Me levantei. Querendo ou não, me levanto. Comida, água, roupas, rotina. Tudo vem, vai e se perde num mar de palavras, concretas e abstratas, que balança todas as coisas, remoendo-as e minimizando-as. Nada fora do lugar, tudo flui como num concerto de engrenagens, precisamente programadas para funcionarem da maneira que funcionam. Um milagre, diriam alguns. Realmente, não existe problema. Não há problema. Não há nenhum. Mas há. Não o problema das coisas. Não um problema em mim. Um problema de ambos, numa insalubre convivência.
Nos salões da minha cabeça ecoa tudo aquilo que se abafa na uniformidade do mundo. É na minha cabeça mesmo? Indiferentes, as pequenas preocupações tomam para si proporção de gigantes. As ínfimas coisas, resolvidas ou por se resolver, que não mais rompem limites ou ameaçam a paz, tornam-se monstros. Imponentes, marcham em círculos, sem destino e sem expressão. Cada vez mais dissonantes, seus deformados gemidos dominam seu espaço e corroem seus iguais. Cada um maior que o outro, avançam sem previsão de parada em direção a toda minha (talvez existente) sanidade. Um barulho agudo, desagradável e confortante, irrompe. Buzina. A carona chegou...
Um escuro momentâneo toma parte, e os balanços do carro nas ruas esburacadas vibram meu corpo que, cansado, dói. Uma ou outra palavra destroem a maravilhosa e assustadora harmonia do silêncio que luta para dominar o ambiente, mesmo em meio ao barulhento motor que empurra aquelas pessoas de um lado pro outro, por vontade delas mesmas (ou talvez não). Algo no ar me incomoda. Não consigo ter certeza se são as músicas mecânicas que soam tão baixas que parecem distantes, ou se é algo mais. A luz? Não. A luz está ótima. Um dia não muito claro alivia um pouco todo aquele ambiente decadente. Ou talvez incremente-o. O perfume? Mas que perfume é esse? Irritante, esnobe, vazio... Ah! Nunca senti um cheiro tão repugnante. Não é ruim, não. É apenas isso: repugnante. Dá para sentir ele se espalhando pelo ar, sufocando as pessoas. Sinto cheiro de tormenta, de escravidão. Cheiro de toda uma sociedade, resumido naquele doentio perfume. De quem é esse veneno? De quem é essa doce, amarga essência? Esse cheiro me afoga em ainda mais...
Em quê? Cheguei à escola.
Castigo, castigo, castigo. Que bem me faz? Sinto falta do perfume...
Felipe Valverde
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