quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Primeira Luz (II)



O ENFERMO 

     Deitado em uma grande e confortável cama em seu estúdio, Aernout Van Twist contemplava melancolicamente suas derradeiras horas de vida. Agarrado pelas terríveis garras da febre, nenhum médico dos mais renomados do mundo achara a cura para sua condição febril, que estivera consumindo o famoso artista plástico aos poucos, ao longo do decorrer dos últimos meses do ano de 1884. Antes lúcido e cheio de vida, Van Twist era considerado por toda a classe intelectual do mundo como uma das mentes mais brilhantes que já haviam tocado a terra, e seus quadros eram conhecidos por sua infinidade de cores e representações realistas de grandiosas batalhas, deuses antigos e poderosos reis. Os críticos diziam que as telas de Van Twist eram tão realistas, que entrar em uma exposição com suas obras era como encarar uma nova dimensão ainda mais realista do que o mundo que vivemos, e que sua mente seria projetada imediatamente para o um novo universo de perspectivas e tons antes inimagináveis. Mas agora o gênio havia se tornado louco. A febre consumira seu cérebro e a mente mais lúcida do mundo vivia em seu próprio mundo, à milhares de anos luz da terra. Estava trancado em seu estúdio, e alegava para a imprensa, que se reunia todas as manhãs em sua porta buscando qualquer tipo de notícia, que morreria ali mesmo, mas que trabalhava incansavelmente na grande obra de sua vida. Seu objetivo era provar que não estava ficando louco, nem mesmo em seus últimos dias de vida, e quando morresse, deixaria a prova de sua sanidade: Uma obra-prima capaz de distorcer todas as noções de realidade concebidas pelo ser humano.
     Infelizmente, Aernout não estava nem perto de atingir seu objetivo. Nas últimas semanas havia criado telas impressionantes, mas nada que apresentasse algo que nunca tinha feito antes. Em um acesso de fúria, incendiou todo seu progresso em uma pilha de telas incríveis que considerava medíocres. Ateou fogo em sua própria arte e a jogou, em forma de cinzas, do parapeito de sua janela em direção à multidão que se formava na rua, um grupo de críticos e grandes apreciadores de sua arte que aumentava gradativamente ao longo que os dias passavam e ninguém via o artista. Tudo que o grupo conseguiu ver foi um gênio frustrado e em decadência jogando caixas de cinzas de sua janela, em direção às ruas de Amsterdã. Van Twist se encontrava em total rendição à morte, destruído por sua condição médica que lhe causava paranóia e bruscas alterações de humor. Estava fraco e cansado, sentindo que não passaria das próximas horas. O pensamento de que não teria tempo de expressar suas últimas sensações do mundo terreno em forma de arte dilaceravam sua mente já fragilizada, o levando à um estado de ansiedade terrivelmente destruidora. Era impossível correr contra o tempo, e todos se lembrariam de Aernout Van Twist para o resto da história como o lunático que demonstrou ser em seus últimos dias.
     A verdade é que poucos sabiam o que havia levado Aernout àquela situação degradante. No fundo o artista tinha a certeza de que nenhum médico europeu renomado ou sábio curandeiro poderia achar a fonte maléfica da destruição de seu espírito pois a causa tinha uma origem totalmente metafísica. Há quatro meses, o grande amor da vida de Van Twist havia cometido suicídio. Jeanne Tiercelet era uma garota jovem, filha de banqueiros franceses, que morava em Amsterdã. Era uma adoradora de arte, e seus conhecimentos de filosofia estética logo ganharam o coração de Aernout quando se conheceram. Para o artista a situação era totalmente surreal, e quase não acreditava que seu fim aconteceria procedente de uma causa tão irracional como uma paixão. Mas a sensibilidade do jovem pintor era sua maior fraqueza, e quando se deu conta da morte de sua amada toda sua visão estabelecida de um mundo sólido se desmanchou, como telas coloridas sendo consumidas pelo fogo. Assim estava há semanas tentando reproduzir um retrato de sua amada que captasse toda a vivacidade de quando a jovem era viva.
     Exausto, Van Twist fumava seu cachimbo deitado solitário na grande cama de casal no centro de seu estúdio, e se lamentava diante do desejo impossível de se deitar com sua amada pela última vez. A noite caiu, e atordoado pela febre, Aernout decidiu que teria uma última tentativa. Acendeu uma vela, e sob a fraca luz colocou a última tela em branco que restava no estúdio no cavalete, dando pinceladas leves com seus braços fracos no espaço em branco. Ficou por quase toda a madrugada diante daquela criação, totalmente hipnotizado com as cores que deixava seu sub-consciente escolher. A cera da vela escorria e pingava em seus pés, mas a dor não o distraía. Sujava suas mãos de tinta sem se preocupar, e usava seus dedos para tocar o pigmento que colocara na tela, em uma tentativa de chegar mais perto da figura de Jeanne. Estava cansado, mas seus olhos vidrados não se despregavam daquela obra, e se aproximava cada vez mais de sua criação, quase a tocando com seu nariz. Sua cabeça doía mas não podia se render à morte já que talvez estivesse diante de sua tão procurada obra-prima. Quando finalmente acabou, deu alguns passos para trás, e a imagem que viu foi suficiente para causar-lhe um espanto tão grande que suas pernas fraquejaram, e ele se entregou totalmente ao chão. Caído, o fraco e pálido artista analisava assustado a sublime e aterrorizante criatura que pintara. Era de fato seu quadro mais realista, quase mais sólido do que a própria realidade, mas não era nada nem de perto relacionado à jovem Jeanne. Van Twist estava sentado diante de sua mórbida criação e podia praticamente tocá-la. Sentiria sua textura mole e gélida, dentro da paisagem retratada que se parecia como um céu noturno escuro e vazio observado por um telescópio. O catatônico artista não conseguia desviar sua atenção para outro lugar que não fosse os olhos do monstro, que reluziam pequenos como duas pedras brancas brilhantes no fundo do oceano. A cabeça da criatura era grande, gorda e alongada, e parecia estar presa dentro de um tipo de capacete de vidro, semelhante a um aquário. Para fora do capacete de vidro, pela base do globo transparente, saíam doze tentáculos imensos, que flutuavam livres no cenário espacial do quadro como braços que poderiam tocar a mais distante das mentes.
     O artista tinha toda sua atenção sugada para dentro do quadro de forma hipnótica, e quanto mais sua mente mergulhava para dentro da tela, mais real o monstro parecia. Seus tentáculos pareciam fazer um tipo de movimento incessante, como se estivessem flutuando debaixo d'água, e a pintura aparentava ser um tipo de portal para o lar da criatura. A vela do quarto já tinha se apagado, e a única fonte de luz no local eram os olhos o monstro, que brilhavam como estrelas refletidas pela água do mar, iluminando todo o estúdio com um tipo de luz pálida e fraca. Os tentáculos se aproximavam de Aernout, que se deitara encolhido no chão como um feto sozinho no útero, assustado com a vida do lado de fora do ventre da mãe. O artista estendeu a mão e tocou a ponta do tentáculo, que era gelada e macia como a pele de um cadáver. O imenso braço do polvo de doze tentáculos deitou-se ao lado do artista, se mexendo de uma forma totalmente orgânica, como um pulmão humano preenchendo seus alvéolos com oxigênio. Aernout encostou seu rosto contra o tentáculo e sentiu pela última vez o perfume de Jeanne, como se a jovem estivesse ali, deitada ao lado de Van Twist no chão do quarto. O artista segurou com força a criatura, e quase conseguia ouvir a respiração da jovem. Em sua imaginação tocava a pele de sua amada, que era macia como uma teia de seda colossal, tecida pelo maior aracnídeo do mundo. Quanto mais forte Aernout segurava a criatura, mais ela se aproximava com os outros tentáculos, que envolviam Van Twist como um casulo e o levantavam suspenso no ar. O monstro o colocou gentilmente de volta na cama, e o artista se sentiu como se estivesse deitado ao lado do corpo de sua amada. Quando sentiu o frio da criatura, de repente em sua imaginação febril logo veio a imagem terrível de estar deitado com o cadáver de Jeanne. Assustado, o artista tentou se livrar dos braços gelados da criatura, mas era tarde demais: O monstro havia colocado um de seus tentáculos em volta do pescoço de Aernout, e estava o estrangulando como uma jibóia faz com uma presa, prendendo sua respiração. Van Twist se rendeu à criatura até ficar totalmente inconsciente, e finalmente deixou ser levado pelos braços reconfortantes da morte.

                                                                                                             Theo Vargas

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