Os dias já não pareciam os mesmos. Cada momento, cada segundo, tudo demorava. O tempo se arrastava, os minutos ecoavam como dias, os dias ecoavam como séculos. Ela se levantou da cama, e o sentiu. Naquele momento, como em todas as manhãs, tardes e noites nos últimos penosos anos, as horas que ela vivera cobravam seu preço. Seus ossos doíam, sua cabeça estava pesada. Arrastou-se até a cozinha. Curtos e lerdos passos faziam a travessia no interminável caminho, o corredor parecia alongar-se a cada pequeno progresso. Sairia de casa hoje, pensava ela, para uma caminhada. Talvez ligaria para um amigo de infância, voltaria a viver. A água fervera, e ela terminou seu café. Bebeu-o quente. A dor do líquido queimando seus lábios já não a incomodava. Tudo parecia pequeno diante do flagelo do tempo. Todas as sensações eram perdidas, cópias de cópias de cópias... Suas emoções se misturavam, confusas, numa decadente melancolia. Seus olhos estavam constantemente ressecados, sua visão resumia-se em borrões desfigurados, lhe restavam apenas memórias de dias mortos. Memórias defeituosas, memórias corrompidas. Não havia muito para se lembrar, não haviam muitos momentos recordáveis.
Ela se levantou, e andava agora em passos tremidos, sem rumo pela casa, outrora grandiosa, mas que agora parecia mais uma ruína, uma construção arcaica e abandonada. Metros e metros quadrados que serviam a propósito nenhum se não o de diminuí-la, assustando-a e oprimindo-a. Ela sentia-se menor a cada dia, enterrada pela casa. Pegou o telefone, desses pequenos e sem fio. Caminhou seus passos lentos, encontrando lugar num sofá que já fora luxuoso, mas que agora parecia apenas um sofá acabado, desses que se encontra no lixão. Pedaços rasgados revelavam uma espuma amarela, o estofamento. Ela pegou seu caderno de telefones, nostálgica, e abriu-o. Alguns minutos se passaram numa pausa dolorosa. Quanto mais o tempo passa para alguém, mais tempo essa pessoa demora para entender algumas coisas. Nunca antes tinha reparado, naquele caderno não havia pessoas. Não mais. Havia nomes, apenas nomes e números. Números que não levavam a lugar algum, que não ligavam para lugar algum. Nomes que remetiam a pessoas há muito esquecidas. Esse é o problema. Não importa o quão grandioso se é, uma vez que você sai da vida de alguém pra sempre, não demora muito até que todos se esqueçam de você. É natural. Ela lia nomes, e quanto mais lia, mais difícil era ler o próximo. Sua visão se embaçava com as lágrimas secas que brotavam em seus olhos. Ela vivera tanto, tinha tanto para contar, para discutir, mas nenhum ouvinte. Parou um pouco, o olhar vazio fitando ponto nenhum. Há muito não saía de casa, reparou. Foi ao banheiro, limpou o rosto. O espelho mostrava uma pessoa que ela mesma não reconhecia. Tinha sido tomada de refém pela idade. Sua pele não era mais sua pele. Seus dentes não eram mais seus dentes. Tudo mudara. Balançou a cabeça, afastando aqueles pensamentos que poluíam sua mente, e caminhou, lentamente, até a porta da frente. Olhou pela janela, e não viu ninguém na rua. Morava num bairro afastado, então não era muita surpresa. A luz entrara pela casa, agressiva, invasiva, tomando seu espaço à força. Melancólica, certamente, mas tentando afastar tais sentimentos, abriu a porta. Uma brisa entrou, numa calmaria violenta, arrepiando-a. Não era fria. Pelo contrário, era um dia quente, mas seu corpo sentia o contrário. Quando se é consumido pela idade, tudo parece diferente. Fechou a porta atrás de si, os pés do lado de fora da casa, e andou e andou. De vez em quando, via uma pessoa ou uma família passando na rua, mas nada que fosse merecedor de atenção. Sua vida, de fato, não parecia ter muito mais a oferecer. Cada passo doía, como sempre doeu. Ela não queria ter um destino, mas seus pensamentos há muito já haviam sido corrompidos. Não viu nenhum conhecido na rua. Também nisso não havia muita surpresa. Quando a festa morre, é de se esperar que as pessoas já tenham ido embora. O Sol queimava sua pele, que também já não apresentava tanta resistência assim. Ela se sentiu indignada. Esse é o problema do tempo. Ele não é justo, não é. Ele não afeta a todos do mesmo jeito, não é mesmo? O Sol era o mesmo sempre, afinal. Mas ela, não. Ela estava mais velha. Com menos fôlego, mais perto do fim. Talvez ela esteja mais feliz do que o Sol, entretanto. Ela deu a volta para retornar à sua casa. O Sol não morreria tão cedo, e talvez isso o deixasse mal. Poucas são as vezes que pensamos como o Sol se sente. Talvez ele não seja nem um pouco feliz, mas isso não importa. Nunca importa. Ela andava, sem pensar, para casa, no piloto automático. O problema, pensou ela, é que ela nunca viveu do jeito certo. Aos caminhos sinuosos da vida ela nunca deu muito atenção. Criou seu próprio caminho, reto e monótono. O problema de escolher o caminho reto é que você perde muito do trajeto e, no final, acaba chegando mais cedo. Chegar mais cedo não é uma vitória...
Ela chegou em casa e abriu a porta. Olhou para o relógio e viu que era hora dos seus remédios. Sua melancolia se transformara numa determinação estranha e numa alegria sem sentido. Ela se sentia liberta. Às vezes é melhor não pensar muito nas coisas. Ela abriu o armário e pegou comprimidos e comprimidos. Mais do que ela conseguia carregar. Pegou um copo e encheu-o. Passou pela porta do quarto e pelo interruptor da luz, que estava ainda acesa. Sentou-se na cama, tomou comprimido após comprimido. Compilados de coisas, como são estranhos os comprimidos! Deitou-se e esperou. Minutos se passaram, e uma breve sensação de enjoo deu lugar à uma paz interminável. Programada, automática e inevitável, a luz se apagou. O próximo dia amanheceu como todos os dias sempre amanhecem: iguais.
Felipe Valverde
sexta-feira, 16 de junho de 2017
Minutos
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