segunda-feira, 19 de junho de 2017

Decência

  Não sei ao certo, mas era próximo do meio-dia. Dentro da minha casa, um movimento incomum tomava lugar, enquanto parentes, amigos e conhecidos da família caminhavam de lá pra cá, estressados e frenéticos. Eu, às vezes, sonho com uma família feliz. Algo sem complicações, sem dramas e sem falhas. Devaneios utópicos de uma cabeça desocupada, que de mim tomam conta e se escondem nos sombrios e iluminados cantos do universo que se desenrola, liberto, em minha mente. Mas, em momentos como o descrito, tenho completa ciência das desvantagens da perfeição. É doloroso, quase que fisicamente doloroso: todo um dia de reações e emoções de plástico. O ápice da decadência social humana. Uma indústria de corações partidos com outdoors de felicidade.
  Enfim, todo esse alvoroço se dava pela ocasião inusitada que era iminente: um casamento na família. Algum primo, há muito distante, encontrara o par perfeito, e convidara toda a família que ele mesmo havia abandonado. Par perfeito. Como se fosse assim que funcionasse. As pessoas tendem a pensar que é desse jeito que a banda toca. Que existe uma combinação única e especial, aguardando-as. O erro está em dois lugares. Primeiro, está em pensar que existe a outra metade da laranja. Conversa fiada! Somos todos frutas diferentes. A mesma matéria orgânica, decerto, mas frutas diferentes. O outro erro, significativamente mais grave, está em pensar que temos que procurar nosso igual. Eu teria ânsia de vômito se tivesse que conviver com um clone meu pelo resto da vida. O mais encantador nesse mundo é aquilo que não conhecemos. O surpreendente, não o rotineiro. Bom, a família feliz estava terminando de se organizar para o tal casamento, perto das duas da tarde. O casamento era às cinco, mas o noivo tinha escolhido, para a cerimônia, uma chácara afastada da cidade. Decisão que eu não só respeito, como admiro. A festa acabaria de noite, e o céu do campo à noite é encantador. Eu vestia meu terno e nos preparávamos para sair. Roupas sociais são uma besteira, mas isso, por si só, não era muito incômodo.
  Começamos a nos organizar nos carros, e saímos em tempos diferentes. Não era possível ver os outros carros de onde eu estava. A viagem durou algum tempo. Eu não gosto muito de entrar no carro para viajar, mas depois que a viagem começou, até que eu gosto. Me acalma, me distrai. The Growlers fez a trilha sonora do caminho. Alguns vários minutos depois, chegamos à cerimônia. Descemos do carro, e começou uma tediosa sessão de cumprimentos a pessoas que nunca me fizeram falta na vida. Um nojo profundo tomou conta de mim. Náusea. Essa mania do ser humano de tentar parecer agradável para pessoas que não se importam com ele me deixa nervoso. Leis artificiais de um suspeito convívio social corrompido. Um manual ilegítimo de etiqueta, regendo vidas, oprimindo emoções. Leis não escritas para engrenagens iletradas. No fim, é isso que somos: um bando de ovelhas seguindo pastores de mentira, espantalhos. E aqueles que ousam sair da condição de ovelha, continuam presos em amarras doentes. O sistema é implacável, afinal. Quem não é ovelha, se perde em sua própria loucura. Capitães sem navios e chefes sem tribos.
  De tempos em tempos me pergunto que bem me faz pensar tanto, criticar tanto, questionar tanto, me importar tanto. Me pergunto se uma alegria ignorante seria melhor, mais simples e mais recompensadora do que uma liberdade plena. De que adianta eu me enfesar tanto com tudo, se nada mudo? Por certo tais insatisfações com o mundo só não me tomam por inteiro pois uma indignação ainda maior pisoteia pensamentos prévios a ela. Em grandes ou pequenas escalas, felicidade artificial é a perdição da humanidade. Nunca seremos o que almejamos ser, o que pensamos ser, se nos contentarmos com tamanha mediocridade. Não chegaremos a lugar nenhum obedecendo ordens. Avanço, engrandecimento, expansão da mente: sinônimos de rebeldia. De liberdade, pura e simples, potente e fatal. No final de tudo, não existe contentamento verdadeiro em ser mais uma peça no organismo poluidor da humanidade. E poluidor, eu digo, em mais de um sentido. Na verdade, em todos os sentidos que sou capaz de imaginar. Evoluímos e evoluímos até chegarmos em nossa mais imperfeita forma. Comandantes que pensam ter poder e comandados que pensam não o ter. A cerimônia durou tediosas horas. Mas, no final, não me senti indignado com aquelas pessoas. Que culpa têm? Apenas tentam ser felizes. Desesperadamente, buscam conforto umas nas outras, apoio para que possam continuar sobrevivendo, mesmo na anestesia do sistema. Ou melhor, buscamos. Não me excluo desse grupo. Por mais que eu busque me libertar, o sistema é, de fato, implacável. Não se abandona o sistema, simplesmente. Primeiro, é necessário tirá-lo da nossa mente, para depois pensar no próximo passo. Mais horas de viagem, e agora estou no quarto. Novamente decadente, sem a adorável família para fazer companhia. Algumas horas, apenas, usando as fantasias de "gente comum". Gente que gosta de gente, de toda a gente. Mas no final, nenhum de nós é comum. Não, uma alegria ignorante não é nada boa. E por isso busco sempre me expandir. Mente aberta para tudo que vier. Aprender, aprender. Não somente na escola. Em todo lugar, observando-se da forma correta, aprendemos. E o conhecimento do mundo é essencial, de fato. Não queremos ser mais uma Laranja Mecânica. Afinal, é quase como se dizia:
  Mente vazia, oficina do Estado...

                              Felipe Valverde

domingo, 18 de junho de 2017

O Animal Antissocial

  Filósofos e cientistas de todos os cantos do globo, desde o surgimento da civilização, se questionam sobre o diferencial que o evoluído homo sapiens apresenta em relação aos outros seres vivos. Por que apenas nós temos uma comunicação tão complexa? Por que apenas nós dominamos ferramentas da forma que dominamos? Em que ponto a seleção natural agiu de forma tão especial para nós, a ponto de deixar nosso intelecto tão aperfeiçoado, muito maior do que dos outros seres vivos?
  Por muito tempo, pensou-se que Deus teria nos feito semelhante à sua imagem, diferente dos outros seres vivos, com almas, dons de livre arbítrio e sentimentos. E por isso seríamos a espécie arquitetada de forma perfeita, e nossas imperfeições seriam todas causadas pelo nosso próprio pecado inicial. Algum tempo depois, com ideias mais esclarecidas sobre evolução das espécies, chegamos à conclusão que somos melhores porque somos um animal social. Nos organizamos em tribos porque somos sociais. Pensamos em nosso futuro porque somos sociais. Descobrimos o fogo, criamos leis, construímos ferramentas e matamos nossos semelhantes porque somos sociais.
  Junto com essas perguntas sobre nossas origens, logo pensamos em nossos fins. Afinal, nossas únicas certezas são nossa existência, e que essa existência algum dia acabará. E seria um grande problema para o tão inteligente animal social, que ao mesmo tempo que cria e desenvolve pelo bem do grupo, depende de forma vital de seus semelhantes, se junto com essa certeza viesse a verdade de que todos morreremos sozinhos. Uma ideia certamente assustadora para um ser que depende tanto do próximo: O fato de que tudo formado por aqueles a sua volta, tudo que foi criado e nunca compartilhado, todas as palavras reprimidas ou escondidas no solitário porão do pensamento, tudo desaparecerá caso não seja jogado em um diálogo. Toda uma enciclopédia, dicionário ou livro de história escrito mentalmente ao longo de uma vida, queimados pela força devastadora da morte.
  E mesmo que compartilhemos tudo, haverá sempre uma mudança na informação durante o processo de comunicação. Uma interpretação errada do leitor. Afinal, estamos cada um dentro de nossas próprias bolhas de pensamento, impenetráveis, e por mais perto que nossas bolhas estejam, nunca estaremos juntos em um mesmo lugar. Cada evento presenciado por milhões de espectadores, cria milhões de livros narrados de formas diferentes, com palavras diferentes e interpretações diferentes, que por mais que seja apresentado a um leitor, nunca mostrará cem por cento do que realmente aconteceu. A pergunta fundamental então aparece: O que realmente aconteceu? Se cada acontecimento é diferente dentro de cada um, são todos falsos? São todos reais? Existe alguém que sabe a verdade?
  Palavras como amor, tristeza, felicidade e medo são apenas palavras. Por mais que aprendemos a qual sentimento pessoal cada uma dessas palavras se encaixa, os sentimentos ainda são fundamentalmente pessoais, e nunca serão o mesmo de outra pessoa. Sua dor pode ser o êxtase do seu próximo, e vice-versa. Muitas vezes, apenas a comunicação não é necessária, e para conseguir estabelecer um laço com alguém, é preciso uma conexão, empatia, que não depende apenas de nossa vontade, e sim de uma sincronia entre os furacões dentro da cabeça de cada um. E como apenas nossas pobres ferramentas de fala conseguiriam criar laços sociais entre nós, ferramentas de fala essas que não são suficientes nem para descrever o que sentimos com perfeição?
  Percebe-se então um defeito na organização social humana, já que nossa busca incessante pelo baú do tesouro na cabeça de nossos próximos nunca nos levará à lugar nenhum.
  Talvez devêssemos simplesmente mergulhar em nossos próprios oceanos antes de tentarmos nos afogar no próximo, e assumirmos que somos como cães, pássaros, árvores ou fitoplânctons. Apenas indivíduos. Sem nenhuma necessidade além da nossa.
                                             Theo Vargas

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Minutos

  Os dias já não pareciam os mesmos. Cada momento, cada segundo, tudo demorava. O tempo se arrastava, os minutos ecoavam como dias, os dias ecoavam como séculos. Ela se levantou da cama, e o sentiu. Naquele momento, como em todas as manhãs, tardes e noites nos últimos penosos anos, as horas que ela vivera cobravam seu preço. Seus ossos doíam, sua cabeça estava pesada. Arrastou-se até a cozinha. Curtos e lerdos passos faziam a travessia no interminável caminho, o corredor parecia alongar-se a cada pequeno progresso. Sairia de casa hoje, pensava ela, para uma caminhada. Talvez ligaria para um amigo de infância, voltaria a viver. A água fervera, e ela terminou seu café. Bebeu-o quente. A dor do líquido queimando seus lábios já não a incomodava. Tudo parecia pequeno diante do flagelo do tempo. Todas as sensações eram perdidas, cópias de cópias de cópias... Suas emoções se misturavam, confusas, numa decadente melancolia. Seus olhos estavam constantemente ressecados, sua visão resumia-se em borrões desfigurados, lhe restavam apenas memórias de dias mortos. Memórias defeituosas, memórias corrompidas. Não havia muito para se lembrar, não haviam muitos momentos recordáveis.
  Ela se levantou, e andava agora em passos tremidos, sem rumo pela casa, outrora grandiosa, mas que agora parecia mais uma ruína, uma construção arcaica e abandonada. Metros e metros quadrados que serviam a propósito nenhum se não o de diminuí-la, assustando-a e oprimindo-a. Ela sentia-se menor a cada dia, enterrada pela casa. Pegou o telefone, desses pequenos e sem fio. Caminhou seus passos lentos, encontrando lugar num sofá que já fora luxuoso, mas que agora parecia apenas um sofá acabado, desses que se encontra no lixão. Pedaços rasgados revelavam uma espuma amarela, o estofamento. Ela pegou seu caderno de telefones, nostálgica, e abriu-o. Alguns minutos se passaram numa pausa dolorosa. Quanto mais o tempo passa para alguém, mais tempo essa pessoa demora para entender algumas coisas. Nunca antes tinha reparado, naquele caderno não havia pessoas. Não mais. Havia nomes, apenas nomes e números. Números que não levavam a lugar algum, que não ligavam para lugar algum. Nomes que remetiam a pessoas há muito esquecidas. Esse é o problema. Não importa o quão grandioso se é, uma vez que você sai da vida de alguém pra sempre, não demora muito até que todos se esqueçam de você. É natural. Ela lia nomes, e quanto mais lia, mais difícil era ler o próximo. Sua visão se embaçava com as lágrimas secas que brotavam em seus olhos. Ela vivera tanto, tinha tanto para contar, para discutir, mas nenhum ouvinte. Parou um pouco, o olhar vazio fitando ponto nenhum. Há muito não saía de casa, reparou. Foi ao banheiro, limpou o rosto. O espelho mostrava uma pessoa que ela mesma não reconhecia. Tinha sido tomada de refém pela idade. Sua pele não era mais sua pele. Seus dentes não eram mais seus dentes. Tudo mudara. Balançou a cabeça, afastando aqueles pensamentos que poluíam sua mente, e caminhou, lentamente, até a porta da frente. Olhou pela janela, e não viu ninguém na rua. Morava num bairro afastado, então não era muita surpresa. A luz entrara pela casa, agressiva, invasiva, tomando seu espaço à força. Melancólica, certamente, mas tentando afastar tais sentimentos, abriu a porta. Uma brisa entrou, numa calmaria violenta, arrepiando-a. Não era fria. Pelo contrário, era um dia quente, mas seu corpo sentia o contrário. Quando se é consumido pela idade, tudo parece diferente. Fechou a porta atrás de si, os pés do lado de fora da casa, e andou e andou. De vez em quando, via uma pessoa ou uma família passando na rua, mas nada que fosse merecedor de atenção. Sua vida, de fato, não parecia ter muito mais a oferecer. Cada passo doía, como sempre doeu. Ela não queria ter um destino, mas seus pensamentos há muito já haviam sido corrompidos. Não viu nenhum conhecido na rua. Também nisso não havia muita surpresa. Quando a festa morre, é de se esperar que as pessoas já tenham ido embora. O Sol queimava sua pele, que também já não apresentava tanta resistência assim. Ela se sentiu indignada. Esse é o problema do tempo. Ele não é justo, não é. Ele não afeta a todos do mesmo jeito, não é mesmo? O Sol era o mesmo sempre, afinal. Mas ela, não. Ela estava mais velha. Com menos fôlego, mais perto do fim. Talvez ela esteja mais feliz do que o Sol, entretanto. Ela deu a volta para retornar à sua casa. O Sol não morreria tão cedo, e talvez isso o deixasse mal. Poucas são as vezes que pensamos como o Sol se sente. Talvez ele não seja nem um pouco feliz, mas isso não importa. Nunca importa. Ela andava, sem pensar, para casa, no piloto automático. O problema, pensou ela, é que ela nunca viveu do jeito certo. Aos caminhos sinuosos da vida ela nunca deu muito atenção. Criou seu próprio caminho, reto e monótono. O problema de escolher o caminho reto é que você perde muito do trajeto e, no final, acaba chegando mais cedo. Chegar mais cedo não é uma vitória...
  Ela chegou em casa e abriu a porta. Olhou para o relógio e viu que era hora dos seus remédios. Sua melancolia se transformara numa determinação estranha e numa alegria sem sentido. Ela se sentia liberta. Às vezes é melhor não pensar muito nas coisas. Ela abriu o armário e pegou comprimidos e comprimidos. Mais do que ela conseguia carregar. Pegou um copo e encheu-o. Passou pela porta do quarto e pelo interruptor da luz, que estava ainda acesa. Sentou-se na cama, tomou comprimido após comprimido. Compilados de coisas, como são estranhos os comprimidos! Deitou-se e esperou. Minutos se passaram, e uma breve sensação de enjoo deu lugar à uma paz interminável. Programada, automática e inevitável, a luz se apagou. O próximo dia amanheceu como todos os dias sempre amanhecem: iguais.
                       Felipe Valverde

quinta-feira, 8 de junho de 2017

O Próximo Século

  O vento calmo provocado pelo movimento dos carros vibra em meu rosto, enquanto espero pela minha carona. Alguns minutos se passam e eu consigo já ver o motorista no início da avenida. Ele se aproxima e pergunta meu nome. Confirmo, e entro no carro enquanto preparo meu rosto amistoso, pronto para 15 minutos de uma entediante conversa de mentirinha. Guio-o por entre as decadentes ruas que se escondem nos confins do bairro. Esse tipo de lugar me conforta um pouco. Não consigo explicar bem o porquê, mas sinto que as essas ruas se escondem das pessoas, também, e vivem consigo mesmas até, inevitavelmente, terem que aturar um ou outro hostil viajante passando para lá, para cá, buscando seus sonhos. Aquele motorista não era exatamente simpático, e me assustava um pouco. Não que fosse ranzinza ou algo do tipo. Ele conversava, fazia comentários genéricos e eu conseguia ouvir o som de sua risada, mas em todas as vezes que olhei para seu rosto, vi apenas a mesma expressão. Neutra, calma. Novamente, não consigo defini-la como morta. Apenas não era triste, não era feliz, não mudava. Eu sentia como se estivesse falando com uma cápsula. Alguém lá dentro conversava comigo, dava os comandos, enquanto um corpo inerte o comportava, coluna curvada para aproximar o rosto do para-brisa, as duas mãos na parte superior do volante, e um rosto tão neutro que chegava a arrepiar. Enfim, depois de alguns minutos, cheguei em casa. Passei pela portaria e chamei o elevador. Vi-o subir, descer, fazendo paradas, e escutei vozes vindas dele. Eu realmente não estava com vontade de ver qualquer vizinho. Não é como se eu não gostasse deles. É que... não. É isso mesmo. Eu não gostava deles, não tinha prazer nenhum em falar com qualquer um deles e alguns me enjoavam um pouco. Abri as portas corta-fogo das escadas e vi, lá dentro, um escuro profundo. Subi-as. O costume de evitar vizinhos era tão intenso que a falta de luzes inicial daquele ambiente não fez a menor diferença. Passo após passo, em alguns momentos eu me encontrava parado, de frente para a porta de casa. Entrei, tranquei a porta com 2 giros na chave. Não que fizesse diferença. Estava em casa.
  Ao chegar na sala, desabei. Meu cansaço psicológico finalmente atingiu meu corpo. Essas duas coisas estão sempre muito conectadas, mas nem sempre se comunicam tão eficientemente quanto se esperaria. De repente, dei-me conta. Todos os meus pensamentos tornaram-se tão fluídos. Um estranho conforto me abraçou, um conforto que não era familiar em casa. Por algum tempo, eu vinha me sentindo vazio. Sem espaço no mundo. Na verdade, não é como se não tivesse espaço para mim no mundo. É como se tivesse, sim, na minha frente. Mas eu simplesmente não me levantava para ocupar aquele lugar. Me sentia impotente, pequeno. Sentia que o mundo não queria se abrir comigo. Sentia, cada vez mais, a esperança se esvair. Mas devido a alguma ironia do destino ou favor divino, desabei no mais perfeito dos lugares. Os discos de vinil ao meu redor pareciam uma cama, e era a cama mais confortável da minha vida. A arte sempre foi um refúgio incrível. Toda a felicidade que eu não encontrava nas mazelas da vida, a arte me concedia. Os abraços que eu não recebia, o Momentary Lapse of Reason me entregava. Os elogios que eu não ouvia, o Medazzaland me concedia. Mesmo as lágrimas que eu não chorava, o Kid A libertava. E em meio ao amor que emanava daquele ambiente, eu tinha a liberdade, ou melhor, o ímpeto de pensar sobre a minha vida. Todas as fases distópicas que surgiram nos últimos tempos? Toda a angústia qur eu vivi e que vivo diariamente? É óbvio, depois que se pensa um pouco: essas coisas não são evitáveis. Uma hora ou outra, todos enfrentarão um mar de desastres. E talvez nem sempre haverá um porto seguro, alguém ou algo com o poder de te desconectar do caos. Então, aprendi a aceitá-lo. Uma visão de mundo é só uma visão de mundo até o momento em que pode te salvar ou te destruir. É desejável que salve, eu imagino. Se os dias parecerem cair através de você... bom, deixe-os ir. Dance, se quiser dançar. Cante, se quiser cantar. Afinal, somos todos apenas partes do plano mestre...
                                    Felipe Valverde

De dentro do condomínio

Pensamentos estranhos se fazem vivos Pensamentos que nos vigiam, que nos instigam Que parece sempre vindos De uma mente vazia De uma men...