quarta-feira, 4 de abril de 2018

Assim Como o Céu Faz Todos Os Dias No Entardecer


"Pessoas em seus estados naturais são basicamente boas. Essa inocência natural, entretanto, é corrompida pelos males da sociedade." - Jean-Jacques Rousseau

    As cinco badaladas que ressoavam da torre tiraram o jovem fazendeiro de um estado hipnótico. Ficava daquele mesmo jeito todos os dias, àquela mesma hora, no cemitério, desde que ficou viúvo. Depositou uma pequena e delicada flor amarela em cima do túmulo frio de sua esposa, e enxugou as lágimas com a manga da camisa ao perceber a presença de mais alguém no campo-santo. Não percebera de imediato, mas se assustara com o barulho metálico do sino. Alguns segundos antes das badaladas, ainda estava submerso no passado. Viajava nas lembranças mais restritas e particulares que tinha de sua mulher, que recentemente falecera, e o barulho o tirara de forma violenta do transe, como se tivesse sido acordado, por berros, de um sono profundo. O Sol poente deixava o céu com um tom sanguinário, que, acima das terras douradas da América Espanhola, fazia aquelas brutais pradarias parecerem o paraíso. O homem mal precisou levantar seu chapéu de vaqueiro para tentar decifrar a silhueta de sua companhia contra o pôr do sol, quando a identificou pela sombra projetada no chão. Avistou um velho calvo e corcunda, com vestes escuras esfarrapadas e um nariz pontudo. Alguém menos atencioso acharia que suas mãos magras e trêmulas logo largariam a pesada pá de metal que segurava, mas o viúvo sabia que carregar aquela ferramenta era, com certeza, o trabalho que o velho mais estava acostumado a fazer. Ele reconhecia quando alguém estava habituado com um trabalho há muito tempo, afinal, era fazendeiro desde que nascera. Os dois homens se encararam por alguns instantes, até que o idoso apontou para cima e resmungou com o canto da boca:
     — É engraçado. O Sol corre no azul frio ao longo de todo o dia, mas só decide tingir o céu de vermelho quando percebe que seu tempo na abóbada celeste está acabando. — O velho soltou uma risada ligeiramente doentia por entre seus dentes tortos. — É como um palhaço que decide contar sua melhor piada segundos antes de ser expulso do palco.
     O fazendeiro sorriu e comentou:
     — E o desgraçado ainda faz isso todos os dias.
     — Não por muito tempo, vaqueiro. — O corcunda transformou seu semblante em uma carranca fantasmagoricamente séria, que sob a luz avermelhada do Sol poente aparentou ser mais infernal ainda. — Ficou sabendo do que aconteceu em um vilarejo aqui perto? Uma jovem deu a luz ao próprio Diabo... É o fim dos tempos. Da maneira que as coisas estão acontecendo, em pouco tempo até mesmo o Sol vai ter medo de acordar.
     — Você não me parece o tipo que tem medo do fim do mundo. Nunca imaginaria que um coveiro teria medo de morrer. — Respondeu o fazendeiro.
     — Provavelmente tenho mais medo que você. Ninguém com medo da morte andaria com um ferro desses no coldre. — E apontou seu dedo magro e sujo de terra para o revólver na cintura do fazendeiro. — Mas vejo que pelo menos você respeita os mortos, pelo contrário não estaria aqui.
     — Respeito os mortos, mas isso não significa que eu queira me juntar a eles...
     — Você é um sujeito engraçado. Eu normalmente não simpatizo com os vivos que vêm aqui. São sempre velhos amargos, pessoas extremamente abaladas pela vida, que caminham por entre essas lápides como se estivessem escolhendo onde vão descansar quando chegar a hora deles. Mas você ainda é jovem e cheio de vida. Ainda possui a energia celestial que trazemos do útero de nossas mães.
     — Discordo de você... — Contrariou o mais jovem.
     — Acha que já perdeu a luz da vida?
     — É mais complicado que isso... Percebo que você pensa que sabe alguma coisa sobre a vida e a morte, mas acredite senhor — o jovem suspirou e olhou friamente para o coveiro — há anos trabalho em fazendas de gado, e já presenciei centenas de bezerros vindo para esse mundo, assim como já matei animais velhos e doentes. Posso te garantir que o momento do nascimento é a cena mais bestial e selvagem que um ser vivo pode presenciar, muito pior do que a morte. Já esteve em um parto?
     — Além do meu? — Disse o coveiro — Na realidade não. Mas me interessei por sua teoria. Gostaria de entrar e tomar uísque? Tenho uma garrafa, e há muito tempo que não tenho a companhia de alguém.
     O fazendeiro assentiu, e seguiu o velho corcunda em direção à pequena construção de pedra a poucos metros do cemitério. Os dois homens caminharam, sob a intensa luz vermelha irradiada pelo horizonte, por entre as lápides. A relva amarelada em volta do cemitério tremulava como fogo, dando uma aparência apocalíptica para a paisagem abrasadora do deserto mexicano. Entraram na pequena casa de pedra, composta de apenas um cômodo, habitada pelo coveiro. Se não fosse uma fraca chama em uma lareira no canto do aposento, a única fonte de luz da casa seria um faixo de luz escarlate, que entrava pela pequena e solitária janela acima de uma velha mesa de madeira. Entulhos empoeirados estavam jogados por todo lugar, e uma coleção de crucifixos enferrujados se erguia de forma poderosa na parede acima de uma precária cama de palha. O velho, que agora debaixo de uma luz mais fraca mostrava ter um rosto pálido e olheiras escuras, puxou a única cadeira do aposento e disse para seu convidado se sentar. Enquanto o fazendeiro se acomodava, o coveiro abriu um armário e pegou uma imensa garrafa de uísque caseiro com uma mão, e dois copos sujos com a outra. Sentou-se em uma caixa e serviu seu convidado, que tomou a bebida e disse:
     — O que foi mesmo que você falou lá fora? Sobre uma mulher ter parido o Diabo?
     O fazendeiro logo se arrependeu de ter tocado no assunto. Percebeu que perguntara sem pensar, apenas para render conversa e quebrar o clima sombrio do quarto, mas que agora havia entrado em um tema perigoso. O coveiro levantou as sobrancelhas, e abriu a boca com uma expressão de terror absoluto, como se tivesse ouvido a própria voz do Diabo. Com sua voz rouca e cavernosa disse, quase sussurrando, como se estivesse com medo de mais alguém ouvir:
     — Você não tem ouvido as histórias? Todo o vilarejo tem falado disso... Alguns quilômetros mais distantes daqui, atrás daquela montanha rochosa a oeste, mora uma jovem de pouco mais de dezesseis anos que compactua com poderes malignos... Ninguém sabe de onde veio, nem o porquê de ter escolhido essa região miserável para perturbar, mas há poucos dias um comerciante veio correndo para a igreja, dizendo que a moça estava prestes a dar a luz, e precisava de uma parteira. Naturalmente o padre foi junto... Mas nem mesmo seu dom santificado foi suficiente para conter a Besta. Do ventre da garota saiu uma criatura aterrorizante, com pele escamosa, chifres, olhos amarelos cadavéricos e labaredas saindo das narinas. — Fez uma pausa para tomar um pouco mais da bebida, e serviu ao convidado. — A maldita cria do Diabo matou não só a mãe, mas também o padre e até mesmo a pobre parteira. Transformou o milagre do nascimento em um banho de sangue, com suas garras afiadas como facas.
     O jovem fazendeiro expressou um sorriso cético e indagou:
     — Se todos que estavam presentes foram assassinados, como sabem quem matou? E como sabem a aparência da criatura? Me desculpe senhor, mas de todos os boatos mentirosos que eu já ouvi contarem nesse vilarejo, esse foi o mais desonesto.
     — Ah, garoto! Você é esperto... Mas dezenas de pessoas já avistaram a criatura depois do massacre. — Retrucou o velho, com um tom agressivo. —Dizem que ela se espreita pelo mato alto e ataca seus calcanhares antes que você consiga fugir... E mesmo que consiga correr, o Bebê Diabo é mais veloz. Ele corre mais rápido do que um cavalo, ninguém foi capaz de sequer se aproximar...
     O fazendeiro teve sua atenção tomada por uma curiosidade mórbida de saber onde a criatura se escondia. Não ouviu o que o coveiro lhe contou após isso, mas sabia que o velho passara talvez uma hora falando da tal besta demoníaca. Enquanto narrava os relatos de avistamento dos camponeses, reenchia os copos rapidamente, nunca os deixando vazios por muito tempo. Os dois homens brindavam de forma quase instantânea e o coveiro continuava a falar. O mais jovem aceitava as doses da bebida inconscientemente, com os olhos fixos em direção à janela. pensava na possibilidade do Diabo estar logo ali do lado de fora, naquele terreno macabro do cemitério. A criatura pequena, do tamanho de um recém-nascido, com patas de bode e dentes e garras afiados como facas, rosnando como um cachorro e bufando fogo. Imaginava a criatura descrita pelo velho abaixada entre o mato-alto da planície, escondida, agora que escurecia, e o céu se tornava um azul sombrio e o Sol se deitava atrás das montanhas, à distância, na direção do lar da mãe da criatura.
     A sala ficou em silêncio assim que o coveiro percebeu que o jovem não estava mais prestando atenção. Encheu mais uma vez os copos e ficou pensativo, enquanto dava pequenos goles no uísque e olhava para o vazio. Respirou fundo e, com a boca fraca e a voz trêmula, disse em tom de confissão:
    — Eu já estive em outro parto além do meu.
     A afirmação tirou o fazendeiro de seu transe alcoólico assustador, e o fez rapidamente esquecer o pavor inexplicável que a história da criança diabólica lhe provocara. Olhou para o coveiro com seriedade, e o mais velho de volta, com a mesma frieza, e lágrimas escorriam pelo seu rosto pálido e enrugado. Fraco e com o olhar vago o velho disse:
    — Era tão pequena... Minha pequena filha... Teria idade para ser mãe se estivesse aqui conosco hoje. Em seus primeiros e únicos instantes nesse mundo eu vi em seus olhos a maior quantidade de vida no planeta. Era tanto amor que nem me lembro do sangue e da brutalidade do nascimento. Aquela criatura tão pequena e sensível... E poucos instantes depois, morta, nas minhas mãos. O pulmão era frágil demais para o ar espesso e grosseiro de nosso mundo. Hoje ela é um pequeno anjo no colo do Criador.
    O coveiro limpou as lágrimas com as mãos magras, enquanto o fazendeiro ouvia sua história, sem saber como reagir. O mais velho continuou:
    — Sabe, garoto... Quando viemos ao mundo somos tão puros quanto o azul do céu. À medida que entramos em contato com o pecado que já está impregnado nessas terras, nos contaminamos. Aprendemos a ser maus com nossos pais. O dom de cometer um crime não é natural do ser humano. E no momento que nos esquecemos do prazer da inocência que trazemos do ventre, nos envenenamos e ficamos doentes. Envelhecemos. Deixamos o Diabo nos segurar pelas mãos e nos arrastar até o inferno, simplesmente porque aprendemos a fazer isso. Então morremos, e o ódio continua impregnado em nossos filhos. Ele é passado de geração em geração como uma doença.
    O jovem suspirou, tonto, franziu o cenho, e disse calmamente:
    — Me desculpe senhor, mas serei obrigado a discordar de você. O ser humano é um animal tão selvagem quanto um bezerro, ou um lobo. Nascemos em um banho de sangue, urrando como monstros. Somos todos de certa forma filhos de um pecado... E não é à toa que também passamos nossas vidas todas pensando em voltar pelo local de onde viemos, falando de modo grosseiro. Posso te garantir que trazemos todas nossas más intenções desde o útero. Se recém-nascidos fossem tão angelicais, puros, almas saudáveis sem nenhum sofrimento, chorariam como choram?
    — Choram porque ainda são sensível demais. O mal cria uma concha em volta de nós, nosso corpo se acostuma com o gosto do veneno. — Disse o coveiro, fazendo uma careta após falar a palavra "veneno". — Se nascêssemos mal intencionados, imagine como ficaríamos no final da vida... Tão corrompidos que suicidaríamos antes que pudessem nos matar.
    — Você não entendeu. O pecado nos protege dos males alheios. É a lei da natureza. E quando o mundo exterior nos condena pelos nossos pecados, aprendemos a não pecar novamente. Voltamos então ao paraíso, quando já estamos sábios o suficiente para entender o segredo do universo. — Deu um grande ênfase no termo “segredo do universo”. — Deus tira nossas vidas só quando estamos preparados para isso.
    O fazendeiro já estava bêbado nesse ponto do diálogo tétrico que os homens conduziam, e falava de forma lenta, quase a ponto de se perder no meio da linha de raciocínio. Entretanto, era firme na certeza do que falava, tendo já refletido sobre aquela questão em outras tardes ensolaradas de trabalho. Prosseguiu:
    — Aprendemos com nossos erros, e nos santificamos quando percebemos nossa natureza maléfica. É claro que alguns morrem sem ter essa iluminação, mas sofrem em seus momentos derradeiros. É só quando estão derrubados no chão, com as mãos molhadas do próprio sangue, que se arrependem de todos os males que causaram.
    O coveiro refletiu por alguns minutos, se levantou, cambaleante, e alimentou o fogo, quase extinto, na lareira. O Sol já não iluminava mais a casa, e as estrelas tentavam brilhar por trás de um lençol de nuvens. O fazendeiro pegou um cigarro de dentro do bolso do casaco, e disse ao anfitrião que ia tomar um ar. O jovem saiu da casa, não mais amedrontado pela lenda do Bebê Diabo, e acendeu o cigarro. Cruzou os braços e olhou em direção ao cemitério. O coveiro seguiu o fazendeiro para fora da casa, e, olhando para cima, tentava procurar a Lua por entre as grandes porções de nuvens que agora tomavam conta do céu.
    — Também sinto que minha esposa nunca irradiou tanta vida quanto fez momentos antes de morrer. Acho que fazemos assim como o céu faz todo dia no entardecer. Contamos nossa melhor piada e somos expulsos do palco. — Disse o fazendeiro.
    — Percebi que em uma coisa nunca discordamos, garoto. Vivemos no inferno. — O coveiro acrescentou, olhando para o céu.
    Os dois estranhos se encontravam perplexos por suas próprias reflexões, cobertos pela escuridão da noite. E por vários minutos os dois homens ficaram ali, sozinhos e em silêncio absoluto, debaixo do céu nublado que escondia as estrelas.

                                                                                        Theo Vargas

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