quarta-feira, 3 de maio de 2017

OK Computer - A Arte da Melancolia



 Na década de 1980, surgia, no Reino Unido, um movimento artístico denominado BritPop. O termo se referia à música popular britânica, e englobava vários estilos diferentes de música. Mais especificamente, o termo era aplicado às bandas de rock'n'roll, que, apesar de possuírem músicas e estilos completamente diferentes entre si, eram identificadas pelo mesmo termo. O Radiohead, em 1993, havia feito sucesso com o famoso single "Creep", parte também de seu primeiro álbum de estúdio, o Pablo Honey. Dois anos depois, com o lançamento do disco The Bends, a banda se via cercada de ainda mais sucesso e ótimas colocações nas paradas da Inglaterra. Uma interessante base de fãs já havia se formado, mas os dois álbuns pareciam muito normais. Apesar de lotados de músicas excelentes, eles seguiam um padrão já existente. As músicas eram muito convencionais. A banda não se via no movimento Grunge, mas também não se enxergava no BritPop. Para vários, era vista como um estranho meio do caminho entre os dois estilos que dominavam o Reino Unido na época. Na década de 90, Blur e Oasis seguiam como as potências artísticas do país, e suas composições se encaixavam também nesse padrão convencional. Com exceção, talvez, de The Universal, do Blur, ambas as bandas possuíam músicas bem lineares e "certinhas". Oasis, especialmente, apresentava muita influência dos Beatles, por exemplo, e essa influência era clara nas obras da banda. Todo esse conformismo na música coincidia com o início de uma nova era no mundo. A tecnologia se difundia cada vez mais. Nos EUA, os yuppies tornavam-se modelos de um novo estilo de vida que dominaria a nação. Dia após dia, a influência dos avanços tecno-científicos na vida das pessoas crescia, e suas consequências tornavam-se mais aparentes.

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Damon Albarn, do Blur, e Noel Gallagher, do Oasis
  Em 1996, Radiohead começava a produzir seu próximo álbum de estúdio. Com a ajuda de Nigel Godrich, um produtor musical que havia ajudado-os na produção do The Bends, a banda compunha e produzia o início do que viria a ser OK Computer. Parlophone Records, a gravadora da banda, concedeu 100.000 libras à banda e não cobrou prazo de entrega do álbum. Com calma, Thom Yorke, Jonny Greenwood, Colin Greenwood, Ed O'Brien e Phil Selway passaram meses tentando criar algo novo para a banda. Algo que não fosse apenas o "novo The Bends". Mas a produtividade era pequena. Cada membro desenvolvia sua parte da canção livremente e criticavam-se abertamente, o que tornava aquele trabalho algo muito estressante. A participação de Nigel Godrich intermediando as discussões do grupo a respeito das produções musicais facilitava o trabalho, e tudo fluía melhor. A ideia inicial do que o disco viria a ser formou-se na música Exit Music (For a Film). Então, numa histórica mansão na Inglaterra, a St Catherine's Court, o grupo unia-se com o intuito de finalizar o álbum. A mixagem havia durado mais de dois meses, já que Nigel trabalhava em apenas uma música por dia. Depois de pouco mais de um ano de trabalho duro, o disco seria lançado em 21 de maio de 1997.
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OK Computer cover art
  O álbum foi aclamado pelo público e pela crítica. Destacava-se a brusca mudança na sonoridade da banda. Radiohead tinha, finalmente, se emancipado tanto do Grunge quanto do Britpop, e iniciava um estilo diferente, único. O álbum era mais artístico, menos comercial. A visão a cerca do mundo exterior era muito evidente nas composições de OK Computer, diferentemente de The Bends, que apresentava letras mais introspectivas. A obra faz referências à influência da tecnologia e o cotidiano, os sentimentos e os pensamentos do humano nesse final de século, entrando no que se tornaria esse mundo completamente interconectado e dependente da tecnologia como o é hoje. O álbum foi para a primeira colocação nas paradas da Inglaterra e, apesar da fraca recepção nos EUA - ficando apenas em número 21 -, em nove meses o álbum havia vendido quase dez milhões de cópias no mundo todo. É considerado até hoje, por muitos críticos, um dos melhores álbuns musicais já produzido.

  A capa do álbum é uma montagem gerada por computador de imagens e textos, criada pelo vocalista Thom Yorke e Stanley Donwood, que ajudava a banda a criar as artes dos álbuns. O nome, OK Computer, era o título original da música Palo Alto, que acabou se tornando uma B-Side. A banda dizia que aquele título estava preso a eles. Segundo Jonny Greenwood: "Ele tinha se ligado a nós, e criava todas essas estranhas ressonâncias com o que tentávamos fazer". Segundo Yorke, o título se referia a aceitar o futuro, a temer o futuro, a temer o nosso futuro e o de todas as outras pessoas. Além disso, a frase "Ok, computer, I want full manual control now" aparece no Guia do Mochileiro das Galáxias no capítulo anterior ao qual Marvin, um robô mórbido e depressivo, é descrito como um "Paranoid Android", título da segunda música do álbum.
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Radiohead
                               
  O disco se inicia com a faixa "Airbag". Um solo de guitarra distorcido inicia a música, e alguns barulhos digitais podem ser escutados por detrás das notas. Então entra a bateria, e logo em seguida a voz aparece. A letra da música fala sobre o valor da vida, recém-descoberto pelo eu-lírico, após sobreviver a um acidente de carro. Também vale notar que a personagem referencia a tecnologia sendo tanto a causa de seu acidente (as faixas de neon, o caminhão que o atinge) quanto a causa de sua salvação (o airbag que salvou sua vida). O sentimento de estar vivo era tão maravilhoso, como se nota pela bela voz de Yorke, que manifesta:
"In an interstellar burst
 I am back to save the universe"
  Logo em seguida, alguns barulhos eletrônicos anunciam o início da obra-prima do álbum: Paranoid Android. Na minha opinião, a música fala sobre a impossibilidade de se viver em paz no mundo. Podemos assumir que o eu-lírico da canção é um "paranoid android", isto é, alguém construído e moldado mas que, ao mesmo tempo, luta contra esse molde, estando num estado de paranoia. A canção se inicia com instrumentos acústicos mesclando-se à elétricos. Yorke, então, num tom de voz notavelmente mais melancólico que na canção anterior, pede:
"Please could you stop the noise?
 I'm trying to get some rest
 From all the unborn chicken voices in my head"
  O protagonista pede, simplesmente, um descanso de todo aquele incessante barulho que o incomoda profundamente, as "vozes de galinha". Possivelmente, ele fala com a sociedade como um todo, enxergando-a como apenas um conjunto automático, comportando-se como programas de computador. O pedido então é interrompido pelo narrador questionando "What's that?", como se não entendesse o que ele mesmo acabava de dizer. Ao fundo, uma voz robótica repete a frase "I may be paranoid, but not an android". A personagem instaurou, no fundo de sua mente, que ele não era programado como as pessoas que ela via ao seu redor, mesmo que fosse paranoico. A próxima estrofe apresenta a mesma configuração, mas é cantada num tom mais agressivo. Diz-se:
"When I am king
 You will be first against the wall
 With your opinion which is of no consequence at all" 
  Novamente, o eu-lírico fala com a sociedade, mudando de uma sonoridade melancólica para uma sonoridade colérica. A personagem preza por um dia em que se tornará superior a toda aquela gente, que, segundo ela, tem uma opinião irrelevante, pré-programada. Os próximos versos contam com um instrumental menos passivo e mais agressivo, com um forte riff de baixo acompanhando o ritmo. Referindo-se diretamente à camada da sociedade que vive pelo materialismo, Yorke canta, num ritmo ofensivo:
"Ambition makes you look pretty ugly
 Kicking, squealing Gucci little piggy"
  O protagonista, agora, pergunta por que essas pessoas não se lembram dele. Ele se sente excluído, e esse sentimento se transforma em ódio. Ocorre, agora, uma parte na qual a tranquilidade da música cessa e o instrumental torna-se agressivo, até retornar para o ritmo melancólico da canção. Isso permanece por algum tempo, até que a melancolia da música é retomada com um coro de fundo num tom extremamente triste, quase como se a personagem se arrependesse de seu surto de ódio. Depois, o cantor clama para que a chuva caia sobre ele, como que para lavá-lo, fazê-lo esquecer-se de toda aquela paranoia. Os versos parecem agora prorrogados, arrastados, numa triste entoação que demonstra, ao mesmo tempo, a tristeza e o desespero da personagem. A letra se encerra numa frase a princípio esperançosa, mas que soa irônica, como se a personagem zombasse de Deus e dos poderosos:
"God loves his children
 God loves his children, yeah..."
  A música termina com outro estouro de violência nos instrumentos, deixando a agressividade solta depois das últimas frases. Essa agressividade é abruptamente cortada e inicia-se a calma Subterranean Homesick Alien. O próprio título dessa música já é uma referência à Subterranean Homesick Blues, de Bob Dylan, lançada em 1965. A canção de Dylan fala sobre um sentimento de se sentir preso, enjaulado, sobre todos quererem dar um palpite sobre como você deveria ser. Já a de Yorke é uma clara crítica à alienação e ao sentimento de se sentir diferente de todos ao seu redor. A letra se inicia criticando a cidade na qual a personagem vive, com ela clamando que não se lembra do cheiro do verão, por exemplo. A parte inicial utiliza o "cheiro" como metáfora para a emoção, a alegria, e assim o meio urbano tecnológico da década de '90 é criticado, com o cantor ainda dizendo como todos andam de cabeça baixa, melancólicos:
"I live in a town
 Where you can't smell a thing
 You watch your feet
 For cracks in the pavement"
  O protagonista se sente como um alienígena, em um lugar ao qual ele não pertence. Há um forte sentimento de escapismo, e ele afasta as outras pessoas de si pois eles não tem nada em comum com o protagonista. A letra procede para falar sobre as outras pessoas que são como o eu-lírico, que ele imagina estarem tão longe dele que são inalcançáveis. Há, então, uma crítica explícita ao modo de vida do ser humano naquela época, que perdura até hoje:
"Up above
 Aliens hover
 Making home movies
 For the folks back home
 Of all these weird creatures
 Who lock up their spirits
 Drill holes in themselves
 And live for their secrets" 
 O refrão da música é bem simples. O cantor fala sobre como todos sempre andam tensos, estressados. A segunda parte da música também é recheada do sentimento de escapismo, enquanto o protagonista tem devaneios sobre encontras as pessoas que são iguais a ele, que não são automáticas, e sobre como a vida dele seria bonita, como o mundo seria bonito, diferente do que ele enxerga no momento. Logo no final, ele desfaz esse devaneio, falando que não vai dar certo, mas que, mesmo assim, ele ficaria bem, e que ele só estava tenso. A canção toda é composta num ritmo calmo, no mesmo esquema da anterior: sons acústico se misturando a sons elétricos, e a voz de Yorke cumprindo um papel melancólico, a marca do cantor. Além disso, as variações de tonalidade no refrão, além de adicionarem um toque emocional muito forte na obra, demonstram a capacidade da banda de fazer música não só como música, mas também como poesia. Esse sentimentalismo é demonstrado de maneira intensa na próxima faixa do álbum, Exit Music (For a film). Essa é, facilmente, a música mais triste do álbum. Originalmente escrita para ser tocada nos créditos do filme Romeo+Juliet, de Baz Luhrmann, a música traz à tona, novamente, o sentimento de escapismo tão presente no romance ao qual ela se refere. Um violão acústico acompanha a voz durante a canção e, mais tarde, um teclado e os outros instrumentos da bandam entram para um finale sentimental e catártico, expressando a revolta dos jovens apaixonados contra um pai antiquado e conservador, que se julga inteligente e disciplinado, mas que só se afoga mais e mais em regras, sem abrir a mente para nenhuma outra ideia.
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Romeo+Juliet
                                        
  A próxima música, Let Down, traz consigo uma enorme carga de críticas a uma sociedade monótona e que não dá o valor merecido às emoções, mas também lança um olhar esperançoso. Essa música é um belíssimo exemplo de como o Radiohead consegue combinar a sonoridade e a musicalidade com o objetivo da canção. A guitarra de Ed, repetindo basicamente as mesmas notas num riff calmo durante toda a música, e a voz de Yorke num tom monótono exemplificam perfeitamente a banalização da emoção na sociedade. A letra da música fala sobre como as coisas que acontecem no mundo, exemplificado por meio do trânsito (novamente a crítica à tecnologia) trazem as sensações mais vazias de todas. Fala-se como a pessoas se desapontam com esse mundo, mesmo sem perceber, e se apegam à garrafas (o álcool). O refrão apenas reforça essa ideia de tristeza, de melancolia, falando como o protagonista se sente abandonado, decepcionado, destruído pelo mundo. Os próximos versos apontam como a vida deste foi destruída, sendo representada por metáforas com insetos (metáfora também presente no refrão). E a seguinte frase, criticando como o sentimento é banalizado, visto como fútil, mostra muito da visão crítica da obra:
"Don't get sentimental
 It always ends up drivel"
  Entre todas as partes da música, eu vejo na seguinte estrofe um grande trabalho de crítica por meio da ironia que mescla-se, ainda, ao sentimento de esperança da personagem, que, apesar de sentir-se extremamente abatida pela sociedade, vê e espera um futuro melhor. Yorke mostra, na mesma estrofe, ambas a visão da protagonista a respeito de seu futuro quanto a visão da sociedade:
"And one day I am going to grow wings
 A chemical reaction
 Hysterical and useless"
  Como a metáfora dos insetos é presente na música, denota-se que o primeiro verso explicita a saída da personagem do estado de larva, em que todas as pessoas estão, com medo de evoluir, para a fase da borboleta, em que se adicionam cores. O protagonista vê essa passagem de modo otimista e esperançoso, e pensa nela como sendo tão fantástica quanto uma reação química. Em oposição, a visão da sociedade a respeito dessa mudança é que ela é histérica e inútil, desnecessária para um mundo onde o importante é produzir.
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Trecho do videoclipe de Karma Police
  A respeito de Karma Police, me interessa também falar sobre seu videoclipe. Para mim, essa é uma das mais profundas canções já feitas, e expressa uma quantidade enorme de sentimentos em alguns poucos e simples versos. A música mostra um eu-lírico arrogante e imaturo, questionando todas as pessoas que agem de uma maneira com a qual ele não concorda. Ele implora por uma punição à um homem que falava coisas que ele não entendia, que para o narrador pareciam mais ruídos de geladeira. Em seguida, ele pede uma punição à uma garota por não gostar do seu corte de cabelo, apesar de estar se aproveitando de regalias oferecidas por essa mesma garota. No refrão, ele parece se gabar, mostrando que ele e seu grupo (a massa popular, como um todo) são inquestionáveis:
"This is what you get
 This is what you get
 When you mess with us"
 Como na primeira parte da música, após o refrão, o narrador interpela a "polícia do Karma" para outro diálogo com esta. Essa "polícia", de acordo com a crença do Karma, deveria punir àqueles que fazem o mal, que, na visão do narrador, são todos os que agem diferentemente dele. Voltando à letra, a personagem agora questiona a polícia:
"Karma police
 I've given all I can
 It's not enough
 I've given all I can but
 We're still on the payroll"
  Nessa parte da canção, o narrador parece estar sofrendo com as punições da Karma Police. Ele está muito confuso, clamando que ele deu tudo que podia e que ainda assim não era o suficiente, que ele deveria ser beneficiado por estar entregando todas aquelas "pessoas ruins" para a polícia. O uso do pronome no plural "We" ao invés de "I" mostra que o narrador está, no momento, com um grupo, ou mesmo representando-o. Apesar de vermos, durante toda a música, um narrador mesquinho e egoísta, o final da música sugere que ele é alguém paranoico por causa da sociedade, como em todas as outras músicas do álbum. Ele diz que por um momento ele se perdeu, ele se tornou outra pessoa, influenciado pela sociedade.
"For a minute there,
 I lost myself
 I lost myself"
  O clipe dessa faixa é muito interessante. Vemos uma câmera fixa no banco do motorista de um carro, e na traseira está o eu-lírico da canção, representado por Yorke. Durante todo o curta, esse carro persegue um homem vestido em roupas formais que foge do carro, em desespero. Essa parte representa o julgamento da personagem à todas as pessoas que agem diferentemente dele (as roupas do homem e de Yorke são bem distintas). Entretanto, quando o homem finalmente se cansa de correr e o carro o alcança, este freia e começa a dar ré, como que se para acelerar e atropelá-lo. Entretanto, a câmera muda para trás do homem e mostra que o carro vinha deixando um rastro de gasolina. Neste momento, o homem acende um fósforo e o joga na gasolina, ateando o carro em chamas. Isso representa, claramente, que a única coisa que alguém consegue ao passar a vida julgando e perseguindo os outros é sua própria destruição.
  O álbum se segue com a faixa Fitter Happier. Essa "música" é a que mais perfeitamente sintetiza a ideia central do álbum. Uma calma melodia toca ao fundo, e uma voz completamente robotizada fala, sem emoção ou ritmo. Na letra, várias ordens são dadas para a obtenção de uma vida perfeita. Todas essas regras são criadas pela sociedade, mas na década de 90, no lançamento do álbum, nada parecia mais forte (e é assim até hoje) do que o controle exercido pela tecnologia sobre nós. Isso é representado pela voz robótica. Apesar de, quando citadas na música, as ordens parecerem altamente controladoras, a obra simplesmente descreve a vida moderna, mostrando como todos somos animais sedados, controlados, o que é visto claramente em alguns trechos da faixa:
"Concerned, but powerless"
"Calm, fitter, healthier and more productive
 A pig in a cage on antibiotics"
   Logo em seguida, há um grande contraste. Após uma faixa sem ritmo e completamente mecanizada como Fitter Happier, Electioneering estoura as expectativas do ouvinte ao apresentar um riff rápido, uma bateria animada e uma voz forte, ao contrário da tendência melancólica das outras músicas. O eu-lírico, agora, é um político. Ele começa a canção falando que não parará por nada, como que fazendo uma propaganda política. Em seguida, ele revela que fala as coisas certas apenas durante as propagandas políticas, e então se refere diretamente ao ouvinte, dizendo estar certo de que pode contar com seu voto. O refrão mostra como os políticos se tornam cada vez mais poderoso e os eleitores, cada vez mais fracos. Mas, apesar disso, o político diz e o povo acredita que em algum momento ambos se tornaram iguais.
  Climbing Up The Walls é uma faixa intrigante. É uma canção sombria, melancólica, profunda. Pode, facilmente, ser descrita como assustadora. O instrumental conta com barulhos distorcidos, uma percussão simples mas imponente, uma guitarra pesada. A voz de Thom também é distorcida, o que dá um tom ainda mais sombrio à canção. A letra fala sobre uma pessoa com problemas mentais, mas que no contexto do álbum pode se referir à qualquer um enfrentando um episódio de ansiedade. O eu-lírico dessa canção é uma voz dentro da cabeça da personagem, representando sua ansiedade ou seu medo. Ele fala de si mesmo, sobre como ele é a única fonte de esperança dessa pessoa, sobre como ele tem poder sobre ela e como ela não pode combatê-lo. Sobre como eles serão amigos até a morte. O refrão é arrepiante, e a voz expõe toda seu poder ao mostrar à personagem que não há escapatória:
"And either way you turn I'll be there
 Open up your skull
 I'll be there
 Climbing up the walls"
  Na segunda estrofe, a voz continua a mostrar toda sua força. Qualquer um que está ouvindo é automaticamente aterrorizado pelos horrores que aquela melancolia personificada transpõe em ódio por meio de suas palavras:
"It's always best when the light is off
 It's always better on the outside
 Fifteen blows to the back of your head
 Fifteen blows to your mind"
  A música é muito potente, e o terror daquela voz ecoa por toda a faixa. Mais uma vez, uma combinação impecável dos instrumentos distorcidos perfeitamente e da incrível atuação artística de Yorke envolve o ouvinte no sentimento que Radiohead buscava.
  O clima sombrio é quebrado pelo instrumental quase que infantil de No Surprises. Uma música extremamente calma, novamente combinando com sua temática lírica, acalma o ouvinte depois do pesadelo (no bom sentido) que foi a faixa anterior. Na letra, temos uma ideia parecida com a de Fitter Happier. O eu-lírico vive a vida calma, com um trabalho estável, sem sustos e sem surpresas, silenciosa, numa bonita casa com um bonito jardim, e percebe lentamente que essa vida está destruindo-o, mas ele não se desespera com isso. Pelo contrário, ele parece complacente, calmo, como se isso não fizesse diferença, já que a vida dele está "boa". Um pensamento muito atual em grande parte da população até hoje, que senta e vê a vida passar, vive como lhe dizem para viver.
"I'll take a quiet life
 A handshake of carbon monoxide"
  Lucky é a faixa que pode ser descrita como a música mais feliz do álbum. O tema esperançoso é muito presente, os instrumentos apresentam uma sonoridade muito mais aberta do que o restante das canções do álbum. Yorke fala sobre como ele está provando da felicidade, do sucesso, e ele sente que sua sorte pode mudar. A obra traz uma ideia de que devemos viver cada dia com um bom olhar, aceitando o que cada um pode nos dar, mesmo que algumas coisas sejam ruins. Devemos aproveitar o amor, aproveitar as segundas chances que recebemos, aproveitar o nosso tempo.
  Fechando o álbum, temos The Tourist. Essa é uma faixa difícil de difícil compreensão. Ela também fala sobre levar uma vida mais calma, mas dessa vez com uma visão diferente. A música fala sobre os defeitos de se levar uma vida rápida demais. Tudo parece frenético demais, violento demais. O eu-lírico se sente cobrado demais, todos perguntam-no onde ele vai com tanta pressa. E o refrão apenas pede por calma. Nesta faixa, diferentemente de todas as outras faixas do álbum, não há sons digitais. Apenas os intrumentos, limpos, suaves. A voz de Yorke não tem efeitos, a música pede por calma e dá calma. O pedido para que o "Turista" da música diminua a velocidade para que ele possa apreciar a paisagem, a vida como um todo, dão um ar misterioso na canção, e criam um efeito de loop no álbum. OK Computer funcionaria perfeitamente se esta fosse a primeira faixa do álbum. A música se encerra repentinamente, e completa-se a jornada do homem que renasceu para salvar o Universo.
"Hey man, slow down, slow down
 Idiot, slow down, slow down"
  OK Computer é um álbum que guia o ouvinte por um universo inteiro de sentimentos e sensações, retratando perfeitamente a melancolia, a solidão, o ódio, a ambição, a esperança. Tudo isso reunido na imagem de uma sociedade que se curva à sua própria criação, vulnerável, impotente. A dualidade, a bipolaridade encontram recanto na arte de Radiohead. A grande liberdade da banda abre portas que ainda não haviam sido descobertas para o rock, para o BritPop, para o experimental e para o alternativo. Thom Yorke utiliza sua inigualável interpretação artística para trazer os ouvintes para o mundo real: um mundo onde o ser humano importa. Realmente, não é difícil perceber porque OK Computer é considerado um dos melhores álbuns já produzidos. Uma obra de arte a frente de seu tempo, intensamente profunda e acolhedora.
                                                                                                         Felipe Valverde

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