaixo do céu nublado que escondia as estrelas.

                                                                                        Theo Vargas

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

ensaio de F. Aldrin n°1 (em D menor)

   É um erro comum pensar que pessoas ansiosas gostam de velocidade. Na realidade, muitas vezes elas preferem pegar o caminho mais lento, deixando qualquer tipo de atalho para outra ocasião. Assim, o destino é adiado e qualquer problema que esteja na espreita vai ser prorrogado e colocado em Alguma Hora Depois Do Futuro. É uma falsa ilusão de conseguir barganhar mais tempo com o universo, como se ele fosse um comércio informal que permitisse negociações. Esse é um dos motivos que nos levam a colocar um nome e um rosto na simples e fria magia da existência. Por mais contraditório que pareça, trata-la como um deus é só mais um jeito de humanizar um conceito inanimado, simplesmente porque ficamos intimidados diante de algo que não permite diálogo.
   Porém eu sou ansioso, e gosto de velocidade. Sou a exceção. Não gosto exatamente de chegar rápido onde quer que eu esteja indo, mas sim do sentimento de velocidade em si. De todas as outras palavras que carrego junto de "velocidade", como "liberdade", "controle", e talvez até mesmo "calma". Gosto de pensar na velocidade como algo que eu só me permitiria obter quando não tivesse nenhum destino ou compromisso marcado, em um estado de total ausência de pressa. Só assim a velocidade passa a ser prazerosa. Só aquele que não tem mais nenhum lugar para ir que gosta de correr, e pode colocar todo o peso do corpo em cima do acelerador, tendo 100% de aproveitamento da emoção de estar se locomovendo na velocidade do som. E enfim conseguir voar.
   Eu tenho pensado... O que eles querem dizer com "viver tendo o mar como referência"? Se a vida e como caminhar em direção ao litoral, essa expedição exotérica em direção à uma experiência completa de vida, percorrendo praias, grandes porções desérticas que deságuam no oceano, seria correto viver tendo a morte como referência? Localizar-se meramente usando o destino da viagem como norte? Quem foi que disse que é uma boa ideia viajar sem rumo, viver para sempre? E por que nossas mentes não conseguem se livrar da maior mentira da experiência humana, que estar perdido esta diretamente relacionado à liberdade, e assim à velocidade?
   Encarar a morte é o verdadeiro jeito de se libertar. Libertar-se da terra, da cidade, da vida, das estradas. Foda-se a terra firme, a verdade está na água salgada. Na água gelada. No afogamento. Enfim deitar-se por cima das ondas, correr livre no oceano pacifico. Levantar vôo, jogar fora seus remos. Abraçar o vento, sonhar com conchas e beijar sereias. Navegar. Talvez morder alguns tubarões.

                                    T.V [aka Fuss Aldrin]

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Primeira Luz (II)



O ENFERMO 

     Deitado em uma grande e confortável cama em seu estúdio, Aernout Van Twist contemplava melancolicamente suas derradeiras horas de vida. Agarrado pelas terríveis garras da febre, nenhum médico dos mais renomados do mundo achara a cura para sua condição febril, que estivera consumindo o famoso artista plástico aos poucos, ao longo do decorrer dos últimos meses do ano de 1884. Antes lúcido e cheio de vida, Van Twist era considerado por toda a classe intelectual do mundo como uma das mentes mais brilhantes que já haviam tocado a terra, e seus quadros eram conhecidos por sua infinidade de cores e representações realistas de grandiosas batalhas, deuses antigos e poderosos reis. Os críticos diziam que as telas de Van Twist eram tão realistas, que entrar em uma exposição com suas obras era como encarar uma nova dimensão ainda mais realista do que o mundo que vivemos, e que sua mente seria projetada imediatamente para o um novo universo de perspectivas e tons antes inimagináveis. Mas agora o gênio havia se tornado louco. A febre consumira seu cérebro e a mente mais lúcida do mundo vivia em seu próprio mundo, à milhares de anos luz da terra. Estava trancado em seu estúdio, e alegava para a imprensa, que se reunia todas as manhãs em sua porta buscando qualquer tipo de notícia, que morreria ali mesmo, mas que trabalhava incansavelmente na grande obra de sua vida. Seu objetivo era provar que não estava ficando louco, nem mesmo em seus últimos dias de vida, e quando morresse, deixaria a prova de sua sanidade: Uma obra-prima capaz de distorcer todas as noções de realidade concebidas pelo ser humano.
     Infelizmente, Aernout não estava nem perto de atingir seu objetivo. Nas últimas semanas havia criado telas impressionantes, mas nada que apresentasse algo que nunca tinha feito antes. Em um acesso de fúria, incendiou todo seu progresso em uma pilha de telas incríveis que considerava medíocres. Ateou fogo em sua própria arte e a jogou, em forma de cinzas, do parapeito de sua janela em direção à multidão que se formava na rua, um grupo de críticos e grandes apreciadores de sua arte que aumentava gradativamente ao longo que os dias passavam e ninguém via o artista. Tudo que o grupo conseguiu ver foi um gênio frustrado e em decadência jogando caixas de cinzas de sua janela, em direção às ruas de Amsterdã. Van Twist se encontrava em total rendição à morte, destruído por sua condição médica que lhe causava paranóia e bruscas alterações de humor. Estava fraco e cansado, sentindo que não passaria das próximas horas. O pensamento de que não teria tempo de expressar suas últimas sensações do mundo terreno em forma de arte dilaceravam sua mente já fragilizada, o levando à um estado de ansiedade terrivelmente destruidora. Era impossível correr contra o tempo, e todos se lembrariam de Aernout Van Twist para o resto da história como o lunático que demonstrou ser em seus últimos dias.
     A verdade é que poucos sabiam o que havia levado Aernout àquela situação degradante. No fundo o artista tinha a certeza de que nenhum médico europeu renomado ou sábio curandeiro poderia achar a fonte maléfica da destruição de seu espírito pois a causa tinha uma origem totalmente metafísica. Há quatro meses, o grande amor da vida de Van Twist havia cometido suicídio. Jeanne Tiercelet era uma garota jovem, filha de banqueiros franceses, que morava em Amsterdã. Era uma adoradora de arte, e seus conhecimentos de filosofia estética logo ganharam o coração de Aernout quando se conheceram. Para o artista a situação era totalmente surreal, e quase não acreditava que seu fim aconteceria procedente de uma causa tão irracional como uma paixão. Mas a sensibilidade do jovem pintor era sua maior fraqueza, e quando se deu conta da morte de sua amada toda sua visão estabelecida de um mundo sólido se desmanchou, como telas coloridas sendo consumidas pelo fogo. Assim estava há semanas tentando reproduzir um retrato de sua amada que captasse toda a vivacidade de quando a jovem era viva.
     Exausto, Van Twist fumava seu cachimbo deitado solitário na grande cama de casal no centro de seu estúdio, e se lamentava diante do desejo impossível de se deitar com sua amada pela última vez. A noite caiu, e atordoado pela febre, Aernout decidiu que teria uma última tentativa. Acendeu uma vela, e sob a fraca luz colocou a última tela em branco que restava no estúdio no cavalete, dando pinceladas leves com seus braços fracos no espaço em branco. Ficou por quase toda a madrugada diante daquela criação, totalmente hipnotizado com as cores que deixava seu sub-consciente escolher. A cera da vela escorria e pingava em seus pés, mas a dor não o distraía. Sujava suas mãos de tinta sem se preocupar, e usava seus dedos para tocar o pigmento que colocara na tela, em uma tentativa de chegar mais perto da figura de Jeanne. Estava cansado, mas seus olhos vidrados não se despregavam daquela obra, e se aproximava cada vez mais de sua criação, quase a tocando com seu nariz. Sua cabeça doía mas não podia se render à morte já que talvez estivesse diante de sua tão procurada obra-prima. Quando finalmente acabou, deu alguns passos para trás, e a imagem que viu foi suficiente para causar-lhe um espanto tão grande que suas pernas fraquejaram, e ele se entregou totalmente ao chão. Caído, o fraco e pálido artista analisava assustado a sublime e aterrorizante criatura que pintara. Era de fato seu quadro mais realista, quase mais sólido do que a própria realidade, mas não era nada nem de perto relacionado à jovem Jeanne. Van Twist estava sentado diante de sua mórbida criação e podia praticamente tocá-la. Sentiria sua textura mole e gélida, dentro da paisagem retratada que se parecia como um céu noturno escuro e vazio observado por um telescópio. O catatônico artista não conseguia desviar sua atenção para outro lugar que não fosse os olhos do monstro, que reluziam pequenos como duas pedras brancas brilhantes no fundo do oceano. A cabeça da criatura era grande, gorda e alongada, e parecia estar presa dentro de um tipo de capacete de vidro, semelhante a um aquário. Para fora do capacete de vidro, pela base do globo transparente, saíam doze tentáculos imensos, que flutuavam livres no cenário espacial do quadro como braços que poderiam tocar a mais distante das mentes.
     O artista tinha toda sua atenção sugada para dentro do quadro de forma hipnótica, e quanto mais sua mente mergulhava para dentro da tela, mais real o monstro parecia. Seus tentáculos pareciam fazer um tipo de movimento incessante, como se estivessem flutuando debaixo d'água, e a pintura aparentava ser um tipo de portal para o lar da criatura. A vela do quarto já tinha se apagado, e a única fonte de luz no local eram os olhos o monstro, que brilhavam como estrelas refletidas pela água do mar, iluminando todo o estúdio com um tipo de luz pálida e fraca. Os tentáculos se aproximavam de Aernout, que se deitara encolhido no chão como um feto sozinho no útero, assustado com a vida do lado de fora do ventre da mãe. O artista estendeu a mão e tocou a ponta do tentáculo, que era gelada e macia como a pele de um cadáver. O imenso braço do polvo de doze tentáculos deitou-se ao lado do artista, se mexendo de uma forma totalmente orgânica, como um pulmão humano preenchendo seus alvéolos com oxigênio. Aernout encostou seu rosto contra o tentáculo e sentiu pela última vez o perfume de Jeanne, como se a jovem estivesse ali, deitada ao lado de Van Twist no chão do quarto. O artista segurou com força a criatura, e quase conseguia ouvir a respiração da jovem. Em sua imaginação tocava a pele de sua amada, que era macia como uma teia de seda colossal, tecida pelo maior aracnídeo do mundo. Quanto mais forte Aernout segurava a criatura, mais ela se aproximava com os outros tentáculos, que envolviam Van Twist como um casulo e o levantavam suspenso no ar. O monstro o colocou gentilmente de volta na cama, e o artista se sentiu como se estivesse deitado ao lado do corpo de sua amada. Quando sentiu o frio da criatura, de repente em sua imaginação febril logo veio a imagem terrível de estar deitado com o cadáver de Jeanne. Assustado, o artista tentou se livrar dos braços gelados da criatura, mas era tarde demais: O monstro havia colocado um de seus tentáculos em volta do pescoço de Aernout, e estava o estrangulando como uma jibóia faz com uma presa, prendendo sua respiração. Van Twist se rendeu à criatura até ficar totalmente inconsciente, e finalmente deixou ser levado pelos braços reconfortantes da morte.

                                                                                                             Theo Vargas

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Primeira Luz (I)


O MAGO

     Em algum lugar entre dunas de areia do deserto, debaixo do céu escuro da madrugada nas proximidades do golfo pérsico, erguia-se uma torre de pedra que se destacava solitariamente no horizonte como a única construção humana em um raio de quilômetros. Compreendida dentro da face escura do globo, onde a luz solar não tocaria até o amanhecer, suas pesadas paredes perdiam o calor obtido durante o dia cedendo toda sua energia ao cosmos. As areias do ermo, que de dia eram como um espelho iluminado que refletia com abundância a luz emitida pelo sol, agora estavam pálidas e petrificadas como a areia do fundo do mar, ocultas debaixo de um lençol tenebroso de estrelas e escuridão. A lua também se escondia se vestindo com a sombra da terra, que tampava a luminosidade do sol dando origem a uma noite escura de perfeita lua nova. A fria paisagem estaria completamente desolada se não fosse um pequeno e velho mago, que sentado em um grande banco no último andar da torre, tateava a mesa à sua frente, debaixo de uma janela que não passava de um vão quadrado na parede, buscando no escuro seus pequenos e frágeis frascos de vidro que continham as amostras de suas mais recentes pesquisas. O sábio estava há dois dias em um incessante estudo de alquimia, em busca das matérias primas da natureza que em contato uma com a outra se transformariam em fogo. Seu imenso ego tinha o convencido de que conseguiria alcançar sua descoberta até o entardecer do dia, mas o velho mago estava tão vidrado em suas pesquisas que não percebeu as sombras do deserto se alongando à medida que o sol se punha, e agora era muito tarde para tentar alcançar a cidadela mais próxima, pois a região era infestada de sanguinários ladrões que não pensariam duas vezes antes de decepar um famoso mago apreciado pelo rei. Além disso a jornada seria longa, e o sábio não possuía nenhuma fonte de luz que pudesse guiá-lo pelo caminho. Havia um par de pedras que utilizara na noite anterior para acender uma fogueira feita de folhas e casca seca de palmeira, porém o combustível havia se esgotado, e as faíscas produzidas pelas pedras nem sequer iluminavam o rosto do velho, e assim não fariam luz suficiente para iluminar a escuridão do deserto. Por isso, decidira ficar na torre até conseguir criar fogo com suas misturas, e assim acender uma tocha e seguir pelo deserto em direção à cidade, onde seria recebido de braços abertos pela população que ficaria maravilhada com sua nova e revolucionária descoberta.
     O homem tentava continuar seus afazeres, decepcionado com suas próprias habilidades que não foram suficientes para garantir luz naquela noite. Tremia cada vez mais com o frio, derrubando parte de seus compostos na mesa de pedra sempre que ia tentar uma mistura diferente. Esbravejava e tentava novamente, involuntariamente se molhando com substâncias extremamente perigosas e desconhecida pelos ignorantes da ciência da alquimia. Foi em um desses momentos, já no auge da noite, que o mago acidentalmente derrubou um frasco entre seus braços, e o líquido caiu em sua mão causando um metálico e profundo ardor que logo se transformou em uma estranha sensação de formigamento na pele. O velho gritou de dor e correu desesperadamente até o vaso de cerâmica com a água que estava usando para consumo próprio para se limpar sem pensar duas vezes. Antes de se dar conta de que contaminaria sua pouca água potável, já havia mergulhado seus braços no recipiente, cego pela dor em sua mão. Ao perceber o erro mortal que tinha cometido ao envenenar o vaso d'água, encheu-se de fúria, e deu um chute no recipiente com toda sua ira, quebrando-o, e molhando todo o chão de pedra do último andar da torre com sua preciosa água. Derrubado pelo fracasso, o mago começou a se lamentar, chorando de desespero com medo de morrer ali, consumido pelo frio e pela sede. Sentou-se no chão e ficou paralisado, tremendo o maxilar a cada vento frio que passava pela janela, sentindo o ar cortante perfurar seus ossos.
     Desolado e totalmente rendido à morte, o mago tentava listar todos os fracassos de sua vida como alquimista, todos os erros que lembrasse. "Não cometi um só erro em toda minha gloriosa carreira...", pensava ele, com sua barba encharcada de lágrimas. "E os deuses escolheram apenas um dia, um fatídico dia, para que eu tomasse todas as decisões erradas!". Foi quando percebeu o estúpido egoísmo que estava carregando ao túmulo:
     — Perdão! — Ele gritou em direção à janela, tendo o céu estrelado como o único ponto de referência na sala escura. — Eu culpo a mim, exclusivamente a mim!
     Ele exclamava, tentando de alguma forma se desculpar aos deuses.
     — A culpa é minha por não ter racionalizado de forma correta meu alimento! A culpa é minha por ter acreditado demais em mim mesmo, e ter pensado que conseguiria criar fogo em apenas dois dias! — Gritava com as mãos estendidas ao céu.
     Seus berros eram intercalados por momentos sombrios de silêncio, nos quais o alquimista só conseguia ouvir sua própria respiração ofegante e seus últimos pensamentos catastróficos. O mago estendia as mãos ao céu, enquanto se engasgava de tanto chorar. Todo seu corpo tremia de frio, e pela primeira vez na vida, sentiu medo do escuro. Não o medo irracional, aquele que é carregado pelo ser humano desde sua criação no ventre do universo. O mago sentia o medo de que alguma criatura desconhecida poderia estar escondida no canto escuro da sala, com seus dentes afiados e sede por sangue, apenas esperando o momento certo para te dilacerar. Era um medo pior, uma angústia amarga vinda do fato de que não conseguia enxergar absolutamente nada. Uma sensação desesperadora de que não sobreviveria tempo suficiente para ver o sol novamente. Tomado por esse pensamento, seu sangue ferveu por alguns segundos, e o alquimista correu até a janela para poder apreciar as estrelas pela última vez. Não foram mais que três passos executados, e escorregou no chão de pedra molhado de água, extremamente escorregadio. Havia esquecido completamente que derrubara o vaso, e em um movimento totalmente descuidado, escorregou, e sem equilíbrio foi atirado pela gravidade velozmente em direção ao chão, atingindo a mesa com a testa no meio da queda. O impacto foi o suficiente para fraturar a cabeça do alquimista, que permaneceu ensopado de sangue no chão molhado, até recuperar parte dos seus sentidos e conseguir ao menos sentar-se na cadeira. O mago permaneceu sentado por um longo tempo, exausto e paralisado de dor, exalando todos aquelas substâncias extremamente voláteis e venenosas que deixara em cima da mesa. Seus olhos ardiam de dor, e o sangue quente escorria pelo seu rosto, aliviando momentaneamente o frio perfurante em suas bochechas. Sua visão escureceu, enquanto imaginava melancolicamente seu cadáver azulado de frio em algumas horas, sendo acariciado de forma morna e confortável pelo primeiro raio solar da manhã.
     Enquanto os olhos do sábio se fechavam, e ele se despedia pela última vez da melancólica luz das estrelas, algo o aterrorizou. A sala finalmente foi tomada pelo escuro absoluto, e o velho pensou estar sendo abraçado pelos braços gélidos da morte. A fraca fonte de luz do céu limpo do deserto havia desaparecido, como se algo estivesse tampando a janela. Ao dar um esganiçado soluço de choro, o mago percebeu que ainda estava vivo, e que na realidade, havia algo lá fora. Esqueceu completamente de suas dores e do frio quando notou uma respiração rouca vindo do deserto, audível como uma multidão respirando em uníssono. Reuniu suas últimas gotas de coragem para dizer um tímido e assustado:
     — Quem está aí?
     Esperou alguns segundos pela resposta, e uma voz grave e alta, que reverberava pelo vazio do deserto, e articulava os sons de uma forma metálica como sabres sendo golpeados uns contra os outros, respondeu:
     — Sou a primeira luz do universo e a última luz da vida. Mãe de todas as estrelas e pai do vazio escuro. O primeiro vislumbre de um recém-nascido, e a última contemplação do ancião. Meu nome é Dodectopus, o habitante Da Orla.
     Perdido no escuro absoluto o mago arregalava os olhos na tentativa falha de conseguir enxergar alguma coisa. Como estava no papel de um homem em busca da verdade, sentia ao mesmo tempo uma atração curiosa e um pavor absoluto de seu interlocutor. Em uma falsa sensação estúpida de que também deveria se apresentar, tentou esconder qualquer tipo de orgulho e disse:
     — Meu nome é Shooshtar, O Mago, o homem com o conhecimento da fabricação das poções mais concentradas do deserto.
     O silêncio que veio após essa introdução foi embaraçoso para o mago, que continuou ouvindo suas palavras pensando no quão estúpidas elas haviam soado. Um ser tão grandioso como aquele não ficaria nem um pouco surpreso com os conhecimentos humanos de um simples alquimista conhecido por fermentar cereais.
     — Humano tolo! — exclamou a entidade. — Não estou interessado nos truques que você faz para se impressionar! Não percebes que foram eles que trouxeram-lhe até aqui?
     Aquelas palavras foram suficientes para fazer o alquimista se lembrar de onde estava. Morreria de frio no último andar da torre caso não conseguisse uma fonte de calor.
     — Perdão, ó grande Dodectopus! Por favor, tenha condolência deste meu corpo mortal! Sinto frio e morrerei antes do amanhecer se não sentir o abraço gentil do fogo!
     — Não eras tu o homem mais inteligente do deserto? Faça você mesmo o fogo... — respondeu a criatura, em tom de desafio.
     O mago entrou em total desespero. Havia sido trazido até aquela situação devido a seu excesso de auto-confiança. Seu ego havia o levado em direção à morte. A terrível criatura estava ali apenas para observar seu fim, e ele não teria nem mesmo a oportunidade de ver a aparência do misterioso ser. Seu corpo todo tremia no escuro, e já não sentia seus dedos. Sua cabeça latejava, e o sangue não parava de escorrer, pingando em suas vestes molhadas feitas de tecido nobre. Shooshtar não seria capaz nem mesmo de tentar continuar sua busca, já que estava escuro demais para conseguir ler os rótulos dos frascos, e seu corpo estava cada vez mais fraco. Aquele ser estava apenas o torturando, castigando-o pela sua megalomania mortal. Decidiu desesperadamente misturar as substâncias de forma aleatória, despejando vários frascos de líquidos de todos os tipos diferentes em uma bacia de cerâmica enquanto chorava ao perceber estar diante do fim. Até que ao perceber seu próprio fracasso, se irritou e atirou a bacia para o lado, junto do restante de todas as centenas de frascos que estavam na mesa. Enquanto berrava de raiva, e surpreso com sua própria reação irracional, não percebeu que os líquidos misturados na bacia entraram em contato com a água envenenada que já estava no chão, e formaram uma cortina de fogo que tomou conta de toda a sala. As labaredas chegavam até o teto e preenchiam todo o último andar da torre, e assim, logo se espalharam para as vestes do mago, o envolvendo por inteiro pelo fogo. Enquanto sentia sua pele ser consumida lentamente pelas chamas, nunca tão feliz por estar sentindo o doloroso calor, olhou triunfante em direção à janela acima da mesa para enxergar a criatura. E pela última vez viu as estrelas sobre o deserto.

                                                                                                                        Theo Vargas

De dentro do condomínio

Pensamentos estranhos se fazem vivos Pensamentos que nos vigiam, que nos instigam Que parece sempre vindos De uma mente vazia De uma men...