Por muito tempo, pensou-se que Deus teria nos feito semelhante à sua imagem, diferente dos outros seres vivos, com almas, dons de livre arbítrio e sentimentos. E por isso seríamos a espécie arquitetada de forma perfeita, e nossas imperfeições seriam todas causadas pelo nosso próprio pecado inicial. Algum tempo depois, com ideias mais esclarecidas sobre evolução das espécies, chegamos à conclusão que somos melhores porque somos um animal social. Nos organizamos em tribos porque somos sociais. Pensamos em nosso futuro porque somos sociais. Descobrimos o fogo, criamos leis, construímos ferramentas e matamos nossos semelhantes porque somos sociais.
Junto com essas perguntas sobre nossas origens, logo pensamos em nossos fins. Afinal, nossas únicas certezas são nossa existência, e que essa existência algum dia acabará. E seria um grande problema para o tão inteligente animal social, que ao mesmo tempo que cria e desenvolve pelo bem do grupo, depende de forma vital de seus semelhantes, se junto com essa certeza viesse a verdade de que todos morreremos sozinhos. Uma ideia certamente assustadora para um ser que depende tanto do próximo: O fato de que tudo formado por aqueles a sua volta, tudo que foi criado e nunca compartilhado, todas as palavras reprimidas ou escondidas no solitário porão do pensamento, tudo desaparecerá caso não seja jogado em um diálogo. Toda uma enciclopédia, dicionário ou livro de história escrito mentalmente ao longo de uma vida, queimados pela força devastadora da morte.
E mesmo que compartilhemos tudo, haverá sempre uma mudança na informação durante o processo de comunicação. Uma interpretação errada do leitor. Afinal, estamos cada um dentro de nossas próprias bolhas de pensamento, impenetráveis, e por mais perto que nossas bolhas estejam, nunca estaremos juntos em um mesmo lugar. Cada evento presenciado por milhões de espectadores, cria milhões de livros narrados de formas diferentes, com palavras diferentes e interpretações diferentes, que por mais que seja apresentado a um leitor, nunca mostrará cem por cento do que realmente aconteceu. A pergunta fundamental então aparece: O que realmente aconteceu? Se cada acontecimento é diferente dentro de cada um, são todos falsos? São todos reais? Existe alguém que sabe a verdade?
Palavras como amor, tristeza, felicidade e medo são apenas palavras. Por mais que aprendemos a qual sentimento pessoal cada uma dessas palavras se encaixa, os sentimentos ainda são fundamentalmente pessoais, e nunca serão o mesmo de outra pessoa. Sua dor pode ser o êxtase do seu próximo, e vice-versa. Muitas vezes, apenas a comunicação não é necessária, e para conseguir estabelecer um laço com alguém, é preciso uma conexão, empatia, que não depende apenas de nossa vontade, e sim de uma sincronia entre os furacões dentro da cabeça de cada um. E como apenas nossas pobres ferramentas de fala conseguiriam criar laços sociais entre nós, ferramentas de fala essas que não são suficientes nem para descrever o que sentimos com perfeição?
Percebe-se então um defeito na organização social humana, já que nossa busca incessante pelo baú do tesouro na cabeça de nossos próximos nunca nos levará à lugar nenhum.
Talvez devêssemos simplesmente mergulhar em nossos próprios oceanos antes de tentarmos nos afogar no próximo, e assumirmos que somos como cães, pássaros, árvores ou fitoplânctons. Apenas indivíduos. Sem nenhuma necessidade além da nossa.
Theo Vargas
Theo Vargas
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