O MAGO
Em algum lugar entre dunas de areia do deserto, debaixo do céu escuro da madrugada nas proximidades do golfo pérsico, erguia-se uma torre de pedra que se destacava solitariamente no horizonte como a única construção humana em um raio de quilômetros. Compreendida dentro da face escura do globo, onde a luz solar não tocaria até o amanhecer, suas pesadas paredes perdiam o calor obtido durante o dia cedendo toda sua energia ao cosmos. As areias do ermo, que de dia eram como um espelho iluminado que refletia com abundância a luz emitida pelo sol, agora estavam pálidas e petrificadas como a areia do fundo do mar, ocultas debaixo de um lençol tenebroso de estrelas e escuridão. A lua também se escondia se vestindo com a sombra da terra, que tampava a luminosidade do sol dando origem a uma noite escura de perfeita lua nova. A fria paisagem estaria completamente desolada se não fosse um pequeno e velho mago, que sentado em um grande banco no último andar da torre, tateava a mesa à sua frente, debaixo de uma janela que não passava de um vão quadrado na parede, buscando no escuro seus pequenos e frágeis frascos de vidro que continham as amostras de suas mais recentes pesquisas. O sábio estava há dois dias em um incessante estudo de alquimia, em busca das matérias primas da natureza que em contato uma com a outra se transformariam em fogo. Seu imenso ego tinha o convencido de que conseguiria alcançar sua descoberta até o entardecer do dia, mas o velho mago estava tão vidrado em suas pesquisas que não percebeu as sombras do deserto se alongando à medida que o sol se punha, e agora era muito tarde para tentar alcançar a cidadela mais próxima, pois a região era infestada de sanguinários ladrões que não pensariam duas vezes antes de decepar um famoso mago apreciado pelo rei. Além disso a jornada seria longa, e o sábio não possuía nenhuma fonte de luz que pudesse guiá-lo pelo caminho. Havia um par de pedras que utilizara na noite anterior para acender uma fogueira feita de folhas e casca seca de palmeira, porém o combustível havia se esgotado, e as faíscas produzidas pelas pedras nem sequer iluminavam o rosto do velho, e assim não fariam luz suficiente para iluminar a escuridão do deserto. Por isso, decidira ficar na torre até conseguir criar fogo com suas misturas, e assim acender uma tocha e seguir pelo deserto em direção à cidade, onde seria recebido de braços abertos pela população que ficaria maravilhada com sua nova e revolucionária descoberta.
O homem tentava continuar seus afazeres, decepcionado com suas próprias habilidades que não foram suficientes para garantir luz naquela noite. Tremia cada vez mais com o frio, derrubando parte de seus compostos na mesa de pedra sempre que ia tentar uma mistura diferente. Esbravejava e tentava novamente, involuntariamente se molhando com substâncias extremamente perigosas e desconhecida pelos ignorantes da ciência da alquimia. Foi em um desses momentos, já no auge da noite, que o mago acidentalmente derrubou um frasco entre seus braços, e o líquido caiu em sua mão causando um metálico e profundo ardor que logo se transformou em uma estranha sensação de formigamento na pele. O velho gritou de dor e correu desesperadamente até o vaso de cerâmica com a água que estava usando para consumo próprio para se limpar sem pensar duas vezes. Antes de se dar conta de que contaminaria sua pouca água potável, já havia mergulhado seus braços no recipiente, cego pela dor em sua mão. Ao perceber o erro mortal que tinha cometido ao envenenar o vaso d'água, encheu-se de fúria, e deu um chute no recipiente com toda sua ira, quebrando-o, e molhando todo o chão de pedra do último andar da torre com sua preciosa água. Derrubado pelo fracasso, o mago começou a se lamentar, chorando de desespero com medo de morrer ali, consumido pelo frio e pela sede. Sentou-se no chão e ficou paralisado, tremendo o maxilar a cada vento frio que passava pela janela, sentindo o ar cortante perfurar seus ossos.
Desolado e totalmente rendido à morte, o mago tentava listar todos os fracassos de sua vida como alquimista, todos os erros que lembrasse. "Não cometi um só erro em toda minha gloriosa carreira...", pensava ele, com sua barba encharcada de lágrimas. "E os deuses escolheram apenas um dia, um fatídico dia, para que eu tomasse todas as decisões erradas!". Foi quando percebeu o estúpido egoísmo que estava carregando ao túmulo:
— Perdão! — Ele gritou em direção à janela, tendo o céu estrelado como o único ponto de referência na sala escura. — Eu culpo a mim, exclusivamente a mim!
Ele exclamava, tentando de alguma forma se desculpar aos deuses.
— A culpa é minha por não ter racionalizado de forma correta meu alimento! A culpa é minha por ter acreditado demais em mim mesmo, e ter pensado que conseguiria criar fogo em apenas dois dias! — Gritava com as mãos estendidas ao céu.
Seus berros eram intercalados por momentos sombrios de silêncio, nos quais o alquimista só conseguia ouvir sua própria respiração ofegante e seus últimos pensamentos catastróficos. O mago estendia as mãos ao céu, enquanto se engasgava de tanto chorar. Todo seu corpo tremia de frio, e pela primeira vez na vida, sentiu medo do escuro. Não o medo irracional, aquele que é carregado pelo ser humano desde sua criação no ventre do universo. O mago sentia o medo de que alguma criatura desconhecida poderia estar escondida no canto escuro da sala, com seus dentes afiados e sede por sangue, apenas esperando o momento certo para te dilacerar. Era um medo pior, uma angústia amarga vinda do fato de que não conseguia enxergar absolutamente nada. Uma sensação desesperadora de que não sobreviveria tempo suficiente para ver o sol novamente. Tomado por esse pensamento, seu sangue ferveu por alguns segundos, e o alquimista correu até a janela para poder apreciar as estrelas pela última vez. Não foram mais que três passos executados, e escorregou no chão de pedra molhado de água, extremamente escorregadio. Havia esquecido completamente que derrubara o vaso, e em um movimento totalmente descuidado, escorregou, e sem equilíbrio foi atirado pela gravidade velozmente em direção ao chão, atingindo a mesa com a testa no meio da queda. O impacto foi o suficiente para fraturar a cabeça do alquimista, que permaneceu ensopado de sangue no chão molhado, até recuperar parte dos seus sentidos e conseguir ao menos sentar-se na cadeira. O mago permaneceu sentado por um longo tempo, exausto e paralisado de dor, exalando todos aquelas substâncias extremamente voláteis e venenosas que deixara em cima da mesa. Seus olhos ardiam de dor, e o sangue quente escorria pelo seu rosto, aliviando momentaneamente o frio perfurante em suas bochechas. Sua visão escureceu, enquanto imaginava melancolicamente seu cadáver azulado de frio em algumas horas, sendo acariciado de forma morna e confortável pelo primeiro raio solar da manhã.
Enquanto os olhos do sábio se fechavam, e ele se despedia pela última vez da melancólica luz das estrelas, algo o aterrorizou. A sala finalmente foi tomada pelo escuro absoluto, e o velho pensou estar sendo abraçado pelos braços gélidos da morte. A fraca fonte de luz do céu limpo do deserto havia desaparecido, como se algo estivesse tampando a janela. Ao dar um esganiçado soluço de choro, o mago percebeu que ainda estava vivo, e que na realidade, havia algo lá fora. Esqueceu completamente de suas dores e do frio quando notou uma respiração rouca vindo do deserto, audível como uma multidão respirando em uníssono. Reuniu suas últimas gotas de coragem para dizer um tímido e assustado:
— Quem está aí?
Esperou alguns segundos pela resposta, e uma voz grave e alta, que reverberava pelo vazio do deserto, e articulava os sons de uma forma metálica como sabres sendo golpeados uns contra os outros, respondeu:
— Sou a primeira luz do universo e a última luz da vida. Mãe de todas as estrelas e pai do vazio escuro. O primeiro vislumbre de um recém-nascido, e a última contemplação do ancião. Meu nome é Dodectopus, o habitante Da Orla.
Perdido no escuro absoluto o mago arregalava os olhos na tentativa falha de conseguir enxergar alguma coisa. Como estava no papel de um homem em busca da verdade, sentia ao mesmo tempo uma atração curiosa e um pavor absoluto de seu interlocutor. Em uma falsa sensação estúpida de que também deveria se apresentar, tentou esconder qualquer tipo de orgulho e disse:
— Meu nome é Shooshtar, O Mago, o homem com o conhecimento da fabricação das poções mais concentradas do deserto.
O silêncio que veio após essa introdução foi embaraçoso para o mago, que continuou ouvindo suas palavras pensando no quão estúpidas elas haviam soado. Um ser tão grandioso como aquele não ficaria nem um pouco surpreso com os conhecimentos humanos de um simples alquimista conhecido por fermentar cereais.
— Humano tolo! — exclamou a entidade. — Não estou interessado nos truques que você faz para se impressionar! Não percebes que foram eles que trouxeram-lhe até aqui?
Aquelas palavras foram suficientes para fazer o alquimista se lembrar de onde estava. Morreria de frio no último andar da torre caso não conseguisse uma fonte de calor.
— Perdão, ó grande Dodectopus! Por favor, tenha condolência deste meu corpo mortal! Sinto frio e morrerei antes do amanhecer se não sentir o abraço gentil do fogo!
— Não eras tu o homem mais inteligente do deserto? Faça você mesmo o fogo... — respondeu a criatura, em tom de desafio.
O mago entrou em total desespero. Havia sido trazido até aquela situação devido a seu excesso de auto-confiança. Seu ego havia o levado em direção à morte. A terrível criatura estava ali apenas para observar seu fim, e ele não teria nem mesmo a oportunidade de ver a aparência do misterioso ser. Seu corpo todo tremia no escuro, e já não sentia seus dedos. Sua cabeça latejava, e o sangue não parava de escorrer, pingando em suas vestes molhadas feitas de tecido nobre. Shooshtar não seria capaz nem mesmo de tentar continuar sua busca, já que estava escuro demais para conseguir ler os rótulos dos frascos, e seu corpo estava cada vez mais fraco. Aquele ser estava apenas o torturando, castigando-o pela sua megalomania mortal. Decidiu desesperadamente misturar as substâncias de forma aleatória, despejando vários frascos de líquidos de todos os tipos diferentes em uma bacia de cerâmica enquanto chorava ao perceber estar diante do fim. Até que ao perceber seu próprio fracasso, se irritou e atirou a bacia para o lado, junto do restante de todas as centenas de frascos que estavam na mesa. Enquanto berrava de raiva, e surpreso com sua própria reação irracional, não percebeu que os líquidos misturados na bacia entraram em contato com a água envenenada que já estava no chão, e formaram uma cortina de fogo que tomou conta de toda a sala. As labaredas chegavam até o teto e preenchiam todo o último andar da torre, e assim, logo se espalharam para as vestes do mago, o envolvendo por inteiro pelo fogo. Enquanto sentia sua pele ser consumida lentamente pelas chamas, nunca tão feliz por estar sentindo o doloroso calor, olhou triunfante em direção à janela acima da mesa para enxergar a criatura. E pela última vez viu as estrelas sobre o deserto.
Theo Vargas
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