Não sei ao certo, mas era próximo do meio-dia. Dentro da minha casa, um movimento incomum tomava lugar, enquanto parentes, amigos e conhecidos da família caminhavam de lá pra cá, estressados e frenéticos. Eu, às vezes, sonho com uma família feliz. Algo sem complicações, sem dramas e sem falhas. Devaneios utópicos de uma cabeça desocupada, que de mim tomam conta e se escondem nos sombrios e iluminados cantos do universo que se desenrola, liberto, em minha mente. Mas, em momentos como o descrito, tenho completa ciência das desvantagens da perfeição. É doloroso, quase que fisicamente doloroso: todo um dia de reações e emoções de plástico. O ápice da decadência social humana. Uma indústria de corações partidos com outdoors de felicidade.
Enfim, todo esse alvoroço se dava pela ocasião inusitada que era iminente: um casamento na família. Algum primo, há muito distante, encontrara o par perfeito, e convidara toda a família que ele mesmo havia abandonado. Par perfeito. Como se fosse assim que funcionasse. As pessoas tendem a pensar que é desse jeito que a banda toca. Que existe uma combinação única e especial, aguardando-as. O erro está em dois lugares. Primeiro, está em pensar que existe a outra metade da laranja. Conversa fiada! Somos todos frutas diferentes. A mesma matéria orgânica, decerto, mas frutas diferentes. O outro erro, significativamente mais grave, está em pensar que temos que procurar nosso igual. Eu teria ânsia de vômito se tivesse que conviver com um clone meu pelo resto da vida. O mais encantador nesse mundo é aquilo que não conhecemos. O surpreendente, não o rotineiro. Bom, a família feliz estava terminando de se organizar para o tal casamento, perto das duas da tarde. O casamento era às cinco, mas o noivo tinha escolhido, para a cerimônia, uma chácara afastada da cidade. Decisão que eu não só respeito, como admiro. A festa acabaria de noite, e o céu do campo à noite é encantador. Eu vestia meu terno e nos preparávamos para sair. Roupas sociais são uma besteira, mas isso, por si só, não era muito incômodo.
Começamos a nos organizar nos carros, e saímos em tempos diferentes. Não era possível ver os outros carros de onde eu estava. A viagem durou algum tempo. Eu não gosto muito de entrar no carro para viajar, mas depois que a viagem começou, até que eu gosto. Me acalma, me distrai. The Growlers fez a trilha sonora do caminho. Alguns vários minutos depois, chegamos à cerimônia. Descemos do carro, e começou uma tediosa sessão de cumprimentos a pessoas que nunca me fizeram falta na vida. Um nojo profundo tomou conta de mim. Náusea. Essa mania do ser humano de tentar parecer agradável para pessoas que não se importam com ele me deixa nervoso. Leis artificiais de um suspeito convívio social corrompido. Um manual ilegítimo de etiqueta, regendo vidas, oprimindo emoções. Leis não escritas para engrenagens iletradas. No fim, é isso que somos: um bando de ovelhas seguindo pastores de mentira, espantalhos. E aqueles que ousam sair da condição de ovelha, continuam presos em amarras doentes. O sistema é implacável, afinal. Quem não é ovelha, se perde em sua própria loucura. Capitães sem navios e chefes sem tribos.
De tempos em tempos me pergunto que bem me faz pensar tanto, criticar tanto, questionar tanto, me importar tanto. Me pergunto se uma alegria ignorante seria melhor, mais simples e mais recompensadora do que uma liberdade plena. De que adianta eu me enfesar tanto com tudo, se nada mudo? Por certo tais insatisfações com o mundo só não me tomam por inteiro pois uma indignação ainda maior pisoteia pensamentos prévios a ela. Em grandes ou pequenas escalas, felicidade artificial é a perdição da humanidade. Nunca seremos o que almejamos ser, o que pensamos ser, se nos contentarmos com tamanha mediocridade. Não chegaremos a lugar nenhum obedecendo ordens. Avanço, engrandecimento, expansão da mente: sinônimos de rebeldia. De liberdade, pura e simples, potente e fatal. No final de tudo, não existe contentamento verdadeiro em ser mais uma peça no organismo poluidor da humanidade. E poluidor, eu digo, em mais de um sentido. Na verdade, em todos os sentidos que sou capaz de imaginar. Evoluímos e evoluímos até chegarmos em nossa mais imperfeita forma. Comandantes que pensam ter poder e comandados que pensam não o ter. A cerimônia durou tediosas horas. Mas, no final, não me senti indignado com aquelas pessoas. Que culpa têm? Apenas tentam ser felizes. Desesperadamente, buscam conforto umas nas outras, apoio para que possam continuar sobrevivendo, mesmo na anestesia do sistema. Ou melhor, buscamos. Não me excluo desse grupo. Por mais que eu busque me libertar, o sistema é, de fato, implacável. Não se abandona o sistema, simplesmente. Primeiro, é necessário tirá-lo da nossa mente, para depois pensar no próximo passo. Mais horas de viagem, e agora estou no quarto. Novamente decadente, sem a adorável família para fazer companhia. Algumas horas, apenas, usando as fantasias de "gente comum". Gente que gosta de gente, de toda a gente. Mas no final, nenhum de nós é comum. Não, uma alegria ignorante não é nada boa. E por isso busco sempre me expandir. Mente aberta para tudo que vier. Aprender, aprender. Não somente na escola. Em todo lugar, observando-se da forma correta, aprendemos. E o conhecimento do mundo é essencial, de fato. Não queremos ser mais uma Laranja Mecânica. Afinal, é quase como se dizia:
Mente vazia, oficina do Estado...
Felipe Valverde