"Eu mudo ao longo do dia. Eu acordo e sou alguém, e quando vou me deitar tenho certeza que já sou outra pessoa. Eu não sei nem quem eu sou na maior parte do tempo. E eu não me importo muito com isso." - Bob Dylan
Talvez eu tivesse perdido minha casca, eu conclui. Pode ser que minha máscara tenha caído, e pela primeira vez eu esteja encarando o verdadeiro eu. Ou na pior das hipóteses, perdi o que tinha atrás dela. Preferi me ater à primeira opção, afinal, como eu posso perder o conteúdo da minha casca, se quando eu a retiro, tudo o que sobra sou eu? Teria eu me perdido? Que besteira. Nem mesmo os náufragos mais distantes da civilização estão totalmente perdidos. Quer dizer, quando se é um náufrago, foram as pessoas que te perderam, e em parte dos casos você talvez também tenha perdido as pessoas. Mas você não pode se perder por completo, já que se você encontra um pedaço de espelho velho enterrado em uma ilha, ou no meio dos destroços de antigas embarcações, ainda encontrará seu eu do espelho ali do outro lado do vidro, lendo sua mente. Mas meu eu do espelho não estava lá. Eu era realmente uma casca vazia, sem uma alma pilotando meu corpo, totalmente perdido e entregue ao mundo físico. Um náufrago indo à loucura. Ao me dar por conta disso, o desespero começou a tomar conta de mim, como óleo quente, preenchendo cada milímetro do meu corpo vazio. Depois se esfriou, e veio o medo como água gelada, paralisando a imagem do espelho com uma expressão de terror absoluto. Mas depois meu cérebro mecânico veio à tona, funcionando como uma máquina à vapor, estalando e soltando a água em forma de fumaça. "Procure-se!", disse ele como um robô.
Em poucos minutos eu já estava seguindo o protocolo, me procurando. Eficiente. Primeiro fui à igreja. Talvez minha alma estivesse lá, buscando a salvação sem ter me contado, antes que fosse tarde demais. Mas eu estava enganado, não cheguei nem perto, e não encontrei absolutamente nada. Tentei o caminho contrário, recorri ao meu diabo de estimação. Aquele pequeno mal necessário que nos persegue inevitavelmente, que vive dentro do bolso do casaco favorito de todos nós. Aquela criatura que leva os homens mais corajosos à igreja, correndo apavorados de seus problemas, em direção ao nada, e que leva os mais covardes ao encontro com seus pesadelos. Mas eu não o encontrava, nem em caixas vazias de remédio, nem no fundo de garrafas de vidro. E cada vez que checava o espelho, via alguém mais distante. E digo "alguém" pois era sempre alguém novo, cada vez mais estranho e diferente do meu antigo amigo no espelho do banheiro. Vi um fazendeiro com medo do oceano, uma peculiar senhora asiática que colecionava tintas, e um flautista obcecado por filmes de velho-oeste. Vi um domador de leões e um artista deprimido. Vi o grupo de pessoas mais estranho do universo, todos eles olhando pra mim, com certa familiaridade. Alguns gostavam de conversar, outros preferiam tentar ler minha mente, como meu antigo companheiro fazia. Alguns obtinham sucesso, outros nem tanto. Alguns ficavam por dias, outros se decepcionavam comigo e sumiam em poucas horas, sem nem dizer adeus ou contar para onde iam. Eles nunca diziam adeus.
Eu estava a ponto de me acostumar com essa variedade de pessoas que me visitava todos os dias. Confesso que em certo ponto se tornou uma bagunça: Duas, três, até cinco pessoas em certa ocasião, apareciam ao mesmo tempo. Discutiam, em um tipo de jogo sem vencedores, qual personalidade era mais interessante, como se quisessem chamar minha atenção. "Eu sei pelo menos dez casas decimais do pi, de cor!" dizia um. "E eu consigo identificar todas as constelações do hemisfério norte!", outro respondia, mais alto. Acho que no fim, o que os fazia ir embora sem se despedir era o fato de que eu nunca dava meu veredito. Nunca conseguia decidir qual amigo de espelho era mais interessante, talvez por um medo de ter que definir um deles para me fazer companhia para sempre. Essa escolha é assustadora, não? Ter que definir alguém que vai passar o resto da sua vida como seu reflexo, é uma decisão que merece meses de estudo. Mas talvez eu tenha demorado demais. Estava começando a fazer amizade com um homem um pouco incomum, que gostava de decorar palavras grandes com significados engraçados do dicionário, quando de repente, sumiu. Não que isso fosse fora do padrão, na verdade já tinha me acostumado. O problema foi o próximo personagem que apareceu no espelho, e nunca mais saiu de lá. Esse novo indivíduo, ao mesmo tempo que tinha todas as manias e esquisitices de todos os outros, sabia tanto, que falava tudo de forma extremamente ansiosa, como se quisesse falar todas as palavras ao mesmo tempo. Não tinha nenhuma ambição, e menos ainda um foco. Quando decidia falar algo, falava por horas, e era impossível de se acompanhar. O mais impressionante era sua semelhança física comigo. Quanto mais eu olhava para ele no espelho, mais parecia que, pela primeira vez na vida, eu estava olhando para meu próprio reflexo. La estava eu, olhando para mim mesmo no espelho.
Theo Vargas
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