Pensamentos estranhos se fazem vivos
Pensamentos que nos vigiam, que nos instigam
Que parece sempre vindos
De uma mente vazia
De uma mente deturpada, tóxica e corrosiva
De pensadores subversivos, de demônios escondidos
É obvia a intenção tão maldita
Tão intrinsecamente maléfica e invasiva
Aquela mesma que quer tomar nossas vidas
Fazer-nos de escravos e ceifar nossos filhos
É essa a intenção que ameaça nossas rotinas
Que nenhuma honra faz à Palavra
Que se apoia em balbúrdias e em baladas
E nada é demais na batalha contra essa bruxaria repulsiva
Contra o fogo que luta ao lado de heréticos apocalípticos
Mesmo que pra isso seja preciso
Um caixão fechado com 17 pregos e 80 tiros
Brainstorm in a teacup
Toda opinião é relevante e deve ser compartilhada.
terça-feira, 14 de maio de 2019
De dentro do condomínio
sábado, 28 de julho de 2018
Você
Eu acordo, como em vários outros dias, me fazendo essa mesma pergunta. Não a dedico a mim mesmo, dedico a você. Será que ainda temos essa sintonia? Por acaso você também acorda pensando nisso? Será que você ainda ouve algo que eu digo? Eu ainda tenho essa importância de fazer parar o mundo, de fazer rodar o filme que daria origem a tudo aquilo que nunca será? Eu ainda sou o sabor que ficou após sua tão horrível partida, suas férias do mundo, longas como a própria morte? Eu ainda atraio lágrimas e sorrisos, como se os dois se completassem desde a origem dos tempos, ou agora sou só mais uma sombra que vaga sem destino ou esperança nos mais esquecidos labirintos da sua mente? Será que você ainda se lembra de como é minha voz? Eu me lembro de uma vez ter dito que acreditava em você. Não nas suas palavras, não. Em você. E então, você ainda acredita nisso? Ah, acho que não. Não digo em tom irônico ou de deboche. Nada desse tipo. O meu problema é achar que tão cedo na vida poderia ter tomado de um remédio tão efetivo e tão mortífero. Esse é o verdadeiro problema, o maior dos dilemas que permeou essa passagem, essa história. E pensar que em uma viagem, algumas palavras e um final tão trágico, uma canção tão profunda se diluiu no eco de um batimento cardíaco descompassado e intenso. Na verdade, dois batimentos. Mas ainda descompassados, nunca no mesmo ritmo. Isso é, mesmo assim, uma beleza. A imprevisível natureza do que vai acontecer amanhã. Mas o dia de hoje é um dia de descanso, talvez congelado para sempre no nascer da lua. Num céu dividido em duas metades que não se aceitam, mas todos os dias devem conviver uma com a outra. Talvez essa seja a maior ironia de todas. Se eu ainda acredito em você? Não sei. Não tenho certeza de que vejo você, talvez seja minha imaginação. Uma mente fértil onde nasceu uma flor de cores intensas, mas muito frágil. Tão delicada que não cresceria em nenhum outro terreno, e não suportaria qualquer outro clima. Essa é a punição de toda uma vida, uma piada de mau-gosto do mundo com nós dois. O fato, no caso, é que talvez não exista uma só coisa que conspire a nosso favor.
Mesmo assim, talvez existam coisas que não morrem, que não podem ser extintas. Quem sabe não é nossa a sorte de que algum ser superior nos dê esse privilégio? Talvez você se deite na cama e tudo aquilo que um dia foi a mais incontestável verdade volte a ser um decreto. Talvez o mistério que persiste em ti seja apenas fruto de uma fé oculta esperando a hora. Talvez você ainda pense em mim quando ouve notícias boas, como eu penso em você. Acho que pode haver um certo tipo de diversão no meio de tudo isso, uma história de infância. Algo que possa ser guardado, como qualquer outra coisa que eu já tenha te dado. Sim, acho que, por mais desconsertada que essa história pareça, sempre existe uma linha que, mesmo sendo suspeita, antiga, nova, ou seja o que for, pode servir como amarra. Afinal, o que é que há de importante senão os laços? Não sei como é que estão as coisas agora, e nem acho que exista um bom fim pra essa história, mas queria que você pudesse ler tudo que eu disse. Que pudesse ver tudo que eu vivi. Que pudesse saber tudo que eu fiz e viver tudo que eu conquistei. Mas você não pode, não é mesmo? Outro algo ou alguém, quem sabe? Mas não você.
Onde Fica Minha História?
É isso que me incomoda, sabe? Eu não sei ao certo até onde o espírito humano se extende. Não falo de espírito como algo religioso ou qualquer coisa assim. Digo de maneira filosófica. Talvez esse próprio texto seja, de uma maneira metalinguística, um exemplo do que eu estou querendo dizer. É sobre o desconhecer desse limite que eu me referia no início do texto, e olha só quanta coisa eu disse desde então, só para introduzir. A consciência me encanta de uma maneira que poucas coisas o fazem. Somos tão pequenos diante do mundo, tão insignificantes, e, mesmo assim, cabem dezenas de mundos dentro de nossas cabeças. Qual é o limite disso? Digo, o quanto eu posso me expandir, por meio de tudo aquilo que permite que eu me expresse, para além do meu próprio limite? Existe algum ponto no qual eu poderia ofuscar outras pessoas? Ou será que é a própria vontade dessas outras pessoas que regula o tamanho da minha influência? Se o poder do espírito de uma pessoa é, ao mesmo tempo, a alegria e a monotonia do mundo para essa pessoa, onde está o limite entre um e outro?
Não sei. E não saber é parte desse espírito. O que sei é que reconhecer isso me faz realmente feliz, e não acho que isso tenha que mudar. Pode até parecer mais do mesmo, essa história da bênção da ignorância, do saber que nada sei. Mas é, de fato, algo muito bonito. Eu não sei, e sei que ninguém sabe. Assim, a consciência humana e o propósito do mundo tornam-se, apenas, histórias. A vida não tem resposta. O universo, provavelmente, também não. Então eu vou fazer o que cabe à consciência fazer. Não é definir o mundo. É contar, da maneira que eu achar mais incrível, o que é o mundo pra mim. O que eu quero é encantar as pessoas que ouvirem essa minha história, porque assim eu sei que elas vão criar histórias ainda mais encantadoras. É aqui que eu vejo propósito em tudo isso. Nas fantasias da minha mente eu quero deixar para as pessoas o meu legado.
quinta-feira, 26 de julho de 2018
Liberdade
Não sei bem como é que eu poderia esperar algo diferente. Dia após dia, esse tipo de coisa sempre acaba se repetindo, se reconstruindo dentro de tudo aquilo em que eu acredito. Não é mais um abalo ou um deslize de uma vida perfeita. Não, o problema é que, invariavelmente, as coisas ruins sempre acabam se acumulando, fortalecendo umas às outras, enquanto as maravilhas parecem não gostar muito da convivência. O espírito humano, naturalmente, percebe o mundo segundo essa lógica, o que, no final, acaba por nos encurralar. Ficamos acorrentados numa cela que não conseguimos escapar, apesar de possuirmos a chave. Isso é algo que eu, inclusive, acho muito interessante. Talvez até cômico. É uma triste piada. Mesmo se soubermos como abrir a porta e sair, ficamos sempre inertes, deitados e brincando com a chave que abre a cela. Mas não demora muito para lamentarmos essa situação. Basta alguém passar do lado de fora da cela, e todo esse espírito muda. Alguns têm ódio pelos que saíram de sua prisão. Outros, inveja. Mais raramente, mostram orgulho, mas isso é um pouco utópico. A questão é que, instintivamente, temos repulsa pelo som que os passos dessas pessoas fazem fora da cela. Felizmente (será?), essa repulsa demora muito pouco. Logo, aqueles que se libertaram estarão a quilômetros de distância da prisão, e o único jeito de saber o que aconteceu com eles é conversando com os carcereiros, que nem sempre falam a verdade. E sabemos disso, todos os outros presos sabem disso e lhe dizem isso. Mas, na nossa cabeça, não temos escolha senão ouví-los. Eu não sei bem como é o mundo lá fora. Talvez seja melhor. Olhando pela minúscula janela da cela, parece bonito. Mas dizem que não há comida servida como aqui, não há cama garantida, e que existem vários perigos. De qualquer maneira, também não sei o quão longe estou de fazer o que vários outros fizeram e trocar a chave por alguns cigarros. Talvez isso me mate mais rápido, talvez faça o tempo passar mais rápido, talvez me permita sentir algo diferente. O que eu sei é que as pessoas, quase sempre, são as únicas que decidem o que as prende e o que as liberta. E saber disso não faz muita diferença, pois continuamos nos segurando dentro de uma fortaleza impenetrável. As pessoas lá fora, não importa o que digam, não conseguem e nem têm interesse em libertar quem está aqui dentro. É até bem curioso, parando pra pensar. Mas não quero pensar nisso agora. Hoje é dia do banho de Sol. Não vou ser o idiota que vai perder isso.
segunda-feira, 16 de abril de 2018
Você é a Melhor Montanha-Russa Na Qual Eu Já Estive Amarrado Nos Trilhos
O universo observável troca de pele e vira ao avesso. Tudo o que me resta nesse circo de horrores é vomitar meu coração em minhas mãos, envolto em um papel de presente colorido e amarrado com um nó de marinheiro, dentro de um cofre de banco que só você sabe a senha. Me encontro totalmente rendido ao frio mágico de sua língua, capaz de congelar minhas lágrimas antes mesmo que içem as velas no canal lacrimal. Assim, soltam-se dos meus globos oculares como bolhas de sabão, flutuando até o quarto mais escuro da sua alma. Mas, ah, é um lugar tão frio! Suas palavras montam guilhotinas (sem precisar de nenhum tipo de manual de instrução) e, entediada, você chupa o sangue da minha artéria Aorta mordiscando a ponta como um canudo dobrável de milkshake. As ondas nos seus olhos quebram minha concentração o tempo inteiro como trovões de ferro, nunca me permitindo terminar essa equação. Seu simples olhar conjura formigas vermelhas no meu estômago. E quando estou desperto, por volta da mesma hora, em uma segunda-feira qualquer, encruzilhado entre rifles que atiram realidade, penso na saudade que sinto do sono, e as armas se tornam flores ferozes. O mundo lúcido se metamorfoseia em pesadelo, e o mínimo que posso lhe dizer é que essa é a melhor montanha-russa na qual eu já estive amarrado nos trilhos.
quarta-feira, 4 de abril de 2018
Assim Como o Céu Faz Todos Os Dias No Entardecer
As cinco badaladas que ressoavam da torre tiraram o jovem fazendeiro de um estado hipnótico. Ficava daquele mesmo jeito todos os dias, àquela mesma hora, no cemitério, desde que ficou viúvo. Depositou uma pequena e delicada flor amarela em cima do túmulo frio de sua esposa, e enxugou as lágimas com a manga da camisa ao perceber a presença de mais alguém no campo-santo. Não percebera de imediato, mas se assustara com o barulho metálico do sino. Alguns segundos antes das badaladas, ainda estava submerso no passado. Viajava nas lembranças mais restritas e particulares que tinha de sua mulher, que recentemente falecera, e o barulho o tirara de forma violenta do transe, como se tivesse sido acordado, por berros, de um sono profundo. O Sol poente deixava o céu com um tom sanguinário, que, acima das terras douradas da América Espanhola, fazia aquelas brutais pradarias parecerem o paraíso. O homem mal precisou levantar seu chapéu de vaqueiro para tentar decifrar a silhueta de sua companhia contra o pôr do sol, quando a identificou pela sombra projetada no chão. Avistou um velho calvo e corcunda, com vestes escuras esfarrapadas e um nariz pontudo. Alguém menos atencioso acharia que suas mãos magras e trêmulas logo largariam a pesada pá de metal que segurava, mas o viúvo sabia que carregar aquela ferramenta era, com certeza, o trabalho que o velho mais estava acostumado a fazer. Ele reconhecia quando alguém estava habituado com um trabalho há muito tempo, afinal, era fazendeiro desde que nascera. Os dois homens se encararam por alguns instantes, até que o idoso apontou para cima e resmungou com o canto da boca:
— É engraçado. O Sol corre no azul frio ao longo de todo o dia, mas só decide tingir o céu de vermelho quando percebe que seu tempo na abóbada celeste está acabando. — O velho soltou uma risada ligeiramente doentia por entre seus dentes tortos. — É como um palhaço que decide contar sua melhor piada segundos antes de ser expulso do palco.
O fazendeiro sorriu e comentou:
— E o desgraçado ainda faz isso todos os dias.
— Não por muito tempo, vaqueiro. — O corcunda transformou seu semblante em uma carranca fantasmagoricamente séria, que sob a luz avermelhada do Sol poente aparentou ser mais infernal ainda. — Ficou sabendo do que aconteceu em um vilarejo aqui perto? Uma jovem deu a luz ao próprio Diabo... É o fim dos tempos. Da maneira que as coisas estão acontecendo, em pouco tempo até mesmo o Sol vai ter medo de acordar.
— Você não me parece o tipo que tem medo do fim do mundo. Nunca imaginaria que um coveiro teria medo de morrer. — Respondeu o fazendeiro.
— Provavelmente tenho mais medo que você. Ninguém com medo da morte andaria com um ferro desses no coldre. — E apontou seu dedo magro e sujo de terra para o revólver na cintura do fazendeiro. — Mas vejo que pelo menos você respeita os mortos, pelo contrário não estaria aqui.
— Respeito os mortos, mas isso não significa que eu queira me juntar a eles...
— Você é um sujeito engraçado. Eu normalmente não simpatizo com os vivos que vêm aqui. São sempre velhos amargos, pessoas extremamente abaladas pela vida, que caminham por entre essas lápides como se estivessem escolhendo onde vão descansar quando chegar a hora deles. Mas você ainda é jovem e cheio de vida. Ainda possui a energia celestial que trazemos do útero de nossas mães.
— Discordo de você... — Contrariou o mais jovem.
— Acha que já perdeu a luz da vida?
— É mais complicado que isso... Percebo que você pensa que sabe alguma coisa sobre a vida e a morte, mas acredite senhor — o jovem suspirou e olhou friamente para o coveiro — há anos trabalho em fazendas de gado, e já presenciei centenas de bezerros vindo para esse mundo, assim como já matei animais velhos e doentes. Posso te garantir que o momento do nascimento é a cena mais bestial e selvagem que um ser vivo pode presenciar, muito pior do que a morte. Já esteve em um parto?
— Além do meu? — Disse o coveiro — Na realidade não. Mas me interessei por sua teoria. Gostaria de entrar e tomar uísque? Tenho uma garrafa, e há muito tempo que não tenho a companhia de alguém.
O fazendeiro assentiu, e seguiu o velho corcunda em direção à pequena construção de pedra a poucos metros do cemitério. Os dois homens caminharam, sob a intensa luz vermelha irradiada pelo horizonte, por entre as lápides. A relva amarelada em volta do cemitério tremulava como fogo, dando uma aparência apocalíptica para a paisagem abrasadora do deserto mexicano. Entraram na pequena casa de pedra, composta de apenas um cômodo, habitada pelo coveiro. Se não fosse uma fraca chama em uma lareira no canto do aposento, a única fonte de luz da casa seria um faixo de luz escarlate, que entrava pela pequena e solitária janela acima de uma velha mesa de madeira. Entulhos empoeirados estavam jogados por todo lugar, e uma coleção de crucifixos enferrujados se erguia de forma poderosa na parede acima de uma precária cama de palha. O velho, que agora debaixo de uma luz mais fraca mostrava ter um rosto pálido e olheiras escuras, puxou a única cadeira do aposento e disse para seu convidado se sentar. Enquanto o fazendeiro se acomodava, o coveiro abriu um armário e pegou uma imensa garrafa de uísque caseiro com uma mão, e dois copos sujos com a outra. Sentou-se em uma caixa e serviu seu convidado, que tomou a bebida e disse:
— O que foi mesmo que você falou lá fora? Sobre uma mulher ter parido o Diabo?
O fazendeiro logo se arrependeu de ter tocado no assunto. Percebeu que perguntara sem pensar, apenas para render conversa e quebrar o clima sombrio do quarto, mas que agora havia entrado em um tema perigoso. O coveiro levantou as sobrancelhas, e abriu a boca com uma expressão de terror absoluto, como se tivesse ouvido a própria voz do Diabo. Com sua voz rouca e cavernosa disse, quase sussurrando, como se estivesse com medo de mais alguém ouvir:
— Você não tem ouvido as histórias? Todo o vilarejo tem falado disso... Alguns quilômetros mais distantes daqui, atrás daquela montanha rochosa a oeste, mora uma jovem de pouco mais de dezesseis anos que compactua com poderes malignos... Ninguém sabe de onde veio, nem o porquê de ter escolhido essa região miserável para perturbar, mas há poucos dias um comerciante veio correndo para a igreja, dizendo que a moça estava prestes a dar a luz, e precisava de uma parteira. Naturalmente o padre foi junto... Mas nem mesmo seu dom santificado foi suficiente para conter a Besta. Do ventre da garota saiu uma criatura aterrorizante, com pele escamosa, chifres, olhos amarelos cadavéricos e labaredas saindo das narinas. — Fez uma pausa para tomar um pouco mais da bebida, e serviu ao convidado. — A maldita cria do Diabo matou não só a mãe, mas também o padre e até mesmo a pobre parteira. Transformou o milagre do nascimento em um banho de sangue, com suas garras afiadas como facas.
O jovem fazendeiro expressou um sorriso cético e indagou:
— Se todos que estavam presentes foram assassinados, como sabem quem matou? E como sabem a aparência da criatura? Me desculpe senhor, mas de todos os boatos mentirosos que eu já ouvi contarem nesse vilarejo, esse foi o mais desonesto.
— Ah, garoto! Você é esperto... Mas dezenas de pessoas já avistaram a criatura depois do massacre. — Retrucou o velho, com um tom agressivo. —Dizem que ela se espreita pelo mato alto e ataca seus calcanhares antes que você consiga fugir... E mesmo que consiga correr, o Bebê Diabo é mais veloz. Ele corre mais rápido do que um cavalo, ninguém foi capaz de sequer se aproximar...
O fazendeiro teve sua atenção tomada por uma curiosidade mórbida de saber onde a criatura se escondia. Não ouviu o que o coveiro lhe contou após isso, mas sabia que o velho passara talvez uma hora falando da tal besta demoníaca. Enquanto narrava os relatos de avistamento dos camponeses, reenchia os copos rapidamente, nunca os deixando vazios por muito tempo. Os dois homens brindavam de forma quase instantânea e o coveiro continuava a falar. O mais jovem aceitava as doses da bebida inconscientemente, com os olhos fixos em direção à janela. pensava na possibilidade do Diabo estar logo ali do lado de fora, naquele terreno macabro do cemitério. A criatura pequena, do tamanho de um recém-nascido, com patas de bode e dentes e garras afiados como facas, rosnando como um cachorro e bufando fogo. Imaginava a criatura descrita pelo velho abaixada entre o mato-alto da planície, escondida, agora que escurecia, e o céu se tornava um azul sombrio e o Sol se deitava atrás das montanhas, à distância, na direção do lar da mãe da criatura.
A sala ficou em silêncio assim que o coveiro percebeu que o jovem não estava mais prestando atenção. Encheu mais uma vez os copos e ficou pensativo, enquanto dava pequenos goles no uísque e olhava para o vazio. Respirou fundo e, com a boca fraca e a voz trêmula, disse em tom de confissão:
— Eu já estive em outro parto além do meu.
A afirmação tirou o fazendeiro de seu transe alcoólico assustador, e o fez rapidamente esquecer o pavor inexplicável que a história da criança diabólica lhe provocara. Olhou para o coveiro com seriedade, e o mais velho de volta, com a mesma frieza, e lágrimas escorriam pelo seu rosto pálido e enrugado. Fraco e com o olhar vago o velho disse:
— Era tão pequena... Minha pequena filha... Teria idade para ser mãe se estivesse aqui conosco hoje. Em seus primeiros e únicos instantes nesse mundo eu vi em seus olhos a maior quantidade de vida no planeta. Era tanto amor que nem me lembro do sangue e da brutalidade do nascimento. Aquela criatura tão pequena e sensível... E poucos instantes depois, morta, nas minhas mãos. O pulmão era frágil demais para o ar espesso e grosseiro de nosso mundo. Hoje ela é um pequeno anjo no colo do Criador.
O coveiro limpou as lágrimas com as mãos magras, enquanto o fazendeiro ouvia sua história, sem saber como reagir. O mais velho continuou:
— Sabe, garoto... Quando viemos ao mundo somos tão puros quanto o azul do céu. À medida que entramos em contato com o pecado que já está impregnado nessas terras, nos contaminamos. Aprendemos a ser maus com nossos pais. O dom de cometer um crime não é natural do ser humano. E no momento que nos esquecemos do prazer da inocência que trazemos do ventre, nos envenenamos e ficamos doentes. Envelhecemos. Deixamos o Diabo nos segurar pelas mãos e nos arrastar até o inferno, simplesmente porque aprendemos a fazer isso. Então morremos, e o ódio continua impregnado em nossos filhos. Ele é passado de geração em geração como uma doença.
O jovem suspirou, tonto, franziu o cenho, e disse calmamente:
— Me desculpe senhor, mas serei obrigado a discordar de você. O ser humano é um animal tão selvagem quanto um bezerro, ou um lobo. Nascemos em um banho de sangue, urrando como monstros. Somos todos de certa forma filhos de um pecado... E não é à toa que também passamos nossas vidas todas pensando em voltar pelo local de onde viemos, falando de modo grosseiro. Posso te garantir que trazemos todas nossas más intenções desde o útero. Se recém-nascidos fossem tão angelicais, puros, almas saudáveis sem nenhum sofrimento, chorariam como choram?
— Choram porque ainda são sensível demais. O mal cria uma concha em volta de nós, nosso corpo se acostuma com o gosto do veneno. — Disse o coveiro, fazendo uma careta após falar a palavra "veneno". — Se nascêssemos mal intencionados, imagine como ficaríamos no final da vida... Tão corrompidos que suicidaríamos antes que pudessem nos matar.
— Você não entendeu. O pecado nos protege dos males alheios. É a lei da natureza. E quando o mundo exterior nos condena pelos nossos pecados, aprendemos a não pecar novamente. Voltamos então ao paraíso, quando já estamos sábios o suficiente para entender o segredo do universo. — Deu um grande ênfase no termo “segredo do universo”. — Deus tira nossas vidas só quando estamos preparados para isso.
O fazendeiro já estava bêbado nesse ponto do diálogo tétrico que os homens conduziam, e falava de forma lenta, quase a ponto de se perder no meio da linha de raciocínio. Entretanto, era firme na certeza do que falava, tendo já refletido sobre aquela questão em outras tardes ensolaradas de trabalho. Prosseguiu:
— Aprendemos com nossos erros, e nos santificamos quando percebemos nossa natureza maléfica. É claro que alguns morrem sem ter essa iluminação, mas sofrem em seus momentos derradeiros. É só quando estão derrubados no chão, com as mãos molhadas do próprio sangue, que se arrependem de todos os males que causaram.
O coveiro refletiu por alguns minutos, se levantou, cambaleante, e alimentou o fogo, quase extinto, na lareira. O Sol já não iluminava mais a casa, e as estrelas tentavam brilhar por trás de um lençol de nuvens. O fazendeiro pegou um cigarro de dentro do bolso do casaco, e disse ao anfitrião que ia tomar um ar. O jovem saiu da casa, não mais amedrontado pela lenda do Bebê Diabo, e acendeu o cigarro. Cruzou os braços e olhou em direção ao cemitério. O coveiro seguiu o fazendeiro para fora da casa, e, olhando para cima, tentava procurar a Lua por entre as grandes porções de nuvens que agora tomavam conta do céu.
— Também sinto que minha esposa nunca irradiou tanta vida quanto fez momentos antes de morrer. Acho que fazemos assim como o céu faz todo dia no entardecer. Contamos nossa melhor piada e somos expulsos do palco. — Disse o fazendeiro.
— Percebi que em uma coisa nunca discordamos, garoto. Vivemos no inferno. — O coveiro acrescentou, olhando para o céu.
Os dois estranhos se encontravam perplexos por suas próprias reflexões, cobertos pela escuridão da noite. E por vários minutos os dois homens ficaram ali, sozinhos e em silêncio absoluto, debaixo do céu nublado que escondia as estrelas.
Theo Vargas
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018
ensaio de F. Aldrin n°1 (em D menor)
Porém eu sou ansioso, e gosto de velocidade. Sou a exceção. Não gosto exatamente de chegar rápido onde quer que eu esteja indo, mas sim do sentimento de velocidade em si. De todas as outras palavras que carrego junto de "velocidade", como "liberdade", "controle", e talvez até mesmo "calma". Gosto de pensar na velocidade como algo que eu só me permitiria obter quando não tivesse nenhum destino ou compromisso marcado, em um estado de total ausência de pressa. Só assim a velocidade passa a ser prazerosa. Só aquele que não tem mais nenhum lugar para ir que gosta de correr, e pode colocar todo o peso do corpo em cima do acelerador, tendo 100% de aproveitamento da emoção de estar se locomovendo na velocidade do som. E enfim conseguir voar.
Eu tenho pensado... O que eles querem dizer com "viver tendo o mar como referência"? Se a vida e como caminhar em direção ao litoral, essa expedição exotérica em direção à uma experiência completa de vida, percorrendo praias, grandes porções desérticas que deságuam no oceano, seria correto viver tendo a morte como referência? Localizar-se meramente usando o destino da viagem como norte? Quem foi que disse que é uma boa ideia viajar sem rumo, viver para sempre? E por que nossas mentes não conseguem se livrar da maior mentira da experiência humana, que estar perdido esta diretamente relacionado à liberdade, e assim à velocidade?
Encarar a morte é o verdadeiro jeito de se libertar. Libertar-se da terra, da cidade, da vida, das estradas. Foda-se a terra firme, a verdade está na água salgada. Na água gelada. No afogamento. Enfim deitar-se por cima das ondas, correr livre no oceano pacifico. Levantar vôo, jogar fora seus remos. Abraçar o vento, sonhar com conchas e beijar sereias. Navegar. Talvez morder alguns tubarões.
T.V [aka Fuss Aldrin]
De dentro do condomínio
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